Golpe digital mais sofisticado dá prejuízo até para especialista
Criminosos falsificam número, nome e até foto de contatos conhecidos, enquanto IA amplia capacidade de imitar voz e imagem
Um golpe digital capaz de fazer aparecer no celular da vítima o nome de um contato conhecido, como gerente de banco, familiar ou amigo — até mesmo com a foto — engana até especialistas acostumados a lidar com fraudes. Entre as vítimas está um advogado que já defendeu diversas vítimas de golpes digitais na Justiça e venceu várias ações.
A técnica, chamada de spoofing, envolve a falsificação de identidade para roubo de dados e dinheiro. Os vigaristas alteram o número de origem das ligações para parecerem confiáveis, passando-se por familiares, amigos, órgãos do governo e bancos.
Com uso de softwares especializados, é possível manipular os metadados da chamada para que o número exibido na tela seja o que o emissor deseja, segundo o delegado-adjunto da Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes Cibernéticos, Ícaro Olimpio.
“Dessa forma, é possível simular contatos de instituições financeiras, centrais de atendimento ou até mesmo de familiares e escritórios de advocacia. Consequentemente, o sistema operacional do aparelho identifica o número como um contato já salvo na agenda e exibe o nome correspondente”, afirmou.
A evolução da Inteligência Artificial tem potencializado os riscos, sobretudo pelo aprimoramento das técnicas utilizadas pelos criminosos. Nesse contexto, destaca-se a tecnologia de deepfake, que permite a criação de montagens super-realistas, capazes de clonar a fisionomia e a voz de indivíduos.
Se a vítima desliga e retorna para o número que apareceu, geralmente cai no dono legítimo daquela linha, destacou Cosme Perovano, CEO da VipPhone:
“A orientação padrão de segurança é nunca confiar no número da tela e, em caso de dúvida, ligar de volta usando um número já salvo e confiável, não o que apareceu na chamada suspeita. Há golpes mais sofisticados que combinam spoofing com desvio de chamada, mas são exceção, não a regra.”
O advogado que foi vítima do golpe contou que nem precisou passar a senha para que os criminosos tivessem acesso à conta: “Eles me ligaram com o número da minha gerente. Fizeram contato por dias e só pediram para que eu desabilitasse a chave de segurança. Não passei senha nem nada.”
O professor de Engenharia da Computação Otávio Lube conta que chegou a receber ligações dele para si mesmo. “Mas isso não significa que o telefone do banco ou da pessoa foi ‘clonado’ ou invadido. O que foi falsificado é a identificação apresentada na chamada.”
Crescimento dos casos registrados no Espírito Santo
O Espírito Santo também registra crescimento de casos de spoofing e outros golpes digitais, segundo o delegado adjunto da Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes Cibernéticos (DRCC), Ícaro Olimpio.
Apesar de não haver dados específicos, ele destacou que o Estado acompanha a tendência nacional de expansão dos crimes cibernéticos e das fraudes eletrônicas.
“O aumento desse tipo de ocorrência acaba sendo proporcional ao que tem acontecido no cenário nacional. No caso específico do spoofing, tem acontecido, temos relatos de criminosos se passado por escritório de advocacia, com o número aparecendo salvo como do escritório ou do advogado”, explicou Olimpio.
Essa artimanha confere maior credibilidade à abordagem, levando a vítima a acreditar que está, de fato, em contato com seus representantes legais para a liberação de um alvará. “A partir disso, os golpistas solicitam o pagamento antecipado de custas processuais, concretizando a fraude”, destacou o delegado.
Pedido por dinheiro
Golpistas fizeram duas vítimas
Após uma tentativa de golpe com falsa vaga de emprego, em que criminosos se passaram por representantes de uma empresa de logística, Teresa Colodetti, 69, teve os dados usados para pedir dinheiro a familiares e amigos em nome dela. Duas pessoas fizeram transferências.
“Estranhei quando disseram que pagariam a gasolina para eu ir até a empresa e pediram QR Code e Pix. Minha irmã e uma amiga mandaram dinheiro. Fiquei muito chateada”, contou. Ela tentou alertar os contatos.
Saiba Mais
70% recebem ligações indesejadas
O que é spoofing?
É um golpe em que fraudadores fingem ser alguém ou uma entidade da confiança da vítima, para roubar dados, dinheiro ou obter acesso a sistemas. No caso de ligações telefônicas, criminosos realizam um mascaramento de número para falsificar de onde está vindo a ligação, para tentar enganar a vítima.
O spoofing não se restringe somente a ligações, podendo ser relacionado também a sites, e-mails e mensagens de texto, ataques considerados mais simples.
Há ainda ataques técnicos mais complexos, que envolvem endereços IP, protocolo de resolução de endereços (ARP) e servidores do Sistema de Nomes de Domínio (DNS).
No caso de chamadas telefônicas, por exemplo, os golpistas falsificam as informações enviadas ao identificador de chamadas da vítima para disfarçar a própria identidade. Isso pode ser feito por meio de tecnologias de Voice over Internet Protocol (VoIP). Quando a vítima atende, eles tentam obter vantagens.
Nos últimos 6 meses, cerca de 70% dos brasileiros receberam chamadas indesejadas, e em torno de 15% eram tentativas de fraude.
Como o spoofing funciona?
Os ataques de spoofing envolvem a falsificação (como de um site ou de um e-mail que aparenta ser oficial) e também a engenharia social, ou seja, a manipulação da vítima pelos golpistas, que inventam mentiras para incentivar ações que os beneficiem.
Os criminosos podem, por exemplo, convencer a vítima a realizar transferências de dinheiro, fornecer dados que permitam acessos indevidos a contas bancárias, conceder credenciais de acesso a sistemas fechados ou instalar arquivos maliciosos, entre outras ações.
Tudo isso por meio de comunicações que aparentam ser de confiança.
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