A técnica do fim do mundo
Coluna é publicada no jornal A Tribuna
Pós Doutor em Psicanálise, doutor em Comunicação e professor titular da Ufes
José Antonio Martinuzzo é Professor Titular da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Graduado em Jornalismo, é mestre e doutor em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense, com pós-doutorado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Pesquisa mídia, política, comunicação organizacional, redes digitais e psicanálise, sendo autor de diversos livros na área.
Siga o Tribuna Online no Google
Depois do alerta de que a humanidade pode evaporar sob os desígnios maquínicos da digitalidade empresarial tornada arma de disputa geopolítica global, muito se vem discutindo sobre esta modalidade de extinção dos terráqueos.
A IA seria o vetor do nosso extermínio, já em 2030. Na dúvida, e como previsão não é sentença, por ora, vale o pensar sobre a possibilidade.
De pronto, resta salientar que esse aviso de apocalipse à vista não veio de nenhum tecnófobo. São alguns próprios criadores da criatura que pedem menos entusiasmo com o investimento na performance da criação, pois o caminho até o prenunciado fim seria aquele da tecnologia com capacidade de fazer escolhas autonomamente, fora do controle humano – o que já estaria em véspera.
Pelo andar da carruagem digital, a verdade no horizonte dessa tecnologia parece ser mesmo esta: desenvolver uma espécie de livre-arbítrio algorítmico à semelhança da faculdade distintiva dos humanos dentre os mamíferos.
Para o Aulete, arbítrio é “decisão que só leva em conta a própria vontade”; “capacidade de discernir os fatores que formularão essa vontade e de decidir por ela”.
A possibilidade de comandos volitivos tem sido, até hoje, privilégio da inteligência humana. Estaríamos, portanto, à beira de uma virada histórica, em que os humanos, brincando de Deus, teriam criado uma entidade que pode sair da sua tutela e se autoaperfeiçoar ao ponto de passar a decidir por parâmetros próprios.
Muito antes da popularização do que se nomeia Inteligência Artificial, o geógrafo Milton Santos, num livro de 2000, já alertava para o uso perverso da mais doce das tecnologias jamais inventada.
As “técnicas da informação – ao contrário das técnicas das máquinas – são constitucionalmente divisíveis, flexíveis e dóceis, adaptáveis a todos os meios e culturas”, pontuou, alertando que elas ainda não estavam a serviço do homem. Pelo visto, podem ainda não estar.
Freud fez, há quase um século, um comentário clássico acerca do uso das técnicas:
“O homem tornou-se uma espécie de ‘Deus de prótese’. Quando faz uso de todos os seus órgãos auxiliares, ele é verdadeiramente magnífico; esses órgãos, porém, não cresceram nele e, às vezes, ainda lhe causam muitas dificuldades.
Não obstante, ele tem o direito de se consolar pensando que esse desenvolvimento não chegará ao fim exatamente no ano de 1930 A.D.
As épocas futuras trarão com elas novos e provavelmente inimagináveis grandes avanços nesse campo da civilização e aumentarão ainda mais a semelhança do homem com Deus.
No interesse de nossa investigação, contudo, não esqueceremos que atualmente o homem não se sente feliz em seu papel de semelhante a Deus”.
Milton Santos alertava que era necessário ir além do hiperfoco na mutação tecnológica em si, passando-se a privilegiar o debate ampliado e multidisciplinar acerca das “condições, também hoje presentes, que podem assegurar uma mutação filosófica do homem, capaz de atribuir um novo sentido à existência de cada pessoa e, também, do planeta”.
Alerta mais que relevante, especialmente quando se está a cogitar que estamos diante da técnica do fim do mundo.
SUGERIMOS PARA VOCÊ:
José Antônio Martinuzzo, por Pós Doutor em Psicanálise, doutor em Comunicação e professor titular da Ufes
José Antonio Martinuzzo é Professor Titular da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Graduado em Jornalismo, é mestre e doutor em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense, com pós-doutorado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Pesquisa mídia, política, comunicação organizacional, redes digitais e psicanálise, sendo autor de diversos livros na área.
ACESSAR
José Antônio Martinuzzo,por Pós Doutor em Psicanálise, doutor em Comunicação e professor titular da Ufes
José Antonio Martinuzzo é Professor Titular da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Graduado em Jornalismo, é mestre e doutor em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense, com pós-doutorado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Pesquisa mídia, política, comunicação organizacional, redes digitais e psicanálise, sendo autor de diversos livros na área.
Pós Doutor em Psicanálise, doutor em Comunicação e professor titular da Ufes
José Antonio Martinuzzo é Professor Titular da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Graduado em Jornalismo, é mestre e doutor em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense, com pós-doutorado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Pesquisa mídia, política, comunicação organizacional, redes digitais e psicanálise, sendo autor de diversos livros na área.
PÁGINA DO AUTOR