Indústrias criam novos produtos na “era das canetas”
Com consumidores que passam a comer menos, estão sendo desenvolvidos produtos em porções menores, com mais proteína e maior densidade nutricional
Ao reduzir a fome e aumentar a sensação de saciedade, as canetas antiobesidade, chamadas de “canetas emagrecedoras”, estão mudando não só o corpo de quem usa os medicamentos, mas também seus hábitos à mesa, e a indústria já percebeu a transformação.
Com consumidores que passam a comer menos, a indústria de alimentos e suplementos começa a desenvolver produtos em porções menores, com mais proteína, como pães e bebidas proteicas, e maior densidade nutricional para atender às novas necessidades desse público e também de quem busca uma alimentação mais saudável.
“Novos produtos desenvolvidos pela indústria vieram para revolucionar e facilitar o dia a dia, não só de pacientes que estão em uso dos análogos, mas de qualquer pessoa que precise de mais proteínas e praticidade na rotina. Mas devemos ficar atentos ao rótulo, pois um produto pode ter 20g de proteína e ainda ser pobre em fibras, vitaminas, minerais e ter uma baixa qualidade alimentar”, alerta a nutricionista Larice Matos.
Cristina Leite, diretora comercial das lojas Fast Nutri, percebe, nesse público em uso de GLP-1, um aumento na procura por proteínas, fibras, shakes proteicos e eletrólitos.
“O consumidor está mais informado e entende que saúde depende de uma alimentação melhor. O GLP-1 acelerou esse movimento, mas a busca por produtos naturais, funcionais e ricos em proteína deve continuar crescendo”.
A Vitafor, empresa de suplementos nutricionais, por exemplo, desenvolveu um protocolo de suplementação nas fases do uso de análogos de GLP-1 que combina uma nutrição completa à base de vitaminas, minerais e proteínas.
Multivitamínicos, suplementos probióticos e de suporte intestinal à base de colágeno hidrolisado e com vitaminas fazem parte desse protocolo. “A suplementação é uma aliada à alimentação equilibrada para auxiliar na absorção adequada dos nutrientes e vitaminas, bem como reposição”, destaca Lucila Santinon, nutricionista da Vitafor.
Já a Nestlé informou que a companhia vem estruturando iniciativas voltadas ao suporte nutricional de pessoas que utilizam esses medicamentos, incluindo produtos para atender necessidades relacionadas à ingestão adequada de proteínas, fibras, vitaminas e minerais.
Mercado global
O tamanho do mercado global de GLP-1 foi de US$ 13 bilhões, em 2022. E US$ 48 bilhões, em 2024, quase quatriplicou em 2 anos.
As projeções para 2030 apontam para US$ 183 bilhões , com crescimento anual composto de 25% a partir de 2025, aponta estudo da Strategy&Brasil, unidade de negócios da PWC.
Prioridades de consumo
A PwC US conduziu um estudo com 3 mil usuários de GP-1 nos Estados Unidos, os resultados foram os seguintes:
- 56% dos usuários relatam fazer escolhas alimentares mais saudáveis: menos consumo de açúcar, ultraprocessados e álcool, maior ingestão de proteínas e bebidas funcionais.
- 47% comem porções menores: redução na frequência de fast food e no tamanho das embalagens, além de declínio do modelo “tudo o que você puder comer”.
- 29% reduziram gastos com alimentação e realocaram o orçamento para saúde, beleza e bem-estar.
Especialistas acreditam que os comportamentos e prioridades de consumo de usuários de GLP-1 no Brasil sejam semelhantes aos dos Estados Unidos.
Brasil
Em 2025, o Brasil importou US$ 1,7 bilhão em medicamentos GLP-1, quase o triplo do registrado em 2023, quando o mercado movimentava cerca de US$ 600 milhões.
Dados do Ministério do Desenvolvimento (MDIC) revelam que a demanda por esses tratamentos já supera a importação de itens como salmão, telefones celulares e até azeite de oliva, demonstra levantamento feito pela CNN.
Menos comida
Desde de abril, a assistente administrativo Daiane Souza, 37 anos, está em uso da caneta para perda de peso. Ela conta, por exemplo, que sentiu a necessidade de reduzir a porção de comida. “Os pensamentos sobre comida e a fome diminuem muito. Foco na alimentação saudável, com muitas verduras, legumes e proteína”.
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