Café e pimenta no mesmo palco
Para uma região que cultiva conilon e pimenta com tanto trabalho, ver o debate chegar à porta de casa teve gosto de reconhecimento
Marcus e Matheus Magalhães
Marcus e Matheus Magalhães são Analistas do Mercado Agro
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O Norte do Espírito Santo produz café e pimenta, mas a conversa sobre o futuro dessas culturas costuma acontecer em outros lugares. Entre 8 e 10 de outubro, essa conversa foi até lá: São Mateus recebeu a segunda Feira Internacional do Café Conilon, a FICC.
Durante três dias, na área anexa ao Sesc, produtores, cooperativas, empresas, pesquisadores e investidores dividiram painéis, estandes e conversas de corredor. Falaram de conilon, pimenta, mercado, clima, logística, investimentos e geopolítica.
Fazemos parte da idealização e curadoria da FICC e, por isso, escrevemos com a proximidade de quem viveu a feira por dentro. Para uma região que cultiva conilon e pimenta com tanto trabalho, ver o debate chegar à porta de casa teve gosto de reconhecimento.
A FICC leva o debate do conilon ao Norte capixaba
A feira nasceu como a primeira do País dedicada exclusivamente ao conilon. Em 2025 foi realizada em Jaguaré e, em 2026, chegou a São Mateus, numa proposta itinerante da Adetur, agência de desenvolvimento do turismo do Norte do ES.
Circular pelo Norte tem uma lógica: os seis maiores municípios produtores de conilon, pelos dados de 2024, ficam no Norte e no Noroeste, e São Mateus soma a pimenta-do-reino, da qual concentra cerca de 35% da produção capixaba. A primeira edição, em Jaguaré, já olhava para novos mercados num ano marcado pelo tarifaço.
Uma saca de conilon e um quilo de pimenta saem da mesma região e dependem das mesmas coisas: clima, gente para colher, estrada, porto e regras definidas a milhares de quilômetros dali.
Sinais que a FICC deixa para o setor
Entre o que ouvimos em São Mateus, alguns pontos merecem ficar.
O valor do conilon depende de qualidade, tecnologia, acesso a novos compradores e infraestrutura avançando ao mesmo tempo.
A falta de mão de obra e a sucessão familiar pesam sobre todas as cadeias, e a tecnologia aparece como caminho comum.
A logística ganhou endereço no Norte: São Mateus entrou em junho no ParkLog ES, programa que integra portos, rodovias e áreas produtivas. Esse último ponto pede atenção. Qualidade e tecnologia valem menos quando o frete até o porto consome a diferença.
Do Norte para o centro da conversa
Também vimos outro movimento relevante. Na nossa leitura, regiões e arranjos que antes acompanhavam o debate à distância passaram a falar de dentro dele: cooperativas grandes e pequenas dividiram o painel, e a pimenta teve lugar ao lado do café. Uma feira que circula leva a conversa para perto de quem planta e traz quem decide para perto da lavoura.
Quando o debate entra numa região produtora, ele ganha chão e quem produz ganha interlocutor. Precisamos transformar encontro em negócio, debate em investimento e visibilidade em infraestrutura que chegue de fato ao produtor.
A FICC terminou no dia 10. O trabalho que importa continua nas propriedades, nas cooperativas e nas estradas que ainda precisam acompanhar a safra. O Norte capixaba mostrou que tem produção, território e voz para ocupar esse espaço. Agora cabe a todos nós manter essa conversa viva, safra após safra.
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