O Brasil de cabeça para baixo
Juros elevados, gasto público sem controle e políticas equivocadas travam o crescimento e aprofundam a dependência do Estado
Evandro Milet
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Crescer 1% ou 4% ao ano produz efeitos muito diferentes no longo prazo. Com um crescimento de apenas 1%, o PIB dobra em cerca de 70 anos; com 4% anuais, o mesmo avanço ocorre em aproximadamente 18 anos.
Assim, o governante que não coloca o crescimento no centro da agenda contribui diretamente para um atraso de 52 anos no desenvolvimento do país. A falta de prioridade para a expansão da economia cobra um preço alto da sociedade ao longo das décadas.
Recentemente, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) publicou um mapa que mostrava o Brasil de cabeça para baixo. A imagem transformou-se em metáfora perfeita da realidade econômica e social atual.
O Brasil parece invertido, não por razões geográficas, mas pelas escolhas políticas e econômicas que desafiam a lógica e a racionalidade. As decisões adotadas distorcem incentivos, desorganizam a economia e empurram o país para um caminho de estagnação.
Juros estratosféricos e travamento do setor produtivo
No centro dessa inversão está uma taxa de juros estratosférica, que paralisa o setor produtivo e desestimula investimentos de longo prazo. A remuneração do capital de risco perde sentido quando o retorno quase certo está na renda fixa.
Captar recursos na B3 praticamente não funciona: o dinheiro migra para aplicações sem risco, reforçando a preferência pela renda fixa. O país se transforma em ambiente hostil para projetos produtivos e acolhedor para quem pode viver de juros.
A imensa maioria dos economistas defende medidas semelhantes para reduzir os juros, mas sem sucesso. Em vez de enfrentar a raiz do problema, que passa pela responsabilidade fiscal, parte do debate prefere culpar a Faria Lima, confundindo causa com consequência.
A troca na presidência do Banco Central evidenciou a fragilidade desse argumento. O novo presidente manteve a política de juros, priorizando o rigor técnico e a própria formação, em detrimento de palpites políticos sem base consistente.
Paraíso dos rentistas e endividamento generalizado
O Brasil tornou-se o paraíso dos rentistas, não por culpa deles, mas por políticas econômicas equivocadas e prioridades trocadas. O ambiente criado pelo governo favorece o ganho financeiro sem risco, enquanto penaliza quem tenta empreender ou produzir.
Nesse cenário, empresas e cidadãos se endividam e quebram sob taxas consideradas impagáveis. O custo do crédito encarece investimentos, corrói margens e reduz a capacidade de planejamento de longo prazo.
Iniciativas como o programa Desenrola aliviam apenas o sintoma imediato do endividamento. Funcionam como paliativo, sem atacar o desequilíbrio estrutural que mantém os juros elevados e a dívida crescente.
Em termos práticos, é como oferecer ar-condicionado no inferno ou dar uma pá a quem precisa de uma corda para sair do buraco. A ajuda pontual não cria condições sustentáveis para que famílias e empresas retomem o fôlego econômico.
Dependência estatal, emprego precário e estatísticas enganosas
Essa dinâmica aprofunda um ciclo vicioso de dependência estatal. Programas sociais sem foco cumprem papel emergencial importante, mas, em muitos casos, acabam desestimulando o emprego formal e a busca por inserção produtiva duradoura.
No lugar de crescer e gerar empregos de qualidade — o melhor programa social que existe — o governo utiliza o orçamento para tentar consertar a situação no varejo. A consequência é o aumento da dívida pública, que alimenta os juros e retroalimenta a estagnação.
As estatísticas comemoradas de pleno emprego escondem a fuga maciça para o trabalho precário, como o de entregadores de pizza e outros serviços de aplicativo. Há ocupação, mas frequentemente sem proteção, estabilidade ou perspectiva de ascensão.
"Como dizia Churchill: não há nada que o governo possa lhe dar que não tenha tirado de você antes."
Arcabouço fiscal esvaziado e investimento em queda
Para piorar, o governo recorre ao truque recorrente de deixar despesas e contas importantes fora das regras fiscais. O chamado arcabouço fiscal já não cumpre plenamente a finalidade de controlar gastos e transmitir confiança.
Sem superávit primário consistente, o país alimenta a inflação e não recupera o grau de investimento perdido no governo Dilma. A falta de credibilidade afasta grandes fundos internacionais, que poderiam turbinar a infraestrutura deficiente.
O reflexo direto desse descontrole é a escassez de verbas para o que realmente importa. Sem investimentos em logística, infraestrutura e tecnologia, o Brasil perde eficiência e competitividade no cenário global.
O agronegócio, por exemplo, opera com custo de escoamento muito maior do que concorrentes como os Estados Unidos. A deficiência logística encarece a produção e limita a capacidade do setor de aproveitar plenamente seu potencial.
Defasagem tecnológica e prioridades trocadas
Na área tecnológica, a situação é semelhante. Em temas como inteligência artificial (IA), terras raras e data centers — fundamentais na vida moderna — faltam recursos, estratégia e prioridade coordenada.
Enquanto isso, sobra burocracia e lentidão regulatória, que atrasam investimentos e inovações. A combinação de custo alto, incerteza e instabilidade afasta projetos intensivos em capital e tecnologia.
O caminho para a normalidade exige que os juros caiam de forma sustentável. Isso só ocorrerá se o governo assumir um esforço real e corajoso para cortar gastos públicos, como ocorreu no primeiro mandato de Lula, quando se manteve a política econômica de FHC.
O problema é que as opções políticas disponíveis soam desanimadoras, marcadas por históricos de retrocesso civilizatório e institucional. A dificuldade de construir consenso reformista amplia a sensação de impasse.
Enquanto isso, segue o “gasto é vida” associado ao período de Dilma, e o Brasil continua, de cabeça para baixo, tentando tapar o sol com medidas classificadas como asneira pelo crítico das atuais escolhas econômicas.
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