Os reféns da IA: Winner takes all
Lock-in, segurança e custo de tokens pressionam empresas enquanto gigantes tentam manter a hegemonia na IA
Evandro Milet
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Winner Takes It All (o vencedor leva tudo) é o título de uma música triste do grupo sueco Abba, lançada em 1980, e é também a expressão que motiva as big techs na triste corrida pela hegemonia no ambiente da Inteligência Artificial.
Grandes e médias empresas são submetidas a um regime de quase terror, em relação à segurança, ao tentar diversificar seu ambiente geral de TI, normalmente amarrado por versões sucessivas de produtos que falam entre si, mas estranham qualquer tentativa de conexão com produtos concorrentes. Muitos usuários já perceberam que o uso consecutivo de ferramentas de reuniões online de diferentes fornecedores frequentemente provoca um travamento estranho, sem causa aparente.
Grandes fornecedores costumam argumentar que é melhor ficar no seu ambiente exclusivo porque só eles garantiriam a segurança necessária. Na mesma época do Abba, década de 1980, a IBM, quase monopolista dos grandes sistemas, difundia o mantra de que ninguém seria demitido por escolher IBM. Em outras palavras, em qualquer problema complicado que surgisse, um gestor de TI teria sempre a desculpa de que estaria respaldado pelo maior fornecedor, o que não aconteceria se optasse por um fornecedor menor, mesmo que todos afirmassem que seria melhor. Na prática, o monopólio acabava fazendo com que a maioria dos técnicos só conhecesse IBM e isso perpetuava a situação: "winner takes all".
O momento tecnológico atual da IA traz complicadores para a tentativa de criar monopólios. A OpenAI lançou, em 2022, o ChatGPT, que surpreendeu as grandes empresas do setor, comprometidas na briga para levar tudo, embora todas estivessem formatando seus modelos de IA. O Google, apesar de ter criado a ideia original dos transformers, base da IA generativa, não conseguiu sair na frente e um verdadeiro barata-voa tomou conta do mercado. Desde lá, inúmeros modelos de IA foram lançados pela própria OpenAI, por Google, Microsoft, Meta, Anthropic, Tesla e pelos chineses. E a briga se repete nos serviços de nuvem entre Amazon, Google e Microsoft, gerando tentativas de compras recíprocas e parcerias inusitadas.
No ambiente corporativo, entretanto, o domínio de Microsoft e Google provoca a tentativa mais estruturada de preservar o controle e levar tudo. Mas há um problema complicado chamado custo de tokens, a unidade padrão de custo da IA. O desenvolvimento, em velocidade alucinante, de projetos e agentes de IA leva os custos de tokens para a estratosfera se forem usados modelos inadequados, muito grandes para problemas pequenos. E as grandes monopolizadoras da TI, Microsoft e Google, muitas vezes não têm os modelos do tamanho ideal para as ações que se pretendem, mas tentam não deixar que as empresas usem outros do mercado, assustando técnicos e executivos, ciosas da sua tentativa de monopólio.
Vai ser difícil aguentar essa retranca. Na Copa, quem tentou não conseguiu. A criatividade do mercado surpreende mais que a seleção de Cabo Verde, e os chineses nem estavam jogando.
Resta acompanhar as cenas dos próximos capítulos, acelerados em velocidade 2x, para ver se alguém leva tudo e quem morre no final.
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Coluna assinada por Evandro Milet