O Chamado da Psicologia
História de dedicação mostra a força transformadora da psicologia na vida das pessoas
Na última quarta-feira (27) celebramos o Dia do Psicólogo, e falar sobre psicologia é algo que me enche de gratidão. Quando olho para minha trajetória, me lembro da menina de 17 anos que sonhava em ajudar pessoas. Era esse o meu desejo: fazer a diferença na vida do outro. Muitos entram na psicologia para se conhecer; eu entrei para cuidar, para acolher, para transformar histórias.
No início, eu estava encantada com tudo o que aprendia na graduação. Era fascinante compreender a mente humana e descobrir ferramentas para aliviar dores invisíveis. Mas o caminho não foi simples. Minha mãe, preocupada, dizia: “Volta para casa e faz Direito. Psicologia não dá futuro, você vai passar fome.” Ela não acreditava na profissão e, para o mundo, ser psicóloga significava “cuidar de doidos”.
Cedi à insistência dela, mas com uma condição: continuaria na psicologia. Foi assim que voltei para Vitória. Me matriculei em Psicologia na primeira turma da UVV e na primeira turma de Direito da Estácio – ironicamente, a mesma instituição onde hoje leciono. Minha rotina era insana: manhãs na psicologia, tardes de estágio, noites no curso de Direito.
Formei-me em Psicologia e, seis meses depois, em Direito. Minha mãe, orgulhosa, fechou duas varandas de nossa casa e transformou uma delas em consultório de psicologia e a outra, em escritório de advocacia. Mas, mesmo com tudo preparado, algo não se encaixava. Fiz estágios em conselhos tutelares, Ministério Público e defensorias. Eu sentia que meu lugar não era ali.
A grande virada veio quando passei no processo seletivo da Sejus e me tornei a terceira psicóloga contratada para atuar em reintegração social, em um presídio em Viana. Deixei para trás consultório e escritório, e mergulhei no desafio. Ali, percebi a potência da psicologia. Lembro de conversar com internos condenados por tráfico, ouvir histórias e enxergar habilidades. Um deles me disse: “Eu fazia as contas.” Pensei: “Esse homem seria um excelente contador.” Era sobre isso: ressignificar, abrir caminhos, acreditar em possibilidades.
Nunca mais advoguei. O Direito voltou para minha vida apenas como área de ensino, quando comecei a dar aulas de Psicologia Jurídica.
Depois vieram as salas de aula no curso de Psicologia, a coordenação do curso e, na pandemia, redescobri a clínica, agora on-line, por necessidade. E me apaixonei por esse reencontro.
A pandemia trouxe algo importante: a sociedade entendeu que saúde mental é essencial. Mas eu já sabia. Sabia porque vivia isso todos os dias, porque a psicologia transforma quem a pratica e quem dela precisa. É uma profissão quase divina, no sentido de tocar vidas com empatia e responsabilidade.
Por isso, deixo aqui meu reconhecimento: parabéns aos meus colegas, força aos meus alunos e um pedido à sociedade: valorizem a psicologia. Ela carrega um compromisso social profundo, um amor imenso pelo ser humano. E, sim, precisa ser economicamente reconhecida – afinal, quem cuida também precisa viver.
Os estudos apontam: a psicologia será uma das profissões que não perecerão, mesmo com inteligência artificial, robôs ou qualquer tecnologia. Porque, em um mundo tão adoecido, as pessoas continuarão precisando de algo que nenhuma máquina entrega: acolhimento humano.
Feliz Dia do Psicólogo!
MATÉRIAS RELACIONADAS:



