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TRIBUNA LIVRE

O que ensinamos às crianças antes mesmo das palavras?

Desenvolvimento emocional, vínculos e capacidade de lidar com frustrações começam a ser construídos nos primeiros anos de vida

Luiz Henrique Lellis | | Atualizado em
Tribuna Livre

Leitores do Jornal A Tribuna


          Imagem ilustrativa da imagem O que ensinamos às crianças antes mesmo das palavras?
Luiz Henrique Lellis é gestor educacional e cofundador da escola Terracota |  Foto: Divulgação

Vivemos um tempo em que muito se fala sobre a saúde mental dos adultos, mas pouco se discute sobre onde essa construção, de fato, começa. Ansiedade, dificuldade de lidar com frustrações, relações superficiais, excesso de estímulos e ausência de escuta têm se tornado marcas de uma sociedade emocionalmente sobrecarregada.

Diante disso, uma pergunta me parece inevitável: estamos preparando as crianças apenas para aprender conteúdo ou também para compreender a si mesmas e o mundo que as cerca?

A ciência já aponta o que muitas famílias intuem: a primeira infância é uma das fases mais determinantes do desenvolvimento humano. Entre 1 e 5 anos — período em que o cérebro está em intensa formação —, a criança começa a construir sua percepção de segurança, autonomia, vínculo, linguagem e autorregulação emocional. Por volta dos 18 meses, já consegue identificar emoções simples. Isso significa que, antes de dominar palavras complexas, ela já está aprendendo sobre sentimentos.

E talvez esteja aqui uma das grandes responsabilidades da educação contemporânea. Durante muito tempo, fomos levados a acreditar que educar significava, prioritariamente, transmitir conhecimento técnico e intelectual. Naturalmente, isso continua sendo fundamental. Mas hoje sabemos que o sucesso acadêmico e profissional não depende apenas de competências cognitivas. A forma como uma criança aprende a se comunicar, a lidar com frustrações, a desenvolver empatia, a reconhecer limites, a trabalhar em grupo e a compreender suas emoções também define a qualidade das relações que ela vai construir ao longo da vida.

As chamadas soft skills, tão valorizadas no mercado de trabalho atual, não surgem magicamente na vida adulta. Elas começam a ser cultivadas na infância, em pequenos gestos cotidianos: quando uma criança aprende a esperar sua vez, expressa o que sente, resolve conflitos, compartilha, escuta ou percebe que o outro também sente. Por isso, acredito profundamente que a escola precisa ser mais do que um espaço de transmissão de conteúdo. Ela deve ser um ambiente de desenvolvimento humano.

Isso significa compreender que aprender acontece em múltiplas camadas. Na convivência. Na brincadeira. Na literatura. No corpo em movimento. Na música. Na arte. No contato com a natureza. Na descoberta de novos sabores. No silêncio. Na curiosidade. Na luz do sol entrando pela janela.

Há aprendizado na experiência sensorial, no contato com o meio ambiente, nos espaços abertos que convidam à observação e à imaginação. Em uma sociedade cada vez mais acelerada e digital, devolver à infância o tempo da experiência talvez seja também um gesto educativo.

Um dos grandes desafios da nossa geração é formar não apenas alunos competentes, mas seres humanos emocionalmente fortes, sensíveis e preparados para conviver. Porque antes de ensinar matemática, idiomas ou qualquer outra habilidade, existe algo essencial, que é capacitar uma criança a reconhecer quem ela é e como caminhar no mundo ao lado do outro.

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