Médicos explicam riscos de remédio que vende 13 milhões de caixas
Especialistas explicam que apesar do zolpidem estar entre os mais vendidos, ele pode causar alucinações e dependência
Um em cada três brasileiros é afetado pela insônia. Para tentar iniciar o sono, mantê-lo durante a noite ou evitar o despertar precoce – sintomas do distúrbio –, muitos recorrem às chamadas “drogas Z”, entre elas o zolpidem.
Apesar do remédio estar entre os mais vendidos para o tratamento da insônia, ele pode causar alucinações. Seu uso, segundo médicos, precisa de muita cautela.
Somente em 2021, foram mais de 21 milhões de caixas vendidas. Em 2025, foram mais de 13 milhões, apontam os dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (Anvisa).
Essa queda, segundo especialistas, tem relação com a mudança nas regras de prescrição: desde 1º de agosto de 2024, a Anvisa passou a exigir notificação de receita B (receita azul), tarja preta na embalagem e prescrição presencial. Ainda assim, o remédio continua entre os mais utilizados.
A psiquiatra Maria Benedita Reis alerta que o medicamento foi desenvolvido para ser usado em crises agudas (curtas) de insônia. Seu uso por tempo prolongado aumenta o risco de dependência e principalmente seus efeitos colaterais.
“Costuma ser indicado por, no máximo, duas a quatro semanas; entretanto, não é o que vemos na prática clínica. O ideal é que o tratamento seja por curto tempo, a fim de se evitar a tolerância ao medicamento e a dependência química”.
A médica relata que, em um congresso de Psiquiatria, um colega relatou o caso de uma paciente que “jogou o carro contra uma farmácia”, pois queria o medicamento de madrugada, sem receita, de qualquer jeito.
Já a neurologista Mariana Grenfell conta o caso de uma paciente que comprou um boi após fazer uso da medicação. “Ela só soube porque viu o comprovante ou alerta no celular”.
Mariana explica que o medicamento é hipnótico e atua sobre um sistema chamado gabaérgico, aumentando a atividade de um dos principais mecanismos inibitórios do cérebro.
“Na prática, isso reduz a atividade cerebral e facilita a indução do sono. O problema é que, em algumas pessoas, essa ação pode produzir uma espécie de dissociação entre o ato de dormir e a realização de algum comportamento com grau de atividade motora”.
O principal risco disso, aponta o neurologista Jasper Guimarães, não é o sonambulismo em si, mas o que a pessoa pode fazer durante esse estado. “Há risco de quedas e traumatismos, queimaduras e até acidentes de trânsito”.
“Drogas Z” mascaram hábitos ruins
O tratamento da insônia crônica não deve ser realizado com as “drogas Z”, como zolpidem, alertam especialistas.
“Essas medicações mascaram hábitos inadequados de sono relacionados à higiene. Além disso, outros transtornos associados aos pacientes, como depressão e ansiedade, muitas vezes acabam sendo negligenciados”, aponta o neurologista Daniel Escobar, do Hospital Vitória Apart.
Segundo o neurologista, muitos pacientes começam fazendo uso eventual, desenvolvem tolerância e dependência da medicação, e passam a não conseguir mais dormir sem o remédio.
“Tornam-se dependentes, precisam de doses cada vez maiores, e o medicamento já não cumpre o efeito desejado, trazendo apenas os efeitos adversos: dependência física, dependência psicológica, insônia de rebote associada à abstinência quando tentam parar”.
Há outros malefícios do uso de longo prazo, como fragmentação e perda da qualidade do sono, além de prejuízos de memória, destaca Daniel Escobar.
Para quem sofre de insônia crônica, a mudança do estilo de vida é essencial, ressalta a psiquiatra Maria Benedita Reis.
“O tratamento considerado de primeira linha para a insônia é a Terapia Cognitivo-Comportamental para a Insônia (TCC-I), que consiste em uma abordagem não medicamentosa”.
Ajuda da terapia
“Mesmo dormindo, acordava cansada”
A estudante Natalia Guasti, de 27 anos, contou que estava com bastante dificuldade para dormir. Foi então que procurou um médico e começou a usar o zolpidem, após indicação.
“Só que mesmo dormindo, eu acordava cansada, além de ter vezes de eu tomar a medicação e não conseguir dormir, o que piorou a ansiedade. Porém, não fiz nada fora do comum”.
Natalia mudou de medicação, mas relata que o que mais a ajudou foi a terapia. “Me ensinou outras formas de lidar com a insônia”.
Saiba mais
Redução da atividade cerebral
O que são e como agem
Zolpidem e medicamentos similares (conhecidos como “drogas Z”) são remédios hipnóticos que atuam no sistema gabaérgico, reduzindo a atividade cerebral e facilitando a indução do sono de forma muito rápida.
Indicação
Devem ser usados exclusivamente para o tratamento de curta duração (geralmente entre duas a quatro semanas).
Perigo
O zolpidem pode causar forte sonolência, perda de memória recente e comportamentos automatizados ou inconscientes – como realizar compras, cozinhar, enviar mensagens desconexas – se a pessoa não deitar imediatamente após tomar o comprimido.
O uso prolongado gera tolerância e dependência física e psicológica, fazendo com que a dose inicial deixe de fazer efeito e levando o paciente a aumentar a dose por conta própria.
Pacientes que já apresentaram episódios de comportamentos complexos do sono não devem voltar a utilizar esse tipo de medicamento.
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