Pesquisas avaliam eficácia de canetas emagrecedoras contra álcool e cigarro
Medicamentos estão sendo investigadas para possíveis aplicações na saúde mental, incluindo o controle de dependências
Medicamentos utilizados no tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2, como Ozempic e Mounjaro, estão sendo investigados para possíveis aplicações na saúde mental, incluindo o controle de dependências, como o consumo excessivo de álcool e cigarro. Os resultados são promissores, mas ainda são necessários mais estudos para confirmar os benefícios.
O tema foi debatido durante o Congresso Brasileiro de Psiquiatria 2026, realizado pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), em São Paulo, onde a reportagem esteve a convite da instituição.
Um estudo publicado em 2026 no British Medical Journal (BMJ) com mais de 600 mil veteranos norte-americanos com diabetes tipo 2, associou o uso de medicamentos agonistas do receptor de GLP-1 a menor risco de desenvolver transtornos relacionados ao consumo de álcool, cannabis, cocaína, nicotina e opioides.
Entre quem já apresentava esses transtornos, também foram observados menos eventos graves, como internações e overdoses.
Por ser observacional, a pesquisa não comprova que os medicamentos sejam responsáveis pelos resultados.
Segundo o psiquiatra Gustavo Coutinho de Faria, os pesquisadores investigam esses efeitos há cerca de uma década, inicialmente em modelos animais. O interesse também cresceu após relatos de pacientes que perceberam mudanças no consumo de bebidas alcoólicas durante o tratamento para diabetes ou obesidade.
“Para o uso do álcool, já temos três ensaios clínicos positivos mostrando redução do consumo até superior ao que se observou com outros medicamentos para tratamento por uso de álcool, além de dados obervacionais, como registros suecos, mostrando que o uso desses medicamentos, como semaglutida e tirzepatida, estava associado a um risco aproximadamente 50% menor de problemas com uso de álcool”.
Uma das hipóteses para os efeitos sobre as dependências é a atuação do GLP-1 em circuitos cerebrais relacionados à recompensa e à dopamina, envolvidos na motivação para consumir substâncias. “Importante ressaltar que os principais estudos nessas áreas são feitos em pessoas com obesidade”, destacou Gustavo.
Segundo o psiquiatra Daniel Martinez, uma nova medicação, a brenipatida, também está sendo estudada para tratamento de dependências. “Quanto aos estudos com o GLP-1, estamos vendo na prática clínica essa redução do consumo de álcool e agora os estudos estão direcionando para essa linha”.
Tratamento também pode reduzir piora da saúde mental
A obesidade e a depressão estão ligadas por uma relação de mão dupla: uma condição pode favorecer o agravamento da outra.
Por isso, tratar o excesso de peso sem considerar a saúde mental, ou cuidar apenas dos sintomas psiquiátricos sem olhar para o metabolismo, pode deixar parte do problema de lado, segundo o psiquiatra Daniel Martinez.
De acordo com o médico, pessoas com obesidade têm mais de 50% de chance de desenvolver depressão. No sentido inverso, quem tem depressão também apresenta aumento superior a 50% na probabilidade de desenvolver obesidade.
Uma das hipóteses para essa associação envolve a inflamação crônica de baixo grau, presente nas duas condições.
“Qual que é o tratamento primeiro? A gente trata os dois ao mesmo tempo”, afirma Martinez.
Nesse cenário, medicamentos como a semaglutida e a tirzepatida, usados no tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2, também despertam interesse por seus possíveis efeitos sobre a saúde mental.
Na depressão, estudo publicado em abril de 2026 na revista The Lancet Psychiatry, com registros de 95.490 pessoas na Suécia, associou o uso de semaglutida a um risco 44% menor de agravamento da doença. Os autores ressaltam, porém, que são necessárias pesquisas clínicas para determinar se há relação de causa e efeito.
O psiquiatra ressalta, porém, que os análogos de GLP-1 não substituem antidepressivos ou psicoterapia. “É importante destacar que tanto a tirzepatida quanto a semaglutida são medicamentos muitos seguros e não aumentam a ideação suicida. Podemos combinar com nossos psicofármacos e não tem interação, apenas fazemos a ressalva para pacientes em uso de lítio”.
Como as canetas podem agir contra os vícios
Medicamentos à base de GLP-1 atuam em receptores presentes também em áreas cerebrais ligadas à recompensa e à dopamina. A hipótese é que essa ação possa reduzir o desejo de consumir substâncias, como álcool e nicotina.
Relatos de pacientes que diminuíram o consumo de álcool durante o tratamento também estimularam novas investigações.
Estudo realizado nos Estados Unidos com dados do sistema de saúde do Departamento de Assuntos de Veteranos (U.S. Department of Veterans Affairs) e publicado na revista científica britânica The BMJ apontou que, na comparação com pacientes que iniciaram o tratamento com inibidores de SGLT-2, os usuários de GLP-1 apresentaram risco menor de desenvolver transtornos relacionados ao uso de álcool (18%), cannabis (14%), cocaína (20%), nicotina (20%) e opioides (25%).
Também houve redução de 14% no risco de desenvolver transtornos relacionados a substâncias em geral.
Ainda são necessários estudos para confirmar o mecanismo e determinar quais pacientes podem se beneficiar.
Álcool tem evidências mais avançadas
Estudo sueco – JAMA Psychiatry (2024) – com 227.868 pessoas diagnosticadas com transtorno por uso de álcool acompanhou os participantes por cerca de oito anos.
O uso de semaglutida foi associado a um risco 36% menor de hospitalização relacionada ao transtorno.
Pesquisa com registros de saúde dos Estados Unidos (Nature Communications - 2024) investigou a relação entre medicamentos para obesidade e transtorno por uso de álcool. O uso de semaglutida foi associado a um risco de incidência e recorrência do transtorno entre 50% e 56% menor, em comparação com outros medicamentos para obesidade.
Publicado no The Lancet Psychiatry (2026), estudo com pessoas com diabetes tipo 2 analisou a relação entre o uso de agonistas de GLP-1 e hospitalizações relacionadas ao álcool.
Os pesquisadores observaram uma redução na taxa de hospitalização de 45% e de 39% nas internações ligadas a outros transtornos por uso de substâncias, em comparação com períodos em que os mesmos pacientes não utilizavam esses medicamentos.
Nova medicação
A brenipatida, desenvolvida pela farmacêutica Eli Lilly, é um medicamento experimental que atua nos receptores de dois hormônios envolvidos na regulação metabólica: GIP e GLP-1. A empresa está avaliando seu potencial para tratar o transtorno por uso de álcool em dois ensaios clínicos de fase 3.
A empresa também conduz uma pesquisa de fase 2 sobre prevenção de recaídas no tabagismo. Até o momento, a brenipatida não tem aprovação para essas indicações e ainda são necessários resultados dos ensaios para confirmar sua eficácia.
Fonte: Médicos entrevistados e pesquisa AT.
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