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TRIBUNA LIVRE

Diagnóstico tardio e visibilidade autista

Falta de acolhimento, acesso a direitos e políticas públicas ainda são desafios para pessoas no espectro ao longo da vida

POLLYANA PARAGUASSÚ | | Atualizado em
Tribuna Livre

Leitores do Jornal A Tribuna


          Imagem ilustrativa da imagem Diagnóstico tardio e visibilidade autista
Pollyana Paraguassú é presidente da Associação dos Amigos dos Autistas do Espírito Santo (Amaes) |  Foto: Acervo Pessoal

Aos 57 anos, a atriz norte-americana Tisha Campbell, conhecida pela famosa série Eu, a Patroa e as Crianças, revelou ter recebido o diagnóstico de autismo nível 1 de suporte, associado ao TDAH. A descoberta veio depois dela de ela escrever um livro sobre a vida com o filho, diagnosticado ainda criança. A repercussão foi enorme, e com razão: sua história mostra que o autismo não tem idade para ser percebido.

Na Amaes (Associação dos Amigos dos Autistas do Espírito Santo), acompanho de perto muitas famílias, e sei que esse relato não é exceção. Há adultos que passaram a vida sentindo-se inadequados, cansados de se adaptar, escondendo desconfortos para pertencer, sem saber por quê. Para eles, um diagnóstico tardio pode significar compreensão, acesso a direitos e mais qualidade de vida. Por isso, ampliar a informação e o acesso ao diagnóstico é tão importante.

Esse diagnóstico, porém, costuma trazer sentimentos ambíguos: alívio por encontrar uma explicação e luto pelos anos em que faltou compreensão. Por isso, essas pessoas precisam de acolhimento e de profissionais preparados para reconhecer o autismo na vida adulta.

Mas visibilidade exige responsabilidade. O autismo ocupa cada vez mais espaço nas redes sociais e no debate público, e isso precisa vir acompanhado de seriedade. Autismo não pode virar moda, rótulo ou conteúdo superficial. Por trás de cada laudo existe uma pessoa. Existem necessidades muito diferentes, níveis distintos de suporte e famílias que enfrentam barreiras concretas todos os dias.

Há ainda uma contradição que precisa ser enfrentada. Enquanto a palavra autismo ganha enorme visibilidade, muitos autistas adultos, principalmente os que necessitam de maior suporte, continuam invisíveis na vida real. A sociedade conhece cada vez mais o termo, mas segue sem saber o que fazer com a pessoa autista quando ela cresce.

Falo também como mãe. Quero que meu filho seja cuidado enquanto eu puder cuidar dele, mas quero, sobretudo, que ele pertença a uma sociedade que reconheça sua existência. Uma pergunta assombra mães e pais de pessoas com deficiência: o que será do meu filho quando eu não estiver mais aqui?

Essa resposta não pode depender só das famílias. Ela exige políticas públicas, empresas dispostas a incluir e espaços de convivência, cultura e lazer para quem já saiu da escola e das terapias da infância.

Que a história de Tisha sirva para ampliar o nosso olhar. O autismo atravessa todas as fases da vida, e o cuidado, o respeito e as oportunidades também precisam atravessá-las. O diagnóstico não é ponto de chegada, é ponto de partida para compreensão e apoio, e a visibilidade só terá valor se for capaz de transformar a vida real de quem vive no espectro.

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