Remédio contra insônia com menos efeitos colaterais será vendido este ano
Dayvigo, novo remédio à base de lemborexante, promete tratar insônia crônica com menos efeitos colaterais e menor risco de dependência que o zolpidem
Depois dos alertas sobre os riscos associados ao uso do zolpidem, um novo medicamento para insônia deve chegar às farmácias brasileiras ainda neste semestre.
O Dayvigo, à base de lemborexante, foi aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para adultos, em abril de 2025, mas só agora estará à venda. A medicação tem um mecanismo de ação diferente do remédio mais conhecido entre as chamadas drogas Z.
A otorrinolaringologista e especialista em Medicina do Sono Zuleika Barbosa explica que o medicamento atua sobre o sistema da orexina, uma substância cerebral importante para manter a pessoa acordada e em estado de alerta.
“Ele bloqueia os receptores de orexina OX1 e OX2 e, com isso, reduz o sinal de vigília, facilitando tanto o início quanto a manutenção do sono”.
A diferença para o zolpidem, segundo Zuleika, está principalmente no mecanismo de ação. O zolpidem pertence às chamadas Z-drugs e atua potencializando o sistema Gaba, produzindo um efeito sedativo, mas não tratam o mecanismo do despertar.
“Já o lemborexante não busca simplesmente 'sedar' o cérebro: ele diminui a atividade dos sistemas que sustentam o estado de alerta. Em termos simples, o lemborexante diminui o 'acelerador' da vigília”.
O neurologista e médico do sono Alexandre Marreco destaca que a grande vantagem da medicação em relação ao zolpidem é que ela não causaria dependência e nem risco de alteração de comportamento durante o sono, além de apresentar menor chance de efeitos colaterais no dia seguinte. “Os estudos mostram também segurança para uso em longo prazo”.
O psiquiatra Valber Dias ressalta que diferente do zolpidem, o Dayvigo foi desenhado para usar em insônia crônica. “Mas a medicação é uma ferramenta, trata a consequência, que é a insônia, não a causa. E é importante tratar causa da insônia, como ansiedade e depressão”, alerta.
O neurologista Gabriel Baltazar destaca que a nova medicação não exclui a necessidade de ajustes na higiene do sono, assim como a realização de atividade física e a Terapia Cognitiva-Comportamental (TCC).
“São medidas não farmacológicas com eficácia comprovada para o tratamento da insônia e que a medicação não substitui”.
Médico cai do 7º andar após uso de zolpidem
Depois de voltar de um plantão noturno, em junho de 2022, o médico Vitor Piva, na época com 30 anos, fez uso de um comprimido de zolpidem por não conseguir dormir.
Como não conseguiu adormecer, já que o estresse do trabalho associado ao barulho de uma obra estavam o impedindo, o médico tomou mais alguns comprimidos.
Ele contou à Folha de São Paulo que acordou na UTI sem conseguir enxergar e com parte da perna direita amputada depois de ter caído da sacada de seu apartamento, no sétimo andar.
Vitor relatou que já havia tido algumas reações estranhas ao zolpidem. “Certa vez, comprei uma camiseta na internet. Quando chegou, eu não tinha ideia de quando havia comprado aquilo”.
A polícia suspeitou de tentativa de suicídio, mas a investigação policial concluiu que o acidente foi causado pelo uso do zolpidem. “Eu sabia que não havia tentado tirar a minha vida”, explicou.
Vitor segue em recuperação até hoje, mas no final do ano passado começou a trabalhar com perícias médicas particulares.
Também pratica atividades físicas, como musculação, além de arco e flecha no Centro Paralímpico de São Paulo. Confira abaixo trechos de um depoimento dele para a Folha de São Paulo.
Trechos do depoimento
“Minha sobrevivência é um milagre”
“Havia dias em que eu fazia 12 horas de plantão, ia para casa e horas mais tarde voltava ao hospital para trabalhar. Era difícil chegar em casa e dormir, por isso eu recorria ao zolpidem. Eu comecei a usar esse remédio durante a pandemia, porque acontecia muita coisa nos plantões e isso me causava uma insônia muito ruim.
No começo dava certo. Eu dormia tranquilamente. Só que um tempo depois parecia que o remédio já não fazia mais efeito. Em alguns dias, eu tinha que tomar mais de um comprimido. Aí eu dormia, mas apagava mesmo, em um nível que não lembrava nem como eu tinha dormido.
Já havia tido algumas reações estranhas ao zolpidem. Certa vez, comprei uma camiseta na internet. Quando chegou, eu não tinha ideia de quando havia comprado aquilo. Também havia dias em que eu acordava com um roxo no corpo, sem saber o que tinha acontecido. Isso era porque eu havia andado pela sala, enquanto deveria estar dormindo.
A minha sobrevivência é um milagre, não sei explicar. Mas tive várias sequelas pelo corpo, as principais foram a amputação da minha perna direita e a perda da visão por causa do impacto da queda.
Eu fiquei internado por 90 dias. O apoio dos meus pais e do meu irmão foi fundamental nesse período”.
Vitor Piva, médico
Fique por dentro
Lemborexante
A farmacêutica brasileira Eurofarma e a japonesa Eisai firmaram uma parceria para comercializar o Dayvigo, medicamento à base de lemborexante. A previsão é que o produto esteja disponível no mercado brasileiro ainda neste semestre, com preço médio estimado em R$ 200.
Como ele age
Pertence a uma classe de medicamentos que atua de maneira diferente dos benzodiazepínicos e dos chamados medicamentos Z, como o zolpidem.
Em vez de provocar a redução generalizada da atividade do sistema nervoso central, o princípio ativo bloqueia a ação da orexina, neurotransmissor envolvido na manutenção do estado de vigília.
Na prática, a proposta é reduzir o sinal cerebral que contribui para manter a pessoa acordada, facilitando o início e a manutenção do sono.
Dose
A dose inicial recomendada é de 5 mg, uma vez por noite, próximo ao horário de dormir. O paciente deve ter pelo menos sete horas disponíveis para dormir antes do horário planejado para despertar. Conforme a resposta clínica, a dose pode ser aumentada para 10 mg.
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