Tecnologia: preocupação com crise faz empresas estocarem chips
Crise dos chips leva fabricantes a coibir estoques e pressionar preços
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A preocupação com a crise tem feito empresas estocarem chips de memória, o que tem levado a um movimento raro: as três maiores fabricantes de chips do mundo estão se unindo para investigar seus clientes e evitar essa estocagem excessiva.
Samsung, SK Hynix e Micron se uniram para exigir transparência de seus clientes quanto aos volumes de pedidos e o destino final dos componentes, para evitar que os produtos, já escassos, fiquem parados em estoques, o que distorceria ainda mais os preços do mercado e agravaria a crise.
Na prática, a auditoria conjunta visa forçar clientes a revelar para quem estão vendendo e justificar o volume de suas compras, para que não haja um “colchão” de segurança artificial e, consequentemente, uma bolha de preços insustentável a longo prazo.
Redução
A crise dos chips tem feito fabricantes de produtos eletrônicos até mesmo reduzirem a quantidade de memória embarcada nos produtos.
O mercado deve registrar maior oferta de computadores com 8 GB de RAM, em detrimento de modelos com 16 GB, como forma de equilibrar preços, de acordo com a Abisemi e fabricantes do setor. Esse movimento de “downgrade” pode, mais adiante, gerar um efeito inverso, com desaceleração da demanda por memórias.
Para o Brasil, o cenário é ainda mais desafiador. Em 2025, as vendas de celulares recuaram 4% em unidades, enquanto o mercado de computadores permaneceu praticamente estagnado, segundo a IDC. A alta global nos preços de memória adiciona pressão a um setor já afetado por juros elevados, inflação e volatilidade cambial.
Mesmo com a expectativa de um ciclo de troca de computadores adquiridos durante a pandemia, o ambiente de preços mais altos tende a levar consumidores e empresas a adiar decisões de compra, avalia a IDC América Latina.
A demanda adicional por TVs e celulares, impulsionada pela Copa do Mundo de futebol, também aumenta a pressão sobre a cadeia produtiva, especialmente em um momento de oferta restrita de memórias e componentes essenciais, segundo associações do setor.
Saiba mais
Desde a década de 1980
Os automóveis no Brasil começaram a ganhar componentes eletrônicos na década de 1980, com a adoção dos sistemas de injeção eletrônica. Em vez do carburador — um componente 100% mecânico —, um pequeno chip passava a controlar a quantidade de combustível a ser injetada no motor.
A implementação dos eletrônicos foi influenciada pela demanda cada vez maior para que carros poluam menos. Mesmo que já vista como obrigatoriedade nos anos 80, acabou passando a ser vista como uma necessidade nos dias atuais, já que é praticamente impossível retornar ao sistema de carburação antigo.
Semicondutores
Um semicondutor é o efeito que um elemento químico apresenta de ser isolante ou condutor de energia elétrica, dependendo da temperatura ou outro estímulo.
Em 1833, Michael Faraday descobriu que a resistência do Sulfato de Prata apresentava um efeito contrário ao esperado com outros materiais: diminuía com o aumento da temperatura. Anos mais tarde, descobriu-se o efeito semicondutor em alguns sulfetos metálicos, como o sulfeto de chumbo e o sulfeto de ferro.
Atualmente, os semicondutores são a matéria-prima para a fabricação de componentes eletrônicos como diodos, transistores, microprocessadores, enfim, quase tudo que existe em uma placa de circuito.
Cenário desafiador
Em nota, a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) disse que o momento é desafiador e exige mobilização para evitar consequências graves.
Um veículo convencional possui, em média, de 1.500 a 2.000 chips, chegando a até 3.000, no caso de modelos mais sofisticados.
Considerados fundamentais para o funcionamento de diversos recursos, os componentes são distribuídos por praticamente todos os sistemas do veículo no processo de fabricação. Sem eles, dispositivos simples, como ar-condicionado, e complexos, como assistentes de condução, são incapazes de funcionar.
Uso em freios, suspensão e até em faróis
Se, na década de 1980, os chips eram novidade no gerenciamento do motor, hoje estão por toda parte. Os freios são eletronicamente controlados por uma central, que recebe informações da roda, para evitar o travamento e o excesso de giro, por exemplo.
Em alguns modelos Premium, a suspensão é gerenciada eletronicamente por uma central, que recebe informações da inclinação do veículo. Se atingir um determinado ponto, a central da suspensão conversa com a do freio e ambas agem para tentar impedir o capotamento do veículo.
Os sistemas de conforto também são controlados eletronicamente, com centrais que gerenciam a temperatura do ar-condicionado, por exemplo. Em dias muito frios, mesmo que o motorista ligue o botão do ar, o compressor não liga, pois recebe informação da central de que a temperatura externa está já baixa.
Até mesmo os faróis são controlados por centrais eletrônicas, principalmente nos veículos que possuem acionamento automático dos faróis (baixo e alto). Um dispositivo eletrônico informa à central que a luminosidade está baixa e é hora de acender os faróis. Nos veículos que possuem comutação automática de farol alto, uma câmera identifica que não há veículos à frente, e informa à central que é seguro ligar o farol alto, e vice-versa.
Análise
“Solução global passa por expansão da capacidade produtiva”
Fabricantes já repassam aumentos de mais de 20% em eletrônicos no Brasil, e a tendência é que celulares, notebooks e carros continuem a encarecer nos próximos meses.
A médio prazo, os riscos incluem a contínua alta de preços, a redução na oferta de produtos e a venda de aparelhos com configurações inferiores.
A longo prazo, a persistência da crise ameaça a inovação e a competitividade de setores dependentes, como o automotivo e o de telecomunicações.
A solução global passa pela expansão da capacidade produtiva, um processo lento que leva anos. Para o Brasil, reduzir a dependência de importados envolve fortalecer a indústria local com investimentos em P&D e fábricas, como os previstos na nova Lei Brasil Semicon, embora a autossuficiência seja um objetivo de longo prazo.
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