Cientistas do Espírito Santo ganham reconhecimento fora do País
Tecnologias criadas no Estado já chegam à indústria, com sensores, chips fotônicos e projetos ligados a parceiros internacionais
Eles pesquisam inteligência artificial, sensores, nanotecnologia, entre outros. Alguns estão entre os cientistas mais influentes do mundo; outros desenvolvem projetos em parceria com universidades e institutos da Europa, Ásia e América do Norte. O Espírito Santo está cheio de cientistas com reconhecimento internacional.
Exemplo é a professora Maria José Pontes, da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Ela aparece na lista dos cientistas mais influentes do mundo da Stanford/Elsevier, em várias edições, incluindo a mais recente, de 2025.
Maria trabalha com fibra ótica e está desenvolvendo um sensor capaz de medir a temperatura e o nível de líquido dentro de um tanque. A pegadinha é a seguinte: qualquer faísca, como a produzida por um sensor eletrônico, pode provocar uma explosão. O sensor de Maria não fez isso até hoje.
Na fase atual do projeto, ele foi instalado dentro de um tanque industrial que um parceiro de laboratório descreveu como do “tamanho do Maracanã”.
“É um equipamento que não tem equivalente com essa tecnologia. Instalamos no final de novembro e conseguimos monitorar em tempo real várias coisas, como qual é a temperatura em diferentes alturas, quantidade de líquido”
Maria não é a única pesquisadora da Ufes a aparecer no levantamento de Stanford/Elsevier. A universidade teve outros 12 nomes na edição de 2025. Entre eles, cinco reconhecidos pelo conjunto da obra.
O impacto internacional não se limita às citações. Maria, por exemplo, já colaborou com instituições da China, Canadá e Israel. E não está sozinha: outros pesquisadores do laboratório também participam de parcerias internacionais. Um deles é o engenheiro Marcelo Segatto.
Membro Sênior da Optica, uma titulação de prestígio internacional, Segatto pesquisa a manipulação da luz e está desenvolvendo chips fotônicos. A ideia é semelhante a um chip eletrônico, mas, no lugar de uma corrente elétrica, usa a luz.
Ele explica que um chip baseado em luz tem várias vantagens. Além de ser mais rápido, o processamento consome menos energia, o que pode ser uma vantagem considerando o alto consumo atual das Inteligências Artificiais.
“Os chips que trabalhamos são usados para comunicações óticas, sensores e outras coisas. Mas ainda não para IA, mas eu diria que daqui a cinco anos esses chips vão ser coisas do cotidiano”, ressalta o cientista.
Também há cientistas reconhecidos internacionalmente no Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) e na Universidade Vila Velha (UVV).
IA na medicina
Renato Krohling é um dos 7 cientistas da Ufes citados no ranking de Stanford pelo conjunto da obra. Ele estuda Inteligência Artificial (IA) desde a década de 1990. Apaixonado pela profissão, já se envolveu em vários projetos. O mais novo pretende treinar uma IA para fazer uma triagem inicial, identificando, sem exames invasivos, se pacientes têm ou não câncer de bexiga ou próstata.
Terapia com robô
Robôs, IA e realidade aumentada na reabilitação de pacientes são o foco das pesquisas de Anselmo Frizera, um cientista reconhecido internacionalmente, que está no topo de sua área de pesquisa. Com um robô, similar a um andador, e óculos de realidade aumentada, diz que busca criar terapias e estratégias mais eficientes para cuidar dos pacientes.
Outros destaques
Saúde e IA
João Pedro, sócio da Cubo Life, tem um projeto que une Blockchain, IA e saúde e é uma de duas propostas brasileiras aprovadas em um projeto internacional.
Gêmeo do coração
Professor do Ifes campus Vitória, Douglas Almonfrey supervisiona um projeto para desenvolver um Gêmeo Digital do coração humano em parceiria com uma universidade francesa e o Hospital Santa Rita.
Ciência Farmacêutica
Rodrigo Scherer, professor de pós-graduação em Ciências Farmacêuticas, já foi indicado várias vezes no Ranking de Stanford/Elsevier.
Jogos
Mito Games, empresa capixaba de jogos, vai participar de um projeto de Pesquisa e Inovação, realizado pela União Europeia, para criar um jogo que ajude a biodiversidade.
Oceanografia
Angelo Bernardino é outro cientista entre os mais influentes. Ele é pesquisador da ecologia dos ecossistemas marinhos costeiros e de águas profundas.
Nano e Biotecnologia
Professor da Universidade do Espírito Santo (Ufes), Jairo de Oliveira tem um projeto em nano e biotecnologia que foi selecionado pelo Conselho Europeu de Pesquisa.
Fazer do próprio lixo combustível
Imagina se qualquer empresa pudesse ter um minirreator capaz de transformar o próprio lixo em gás para ser usado como combustível por ela mesma? Descentralizar o tratamento de resíduos é o sonho — e também o objetivo — do empresário Flavio Nicoletti, uma das pessoas do Espírito Santo que estão criando novas tecnologias.
Por enquanto, não passa de uma ideia. Mas ele está nos ajustes finais de uma versão maior do equipamento, já instalada em uma empresa de tratamento de lixo hospitalar em São Paulo. O equipamento foi liberado pelo governo para ser instalado e está sendo avaliado quanto à emissão de poluentes.
“A maioria do lixo que o ser humano produz vai para os aterros sanitários. Apenas uma parte vai para a reciclagem. Desenvolvemos um equipamento que consegue transformar o lixo em gás em cinco segundos. Ele processa 50 toneladas por dia”, diz.
Segundo Flavio, o gás produzido pode ser usado de diferentes formas, como em geradores para produzir energia elétrica.
“Pegue as empresas gigantescas de metalurgia do Estado. Quanto de lixo elas produzem? É uma quantidade absurda. Mas e se ele não precisasse sair da empresa? Poderia ser usado nos fornos de pelotização”, diz.
Flavio ressalta que nem todo tipo de lixo poderia ser utilizado. O reator deixa um resíduo, as cinzas, que, dependendo do material processado, podem ser reaproveitadas, inclusive na agricultura. Isso, porém, não se aplica a resíduos tóxicos.
Já a MetalVix Engenharia quer fazer torres eólicas subirem morros. Isso é uma possibilidade com a tecnologia que patentearam no Brasil e no exterior, segundo o sócio e diretor José Emilio Brandão.
Trata-se da Wind Tower. Uma torre metálica para ser usada como base de turbinas eólicas que poderia reduzir de 500 m³ para 50m³ o volume das fundações necessárias para instalar a torre. O que, em teoria, lhe permitiria ser implantada em cima de morros. Além de redução de 10% do custo total de implantação de parques eólicos, diz.
“É uma tecnologia disruptiva. A primeira unidade de tamanho comercial será implantada em uma empresa até o final do ano que vem”.
Inventor de Vargem Alta ganha prêmio internacional
Além dos pesquisadores e empresários, o Estado também tem outros tipos de inventores reconhecidos internacionalmente. O Anatalicio dos Reis, 49, é um deles. Ele criou um Peneirador de Café Portátil.
Morador de Vargem Alta, Anatalicio diz que nunca imaginou receber um prêmio internacional, tanto que, quando ganhou uma medalha de bronze pelo Peneirador, nem sequer pôde ir. Acontece que ele não tem passaporte e a premiação do Silicon Valley International Invention Festival (Sviif) foi na Califórnia.
Mas o que não falta são ideias. Já diz que tem até uma nova invenção patenteada. “É um projeto incrível”, relata, mantendo o segredo para a próxima competição em que participa, ainda este mês.
Sua jornada começou quando tinha 41 anos e um médico lhe disse, após ficar 6 meses internado por pneumonia e perder 42 kg, que não podia mais abanar café. Mas, no caminho até a patente e o prêmio, contou com o apoio de muita gente, como o Ifes, políticos e o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), segundo conta Anatalicio.
Ele explica ainda que o apoio serviu tanto para financiar o projeto quanto para ajudar a diminuir o valor necessário para adquirir a patente.
“Agora que estamos nos encaminhando para produzi-lo certinho”.
O produtor também conta que desde criança tinha interesse por invenções e criações e que isso foi algo que sempre esteve com ele.
“Na infância, eu fazia meus carrinhos e sempre construía algo diferente. Hoje sou assim. Vejo uma necessidade e crio um projeto em cima daquilo para melhorar a situação”, diz.
Plantas e alimentos
Denise Endringer, reitora na Universidade Vila Velha (UVV), tem duas linhas de pesquisa. Uma delas trabalha com o desenvolvimento de cosméticos de beleza feitos a partir de frutas e plantas que há no Estado, como a Ora-pro-nóbis e a Juçara.
Sua outra linha de pesquisa é sobre alimentos que podem ajudar a prevenir o câncer.
Denise afirma já ter cinco patentes, ter pesquisa reconhecida internacionalmente e reforça que a UVV tem vários profissionais com reconhecimento internacional.
Reconhecimento
Há várias formas que podemos reconhecer quando um cientista capixaba tem reconhecimento internacional. Ele pode aparecer em listas consolidadas no exterior que medem o impacto de suas pesquisas, por exemplo. Ou ainda pode colaborar com universidades ou institutos de outros países. O Espírito Santo tem vários em ambos os casos.
Sensor inteligente
Em menos de 5 minutos, uma ferramenta consegue determinar o estado de oxidação do biodiesel e de misturas de diesel e biodiesel que estão sendo armazenados e transportados. É isso que faz o sensor inteligente de biocombustíveis, um modelo preditivo com inteligência artificial desenvolvido em projeto com a Petrobras Distribuidora e coordenado pelo professor do Ifes Campus Vila Velha, Wanderson Romão.
Esse é apenas um dos projetos do pesquisador. Ele também tem coautorias com pesquisadores do exterior e aparece na lista dos cientistas mais influentes do mundo.
Curiosidades
Rankings internacionais
Alguns medem o impacto das instituições, outros o dos pesquisadores, como o Stanford/Elsevier e o AD Scientific Index.
O primeiro considera citações e outros indicadores para identificar pesquisadores de alto impacto científico. Na lista que considera o impacto das publicações em 2024, são 1.461 brasileiros e 14 pesquisadores ligados à Ufes, sendo um da Universidade Vila Velha (UVV).
O AD Scientific Index também classifica pesquisadores a partir de indicadores, como citações. Na edição de 2026, aparecem pesquisadores da UVV e da Faculdade de Direito de Vitória (FDV).
Parcerias com o exterior
Vários institutos e universidades no Espírito Santo fazem parcerias com escolas de outros países.
A Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes) tem um papel nisso, ajudando a financiar projetos e impulsionando a ciência, tecnologia e inovação no Espírito Santo.
Saiba Mais
Patente e registro
Conhecimento também pode virar inovação. No Espírito Santo, pesquisas e invenções chegam à etapa de proteção da propriedade intelectual por meio de pedidos de patente e registros de programas de computador — um caminho que pode levar a tecnologias e soluções ao mercado.
519 pedidos foram identificados no Espírito Santo entre 2020 e novembro de 2025.
O que foi registrado?
- 65% invenção
- 34% modelo de utilidade
- 1% certificado de adição
Quem deposita?
- 47% inventores
- 53% pessoas jurídicas
Entre as pessoas jurídicas
- 136 — entidades empresariais
- 100 — administração pública
- 2 — entidades sem fins lucrativos
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