“Infidelidade financeira” está entre os principais motivos de divórcio
Mentiras sobre dinheiro, dívidas e desequilíbrio na administração do patrimônio marcam esse tipo de traição
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Marcada por mentiras sobre dinheiro, dívidas e patrimônio, a chamada infidelidade financeira já aparece como um dos principais motivos de divórcio.
Em um dos casos, uma auxiliar administrativo de 27 anos revelou que foi casada por cinco anos, mas decidiu se divorciar porque o marido não era transparente sobre quanto ganhava e não ajudava com as despesas.
“Como ele era servidor público, resolvi consultar o Portal da Transparência e descobri que sua renda era três vezes maior que a minha. Uma amiga em comum me contou que ele ia para a farra e gastava com mulheres e bebidas. Foi o fim da nossa história”.
Advogado especialista em Família e Sucessões, Paulo Augusto Catharino Neto explica que não existe estatística oficial sobre os motivos de divórcio, mas que, na prática e em pesquisas de comportamento, fica claro que o dinheiro é um dos maiores gatilhos de crise conjugal.
“Quando há segredo – gasto, dívida, compra ou conta paralela –, o problema deixa de ser apenas financeiro e passa a ser uma quebra de confiança, o que frequentemente termina em divórcio”, destaca.
A decisão de pedir o divórcio pode partir tanto do homem quanto da mulher. “O ponto central não é gênero: é quem controla a informação e o tamanho do impacto. Hoje, com banco digital, crédito e investimentos acessíveis, a infidelidade financeira pode acontecer em qualquer configuração”.
Miriane Rodrigues Ferreira, mestre em Direito e especialista em Família e Sucessões, salienta que na prática profissional, os conflitos financeiros têm grande relevância e costumam provocar desgaste progressivo ao longo da relação.
“Falta de transparência, desequilíbrio na administração do patrimônio e discussões recorrentes sobre dinheiro fragilizam o vínculo e intensificam crises conjugais que, muitas vezes, já vinham sendo construídas há anos”.
Ainda assim, o que com mais frequência funciona como estopim para o término do relacionamento é a infidelidade conjugal. “Em muitos casos, os problemas financeiros já estavam presentes, mas é a quebra da fidelidade afetiva que precipita a decisão pela separação”.
A partir desse momento, segundo ela, o dinheiro deixa de ser apenas um ponto de conflito interno e passa a ocupar papel central nas disputas.
A advogada civilista Kelly Andrade já atuou em dezenas de casos de infidelidade financeira, alguns, inclusive, que afetaram o psicológico de quem conviveu com essa realidade.
“A confiança financeira é tão essencial quanto a fidelidade afetiva, pois sem transparência não há parceria, apenas convivência”, concluiu.
Quebra de confiança
Entenda a infidelidade financeira
O que é?
Infidelidade financeira é a conduta de um dos parceiros que omite ou distorce informações relevantes sobre dinheiro, como dívidas, rendimentos, gastos, investimentos ou patrimônio.
Embora não seja um conceito técnico do Direito, o termo é amplamente utilizado para descrever situações de quebra de confiança na gestão da vida financeira do casal.
Esse comportamento tem se tornado mais frequente, sobretudo porque muitos casais evitam conversas francas sobre dinheiro para não gerar conflitos.
Também é comum que uma das partes tema julgamentos, busque autonomia financeira sem prestar contas ou esconda informações como forma de proteção diante da possibilidade de uma futura separação.
Divórcios no Espírito Santo
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), por meio da Pesquisa Estatísticas do Registro Civil, mostram a evolução do número de divórcios no Estado:
2020: 5.711
2021: 7.274
2022: 7.416
2023: 7.523
2024: 6.288
Curiosidade
No mesmo período, apenas os divórcios realizados em cartórios no Espírito Santo somam 13.431 registros. Somente no ano passado, foram 2.450 divórcios extrajudiciais, segundo o Sindicato dos Notários e Registradores do Estado (Sinoreg-ES).
Professora vítima de infidelidade financeira
“Ele comprava tudo escondido”
O que começou como um relacionamento intenso e cheio de promessas terminou em desequilíbrio financeiro, desgaste emocional e divórcio.
Após cinco anos, uma professora rompeu o silêncio e contou como a infidelidade financeira contribuiu para o fim do casamento.
A Tribuna — Como começou o relacionamento?
Professora — O relacionamento começou em 2019. Em poucos meses tivemos declarações de amor, noivado e planos de formar uma família. Eu queria ser mãe e acreditava que estava construindo algo sólido. Um ano depois, nos casamos no civil.
Quando surgiram os primeiros conflitos?
A partir da gravidez, percebi um grande desequilíbrio. Desde o enxoval, ficou claro que nunca éramos prioridade.
Em que sentido esse desequilíbrio se manifestava?
As despesas do meu filho ficavam praticamente todas comigo. Ele comprava tudo escondido e dizia que não podia ajudar, mas, ao mesmo tempo, adquiria carro caro, Apple Watch, iPhone moderno, foi promovido várias vezes ganhando mais, investia nele.
Houve momentos em que se sentiu sozinha?
Muitos. Meu filho vivia adoecendo. Eu trabalhava o dia inteiro e à noite estava no pronto-socorro sozinha. Quando pedia ajuda para comprar um antibiótico, ele dizia que não tinha dinheiro, mas vivia em bar bebendo com amigos.
Ele também não me dava nada. Me sentia excluída dos planos dele e, infelizmente, tive que colocar um ponto final em algo que imaginava que seria para sempre. Em 2024, oficializamos o divórcio.
Ele contribuiu financeiramente em algum momento?
Após muita insistência, passou a dar R$ 400 por mês, dizendo que era para ajudar com os custos do nosso filho. Era muito pouco diante das despesas reais.
Hoje ele tem uma caminhonete 4x4 avaliada em cerca de R$ 300 mil, apartamento quitado, anda de jet ski, bebe com amigos, usa roupas de marca. Mesmo assim, pede para reduzir a pensão.
Como essa situação impactou o relacionamento?
Enquanto ele ascendia patrimonialmente, eu estava estagnada. Eu não tinha um parceiro, eu tinha uma sobrecarga.
Além da questão financeira, o que mais pesou no divórcio?
A manipulação emocional, a ausência de afeto e a negligência como pai. Nunca imaginei viver essa experiência, mas a infidelidade financeira destrói famílias. Amor sem responsabilidade não sustenta um casamento.
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