Um filme que a gente já viu
Da fazenda a São Mateus, a pimenta-do-reino refaz o caminho do conilon: investir em pós-colheita, gestão e reputação para ganhar mercado e valor
Marcus e Matheus Magalhães
Marcus e Matheus Magalhães são Analistas do Mercado Agro
Siga o Tribuna Online no Google
Durante muitos anos, o café foi o aluno que mais ouviu sermão no campo capixaba: seque melhor, separe os lotes, cuide da colheita, pense em quem compra lá fora.
Na FICC 2, em São Mateus, nos vimos do outro lado da sala, olhando para a pimenta e reconhecendo uma matéria que já caiu na nossa prova.
Ficou claro na visita que fizemos a Fazenda Lagoa Seca. Ana Paula deixou a indústria do petróleo em 2016 para tocar a propriedade da família, sem formação agrícola. Aprendeu irrigação, poda, certificação e registro de produto com a safra andando.
Ouvimos dela a história da lavoura do primeiro plantio até a carga embarcada, contada por quem conhece cada etapa porque teve de aprender todas.
Hoje a pimenta que sai de lá passa por secagem, seleção e armazenamento com controle de umidade e de aroma, e segue como matéria-prima para indústrias de vários ramos. Inclusive em óleos essenciais, fazendo a pimenta de São Mateus perfumar nosso dia a dia.
Saímos da fazenda conversando sobre pós-colheita, que é onde um produto agrícola ganha ou perde o seu preço. A segunda surpresa veio no auditório. As palestras de pimenta reuniram mais gente do que esperávamos, e gente de todas as pontas da cadeia.
Para quem organiza uma feira de café, ver a sala cheia para falar de outra cultura foi um dos bons momentos daqueles dias.
Os desafios que apareceram ali eram velhos conhecidos nossos: profissionalizar a gestão, levar tecnologia para depois da colheita, entregar um padrão constante e convencer mercados novos de que o produto capixaba merece um preço melhor. O conilon passou exatamente por isso.
Por muito tempo foi vendido a granel, sem nome, tratado como o primo pobre do arábica. Custou anos de terreiro refeito, secador novo, curso, erro e insistência até o comprador começar a pagar pela diferença.
Hoje o mesmo conilon disputa concurso de qualidade e tem cliente que pergunta de qual lavoura ele veio. A pimenta já tem escala. Em 2025, o Espírito Santo exportou
US$ 347 milhões em pimenta-do-reino, recorde segundo a Secretaria de Agricultura do Estado.
É dinheiro que fica no Norte capixaba, no posto de combustível, na loja de insumos, na oficina que conserta o secador às vésperas da safra. O que falta é a parte mais lenta, que é transformar volume em reputação. Convém dizer com franqueza que esse trecho é difícil.
Tecnologia custa, profissionalizar dá trabalho, e comprador exigente costuma recusar antes de aceitar pagar mais. Sabemos como esse filme começa.
Também já vimos o que vem depois dele: quem atravessa encontra um mercado bem mais largo do que o de partida, com espaço para quem entrega qualidade com regularidade. Dá orgulho ver o norte do Estado repetir, com outra lavoura, a mesma teimosia. E a pimenta tem uma vantagem que o café não teve.
Ao lado dela, na mesma região, há uma cadeia que já errou primeiro e sabe onde estão os buracos do caminho. Desta vez, o café pode sentar no fundo da sala e soprar algumas respostas.
MATÉRIAS RELACIONADAS:
SUGERIMOS PARA VOCÊ:
VOZ DO CAFÉ, por Marcus e Matheus Magalhães
Marcus e Matheus Magalhães são Analistas do Mercado Agro
ACESSAR
VOZ DO CAFÉ,por Marcus e Matheus Magalhães
Marcus e Matheus Magalhães são Analistas do Mercado Agro
Marcus e Matheus Magalhães
Marcus e Matheus Magalhães são Analistas do Mercado Agro
PÁGINA DO AUTORVOZ DO CAFÉ
Coluna assinada por Marcus e Matheus Magalhães