Os desobrigados do “obrigado!”
A falta de reconhecimento por gestos de ajuda pode refletir o enfraquecimento da empatia e do respeito nas relações presenciais e digitais
Pós Doutor em Psicanálise, doutor em Comunicação e professor titular da Ufes
José Antonio Martinuzzo é Professor Titular da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Graduado em Jornalismo, é mestre e doutor em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense, com pós-doutorado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Pesquisa mídia, política, comunicação organizacional, redes digitais e psicanálise, sendo autor de diversos livros na área.
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A cara cada vez mais escancarada da sociabilidade perversa tem muitas faces, desde maldades oceânicas até malvadezas rasas. A ruindade é de raiz única, a psicopatia, mas seus tentáculos são pervasivos. A perversão do dia a dia, por mais oculta que se faça pelo óbvio que se tem feito, por sua repetição normalizadora, ajuda a ver o quão arraigada está a modalidade existencial do desprezo ao outro e tudo o que isso implica de desumanização. Quer um exemplo ordinário?
Quantas vezes lhe faltou um “obrigado” depois de um gesto de doação? Quantas vezes você recebeu as costas por resposta em ocasiões de oferta de ajuda? Quantas vezes você teve a impressão de que mensagens online estivessem incompletas, pois não havia nenhuma palavra a indicar gratidão, sequer um emoji?
No presencial e no digital, as duas ambiências em que vivemos na atualidade, a falta de educação é a mesma – e recrudescente. Mas é preciso dizer que isso que pode parecer apenas deselegância, pressa ou desrespeito, pode ser muito mais.
Pode ser mais um sintoma da sociabilidade perversa que estamos construindo dia a dia. A psicopatia como paradigma de laços sociais se funda numa realidade em que, entre outros, as conexões entre indivíduos se reduzem a um utilitarismo objetificante.
As relações se tornam basicamente de uso. E se alguém se transforma em mero instrumento do outro, por que reconhecer nele o mesmo status de dignidade daquele que a tudo se deve, mas nada deve, nem mesmo um simples “muito obrigado”?
Temos uma população crescente de senhores e senhoras das vontades que, miseráveis da valorosa gratidão, fazem do outro objeto indigno de respeito, apenas servo de seus desejos e necessidades e caprichos.
Por óbvio que não se deve fazer algo à espera de um gesto, mínimo que seja, de gratidão. A ajuda genuína, mínima que seja, é um caminho de mão única. De toda sorte, um preceito fundante do humanismo é o fato da convivência entre iguais, o que prescreve reconhecer a presença do outro em nossa existência – ainda mais quando se trata de uma presença generosa.
Em várias culturas, diz-se que, muitas vezes, o ajudado, além de não reconhecer apropriadamente o auxílio recebido, ainda pode proscrever da sua convivência aquele que o ajuda. Agradecer significaria reconhecer-se de algum modo dependente de outrem, além de fragilizar-se diante de alguém que conhece seus calcanhares de Aquiles.
Trocando em miúdos, lançando ao ostracismo quem ajuda ou mesmo negando-lhe uma palavra de gratidão, aqueles inaptos ao “muito obrigado” podem ser mesmo espíritos de pouca fibra – covardes diante de si mesmos e do outro.
Entre perversão e covardia, passando pela falta de educação, o fato é que estamos perdendo o costume de um gesto civilizatório tão básico quanto delicado. A vida se faz mais aconchegante e calorosa se temperada com gestos explícitos de gratidão, reconhecendo no semelhante um irmão de jornada e adubando uma atitude que, florescendo, faz desta passagem sob o Sol algo menos cáustico, sofrido e solitário.
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