Celulares, notebooks e até carros mais caros com IA
Fabricantes estão priorizando produção de chips específicos para data centers de IA, o que criou escassez tecnológica
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Produtos como celulares, computadores e até mesmo automóveis vão ficar mais caros no Brasil por conta do impacto das Inteligências Artificiais na produção de chips de memória tecnológicos.
Isso porque os fabricantes de chips, que são necessários para o funcionamento dos equipamentos eletrônicos, estão direcionando, por uma questão de maior rentabilidade, suas produções para abastecer data centers de IAs com chips mais avançados, o que reduz a oferta de memórias tradicionais.
O economista Vaner Corrêa explica que essa “transferência” do foco das fábricas está criando uma escassez de chips que, consequentemente, encarece o custo de produção dos bens que dependem deles.
“Esse efeito no Brasil é amplificado pelo câmbio desfavorável, impostos e custos logísticos, o que faz o reajuste chegar mais rápido e com maior intensidade ao consumidor final”, explica.
O CTO da Intelliway Tecnologia Frederico Comério explica que esse “efeito dominó” está encarecendo toda a cadeia de produção em uma esfera global, e o Brasil não ficará imune ao impacto.
“Há poucos países no mundo que são polos produtores de chips, como é o caso de Taiwan. O Brasil fica dependente deles e precisará investir em fábricas próprias para não sofrer com um encarecimento no preço de produtos tecnológicos. Mesmo assim, levará décadas até esse impacto ser reduzido”.
Sávio Bertochi Caçador, associado do IBEF-ES e doutor em Economia pela Ufes, explica que a previsão atual é de que celulares e notebooks registrem aumentos no preço entre 15% e 25% no Brasil em 2026, segundo estimativas dos próprios fabricantes.
“Além disso, carros modernos, que usam até 1.500 chips semicondutores em sistemas de segurança e conectividade, podem sofrer reajustes e também atrasos na entrega. Na última crise dos chips, em 2021, o setor automotivo deixou de produzir cerca de 300 mil veículos, e cenário semelhante deve se repetir”, alerta.
O economista Heldo Siqueira Júnior acrescenta que os custos para investir em tecnologia de ponta são altos, mas os preços altos dos produtos podem tornar as iniciativas brasileiras economicamente viáveis.
“É um tipo de investimento que precisa persistir ao longo do tempo para se tornar viável. Não é do dia pra noite”, afirma.
Investimentos locais para reduzir dependência
A dependência brasileira da indústria de chips de Taiwan precisa ser reduzida com investimentos locais e diversificação de parceiros, analisam economistas consultados pela reportagem.
Sávio Bertochi Caçador, associado do IBEF-ES e doutor em Economia pela Ufes, afirma que o País precisa ampliar acordos com Coreia do Sul, Japão e Estados Unidos sobre o tema, mas também deve investir em fábricas de semicondutores locais.
“O problema é que esse setor exige aportes bilionários e um fortalecimento paralelo do País às universidades e centros de inovação em microeletrônica”, observa.
O economista Vâner Correa analisa que, sem coordenação estatal, o mercado sozinho não será capaz de resolver esse tipo de gargalo.
“É preciso que seja criada uma política industrial focada em semicondutores, com incentivos à atração de fábricas e centros de encapsulamento, bem como parcerias tecnológicas internacionais. O problema é mais estrutural do que técnico, e se nada for feito, tende a se repetir, como já ocorreu em 2021”.
Entenda o caso
Que chips são esses?
Chips de memória RAM são componentes eletrônicos voláteis, essenciais em computadores e smartphones, que armazenam temporariamente dados de aplicativos e do sistema operacional em uso para acesso ultrarrápido pelo processador. Eles funcionam como uma “mesa de trabalho” da CPU, perdendo informações quando a energia é desligada.
RAM é a sigla para “Random Access Memory” (Memória de Acesso Aleatório, em português). A tecnologia possui esse nome porque o componente armazena dados temporários de programas em execução, agilizando o acesso às informações pelo processador.
Qual o motivo da crise?
A prioridade dada por fabricantes de semicondutores à produção de memórias de alta largura de banda (HBM), utilizadas em servidores de Inteligência Artificial (IA), tem reduzido a oferta de componentes destinados a celulares, computadores, televisores e até veículos.
Impacto direto no Brasil
No mercado brasileiro, os reajustes já começaram a aparecer. Fabricantes repassaram aumentos de preços de pelo menos 20% em PCs e celulares vendidos ao varejo no fim de 2025, refletindo a alta dos custos de memória e a pressão cambial, segundo a Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee).
Para a indústria, o cenário atual é estrutural e tende a se prolongar com a expansão acelerada dos data centers de Inteligência Artificial ao longo dos próximos anos, avaliam representantes do setor de semicondutores.
A adaptação da indústria de semicondutores à nova demanda é lenta e exige investimentos de longo prazo. A americana Micron anunciou, no final do mês passado, um investimento de US$ 24 bilhões (R$ 125,6 bilhões), ao longo de 10 anos, para ampliar a produção de wafers de silício — matéria-prima essencial para a fabricação de memórias — em sua fábrica de Cingapura. O início da produção está previsto apenas para 2028.
Enquanto isso, os preços da matéria-prima seguem em forte alta, pressionando toda a cadeia de eletrônicos.
O peso das memórias no custo total de computadores e celulares dobrou, passando para algo entre 15% e 20%, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Semicondutores (Abisemi).
Reajuste previsto em 2026
O movimento já provocou uma escalada nos preços das memórias e deve resultar em reajustes ao consumidor final ao longo de 2026 e 2027, em um cenário que combina custos elevados, dólar volátil e demanda mais sensível a preços.
Segundo projeções da Counterpoint Research, os preços globais dos chips de memória devem subir entre 40% e 50% no primeiro trimestre de 2026, com nova alta de cerca de 20% no segundo trimestre. A elevação já afeta diretamente a memória DRAM, componente essencial para dispositivos eletrônicos.
Os custos desse insumo aumentaram: 25% em celulares de entrada; 15% em modelos intermediários; e 10% em aparelhos premium.
A consultoria estima que esse movimento deve provocar uma queda de 2,1% nas vendas globais de smartphones em 2026.
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