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JOSÉ ANTÔNIO MARTINUZZO

O outono das palavras ditas

“Não temos outra coisa que palavras. Somos as palavras que usamos. A nossa vida é isso”

José Antônio Martinuzzo | | Atualizado em
José Antônio Martinuzzo

Pós Doutor em Psicanálise, doutor em Comunicação e professor titular da Ufes

José Antonio Martinuzzo é Professor Titular da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Graduado em Jornalismo, é mestre e doutor em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense, com pós-doutorado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Pesquisa mídia, política, comunicação organizacional, redes digitais e psicanálise, sendo autor de diversos livros na área.


          Imagem ilustrativa da imagem O outono das palavras ditas
José Antônio Martinuzzo é pós-doutor em Psicanálise (UERJ), doutor em Comunicação (UFF) e professor titular da Ufes |  Foto: Acervo pessoal

“Não temos outra coisa que palavras. Somos as palavras que usamos. A nossa vida é isso”, sentenciou José Saramago, em 2008. Há pouco, revelou a revista Perspectives on Psychological Science: a cada ano, estamos falando 120 mil palavras a menos, num silenciamento diário de 338 significantes.

Parece, assim, que estamos a fazer sangrar nossa veia de falantes e a sufocar justamente a modalidade de uso da palavra que mais enriquece as línguas, garantindo sua longevidade. Tudo somado, estamos tornando cada vez mais esquálida a nossa condição de humanos.

E isso em plena era da informação, com inimagináveis quantidades de palavras circulando nas nuvens digitais que sombreiam a nossa existência em bidimensão, a presencial e a informacional.

E é exatamente aí que pode estar residindo o perigo: a digitalidade. A atual vivência digital opera potencializando algumas das marcas mais drásticas da atualidade, como ensimesmamentos e perversões – para ficarmos no crucial à nossa análise.

Ao falarmos de vida digital, falamos de bolhas e cápsulas, de medos e obsessões... Tratamos de um modus vivendi hostil a interações sem script. Amedrontados e ansiosos, queremos interagir sob total controle do ambiente e do curso das conversas. Aqui, não há tempo nem conforto no uso da fala. Só da escrita – e ainda estrita.

Defendo que estamos numa transição da sociabilidade neurótica para a perversa. O que tem restado do paradigma que estamos deixando para trás é essa neurose com fortes traços paranoide-ansiogênicos. Acelerando mesmo estamos rumo à perversão como base das relações.

Nesse tipo de sociabilidade, o outro deixa o lugar de semelhante e passa a ocupar uma posição de objeto utilitário. Para que falar com alguém visto como coisa? Bastam meias-palavras e emojis. Palavras se endereçam a humanos – se o que pareio não o é, palavras para quê? Ainda mais a atenciosas palavras faladas!

Somem-se a esse cenário a herança maldita da pandemia e seu isolacionismo insistente e a facilidade da IA em resolver nossas questões com o manejo das palavras, e teremos um horizonte ainda mais árido à verbalização.

Para a psicanálise, a palavra é elemento fundante do sujeito, tornado humano porque imerso no campo da linguagem. A palavra e sua associação livre em falas dirigidas ao analista conformam o essencial do tratamento, de acesso a formações do inconsciente e reelaborações simbólicas do existir, para certa autonomização dos sintomas e produção de algum bem-estar relevante.

Diante do emudecimento crescente e generalizado, especialmente entre os mais jovens, muito se discute acerca de perdas cognitivas, no agora e no depois. Mas a verdade é que, abrindo mão das palavras faladas e do laço que elas ensejam, estamos perdendo mesmo é nossa maior distinção dentre os mamíferos.

Muito se fala, por estes tempos, do risco de extinção da vida por IAs descontroladas. Mas o apocalipse pode ser muito mais silencioso e prosaico: a morte da palavra. E com seu fenecimento, o desaparecimento do humano em nós. Afinal, do Gênesis a Saramago, passando por Freud, somos gente pelo verbo.

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José Antonio Martinuzzo é Professor Titular da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Graduado em Jornalismo, é mestre e doutor em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense, com pós-doutorado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Pesquisa mídia, política, comunicação organizacional, redes digitais e psicanálise, sendo autor de diversos livros na área.

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