Policial cria grupo para ajudar famílias com pessoas desaparecidas no ES
Após enfrentar a perda de um irmão, Adriel Moreira criou uma estrutura voltada para dar suporte a quem procura um parente
Familiares de pessoas desaparecidas enfrentam um verdadeiro labirinto de dúvidas diante da ausência repentina de um ente querido. Além da angústia e da incerteza, precisam lidar com questões práticas e burocráticas.
Após viver uma experiência pessoal traumática com o próprio irmão, um investigador da Polícia Civil criou a Associação de Apoio a Familiares de Pessoas Desaparecidas (Aafaped), para dar acolhimento e suporte psicossocial e jurídico aos familiares dos desaparecidos.
A motivação surgiu em outubro de 2012, quando o irmão do investigador Adriel Ludolfo Moreira desapareceu enquanto pescava na região de Setibão, em Guarapari. Joeser Ludolfo ficou sete dias desaparecido até que seu corpo foi encontrado boiando no mar.
Na época, Adriel já era policial e, logo após a tragédia, foi transferido para a Delegacia Especializada de Pessoas Desaparecidas (DEPD), onde atua até hoje.
“Comecei a observar que as famílias não recebiam nenhum acolhimento pós o desaparecimento. Não existe uma estrutura psicossocial preparada para dar o suporte necessário aos familiares dos desaparecidos. Se você tem um plano de saúde, ótimo. Se não tem, é tentar um atendimento no SUS”.
Além do seu trabalho, Adriel coordena as equipes da Aafaped, no oferecimento gratuito de acolhimento psicossocial, jurídico e social às famílias que passam pelo mesmo sofrimento que ele passou.
Adriel detalha como funciona o fluxo de ajuda. “Quem procura a Aafaped é acolhido primeiro por um assistente social e, em seguida, por um psicólogo ou psicanalista. Depois disso, os familiares recebem atendimento jurídico, já que, muitas vezes, a pessoa que desaparece é provedora da casa, e em alguns casos os familiares não sabem como buscar seus diretos”.
A associação também oferece serviços de marketing e divulgação, um aspecto considerado essencial para a mobilização das comunidades em torno das buscas.
Adriel Ludolfo fundador da Aafaped
“Familiares precisam de suporte”
A Tribuna - Além do apoio psicológico, que outros tipos de suporte a associação oferece?
Adriel Ludolfo - Temos advogados, psicanalistas, psicóloga, assistente social e também uma equipe de comunicação. Atuamos de forma integrada desde o primeiro contato com a família, oferecendo acolhimento emocional, acompanhamento psicológico contínuo, orientação jurídica sobre direitos e benefícios e suporte social para encaminhamentos junto aos órgãos públicos.
Além disso, atuamos na divulgação responsável dos casos, ampliando a visibilidade dos desaparecimentos e auxiliando nas buscas.
Por que é necessário assistência jurídica nesse momento?
Percebi que a família precisa avançar além do psicológico e necessita de suporte jurídico. Quando uma pessoa desaparece, surgem muitas dúvidas.
Por exemplo, se há um imóvel em nome do desaparecido, a família pode vender o imóvel depois de quanto tempo? Muitas famílias são humildes e não têm orientação. A pessoa pergunta: 'O que eu faço agora?'. Outro exemplo: o desaparecido é CLT, em 30 dias isso vira abandono de serviço e ele é demitido por justa causa. E os direitos trabalhistas? A família perde tudo? Então montei um corpo jurídico com quatro advogados que ajudam essas famílias gratuitamente quando elas não têm condições.
Como a família pode entrar em contato com a Aafaped?
Pode ser feito através do nosso WhatsApp/telefone (99655-4433), Instagram (@aafaped.oficial ou @procuraespiritosanto) e e-mail ([email protected]).
Existe algum pré-requisito para receber atendimento?
Sim. O atendimento é restrito a familiares até terceiro grau. Não atendemos amigos ou conhecidos diretamente porque precisamos de um familiar responsável para autorizar a divulgação de fotos e cartazes, além de acompanhar a investigação.
Além disso, é necessário também ter feito boletim de ocorrência de pessoas desaparecidas.
Muitas pessoas ainda acreditam que é preciso esperar 24 horas para registrar o desaparecimento. Isso é verdade?
É mito. Não precisa esperar 24 horas. Além disso, existe uma campanha nacional de coleta de material genético. Muita gente não sabe disso. Essa coleta pode ser feita por familiares e é inserida em um banco estadual, que está ligado ao banco nacional. A cada 20 ou 25 dias, os dados são confrontados. Se houver compatibilidade, a família é avisada. Se não houver, ninguém liga.
Existe algum outro recurso importante que as pessoas precisam conhecer?
Sim. Aqui no Espírito Santo existe o Disque-Denúncia 181/Desaparecido, um projeto único no Brasil. Ele permite pesquisar pessoas desaparecidas por meio do site da Secretaria de Segurança, inclusive de qualquer lugar do mundo.
Os números
Pessoas desaparecidas 2025
De acordo com o painel de pessoas desaparecidas do Observatório da Segurança Pública da Secretária de Segurança Pública do Espírito Santo, em 2025, 2.310 pessoas desaparecidas foram registradas no Estado.
Dessas, 19,5% foram encontradas (451).
420 pessoas foram encontradas com vida.
31 foram encontradas mortas.
Idade
Na distribuição dos registros de pessoas desaparecidas por faixa etária, a maior parcela é para adolescente entre 12 e 17 anos.
Em segundo lugar figuram os registros de pessoas desaparecidas com idades entre 18 e 24 anos (10,5%).
Sexo
Das pessoas desaparecidas em 2025, a maioria é do sexo masculino (58,9%).
Dia
Sábado é o dia em que mais há registros de desaparecidos, com 16,8% do total.
Local
A maioria dos desaparecimentos, 1.369, foi registrada em cidades da região metropolitana.
Serra foi a cidade que mais registrou desaparecimentos (354), seguida por Cariacica (346) e Vila Velha (314).
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