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OPINIÃO ECONÔMICA

O grande abismo

Avanço da inteligência artificial e da robótica, aliado a regras trabalhistas mais rígidas, pode empurrar milhões de brasileiros ao desemprego

Marco Azevedo | | Atualizado em
Opinião Econômica


          Imagem ilustrativa da imagem O grande abismo
Marco Azevedo é empresário do ramo turístico. |  Foto: Divulgação

Automação, Barreiras Trabalhistas e o Risco de Uma Convulsão Social. O Brasil está prestes a entrar em uma das maiores transformações socioeconômicas da sua história, mas parece fazer isso de olhos vendados.

De um lado, acompanhamos o avanço acelerado da inteligência artificial e da robótica, capazes de assumir não apenas o trabalho braçal na indústria e no campo, mas também tarefas intelectuais no setor de serviços e escritórios.

Do outro lado, o País discute novas regras rígidas para o mercado de trabalho, como a mudança da escala 6x1 para 5x2. Embora a intenção de proteger quem já está empregado seja compreensível, o momento escolhido cria um efeito colateral perigoso: a criação de uma barreira invisível para quem está fora do mercado.

Ao encarecer e engessar a contratação de seres humanos — movimento reforçado por uma Reforma Tributária que não permite descontar impostos sobre a folha de pagamento, mas dá créditos fiscais para quem compra máquinas e softwares —, o País empurra as empresas para uma escolha simples: automatizar.

A proteção pensada para o trabalhador atual acaba virando a porta fechada para o jovem que busca o primeiro emprego.

O Abismo da Mão de Obra Não Qualificada: Essa conta fica ainda mais pesada quando olhamos para a realidade da educação brasileira. O País historicamente falhou em entregar um ensino básico e técnico de qualidade. O resultado é um exército de trabalhadores preparado para executar tarefas repetitivas — justamente as primeiras que as máquinas já fazem melhor, mais rápido e sem custos trabalhistas.

Quando uma onda de robôs e programas de IA baratos encontra uma força de trabalho com baixa qualificação e regras de contratação caríssimas, o resultado não é a modernização, mas o desemprego estrutural.

Esse cenário lembra os avisos clássicos da ficção científica e do cinema, onde a tecnologia cria uma divisão brutal na sociedade: No cinema: Filmes como Elysium mostram exatamente esse abismo: uma elite cercada por tecnologia e uma massa imensa de pessoas deixadas para trás, sobrevivendo de empregos informais em cidades caóticas.

Na literatura: Em obras como Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, a sociedade é dividida de forma rígida entre os que operam a tecnologia e os que são marginalizados por ela.

Se nada for feito, o Brasil corre o risco de transformar essa ficção em rotina. Sem emprego formal e sem renda, multidões de jovens podem ser empurradas para a informalidade ou, no pior dos cenários, cooptadas pelo crime organizado. O colapso do poder de compra da população e o aumento da violência urbana são os ingredientes perfeitos para uma convulsão social.

Caminhos para Evitar o Colapso: Para evitar que a tecnologia destrua o mercado de trabalho, o Brasil precisa de soluções pragmáticas que incentivem a manutenção e a criação de postos de trabalho humanos, em vez de punir quem contrata.

1. Imposto Negativo para Grandes Empregadores: Em vez de taxar pesadamente a folha de pagamento, o governo poderia adotar um sistema de incentivo direto. Empresas que mantiverem ou ampliarem seus quadros de funcionários humanos receberiam créditos tributários ou deduções fiscais significativas. Quanto mais pessoas a empresa empregar, menos imposto ela paga.

2. Contratos Flexíveis por Hora Trabalhada: Permitir formatos de trabalho por hora ou por demanda real, reduzindo a burocracia e permitindo que pequenos negócios, o setor de turismo, bares, restaurantes e comércio consigam absorver mão de obra de forma legal e descomplicada.

3. Foco Emergencial em Requalificação: Criar parcerias diretas entre o setor produtivo e escolas técnicas para treinar rapidamente a população em funções operacionais que a tecnologia ainda não consegue substituir, como atendimento humanizado, manutenção, turismo e serviços locais.

O avanço da inteligência artificial e da robótica não precisa ser uma tragédia social. Contudo, insistir em encarecer o trabalho humano em um País com sérios gargalos educacionais é construir, passo a passo, o caminho em direção ao abismo.

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