Médicos explicam os 10 exames que podem revelar doenças silenciosas
Avaliações podem monitorar as tendências do organismo, antes dos primeiros sintomas, aumentando as chances de tratamento e evitando possíveis complica
Após quase três anos sem realizar exames oftalmológicos, a assistente de cobrança Valdeise Lima, de 39 anos, foi a uma consulta de rotina e ali teve uma surpresa: ao dilatar a pupila, o médico percebeu uma alteração no nervo óptico, sugerindo uma suspeita de glaucoma – doença que causa cegueira irreversível.
Embora não exista um levantamento nacional sobre o tempo que os brasileiros ficam sem fazer exames de rotina, médicos destacam que muitas doenças só são descobertas quando já apresentam sintomas, e os exames podem identificar doenças antes das primeiras manifestações clínicas.
No caso de Valdeise, o médico observou sinais de maior risco para a doença. “Como é uma suspeita, tenho de voltar a fazer novos exames daqui seis meses”.
A oftalmologista Karine Moysés Moro, presidente da Sociedade Capixaba de Oftalmologia, alerta que algumas doenças oculares evoluem silenciosamente e só são descobertas em estágios avançados, como o glaucoma, que costuma permanecer assintomático até fases mais avançadas.
“Por isso, é recomendado avaliação anual com o oftalmologista que vai realizar a medida da pressão ocular, a biomicroscopia e o exame de fundo de olho”.
Há exames que também podem prever condições cardiológicas graves, como o escore de cálcio, que identifica cálcio nas artérias e estima o risco de infarto. Esse exame, porém, não é indicado para todos, já que, segundo a cardiologista Daniella Motta, o LDL continua sendo o principal exame para avaliação inicial, além de haver limitações de acesso e custo.
“Ele é utilizado principalmente em pessoas sem sintomas quando o risco cardiovascular permanece incerto e o resultado pode modificar a decisão de iniciar ou intensificar o tratamento preventivo”.
Daniella, que é presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia do Espírito Santo (SBC-ES), esclarece que não existe um exame capaz de prever com toda certeza se uma pessoa terá um infarto. “Em situações selecionadas, exames como Lp(a), apolipoproteína B e escore de cálcio podem complementar a análise”.
Outro exame importante é a creatinina, que, segundo a médica de família e comunidade, Taynah Repsold, avalia o funcionamento dos rins.
“Os rins podem perder parte da função sem causar nenhum sintoma. Com a creatinina, calculamos a taxa de filtração e identificamos a perda de função anos antes dos sintomas, o que é especialmente importante para quem tem hipertensão, diabetes ou histórico familiar de doença renal”.
Check-up não precisa ser extenso
Ainda que muitos acreditem que realizar diversos exames seja necessário para toda a população, médicos afirmam que na medicina personalizada a investigação é definida de forma individual, conforme o perfil e os riscos do paciente.
“Medicina personalizada não significa solicitar mais exames, mas pedir exames certos, para a pessoa certa, no momento adequado. Em muitos casos, um check-up individualizado inclui até menos exames do que os tradicionais 'pacotes' laboratoriais”, destaca a médica de família e comunidade Taynah Repsold.
A médica ainda dá exemplos: “Imagine duas mulheres de 40 anos. A primeira pratica atividade física regularmente, nunca fumou, mantém peso adequado e não tem histórico familiar de câncer ou doenças cardiovasculares. A segunda tem obesidade, mãe com diabetes e pai que sofreu infarto aos 50 anos. Embora tenham a mesma idade, elas não devem receber as mesmas recomendações de check-up”.
Exames complementares, segundo a cardiologista Daniella Motta, devem ser solicitados de acordo com a idade, os sintomas, os fatores de risco e os achados clínicos.
“Eles podem aperfeiçoar a avaliação, mas não substituem a consulta médica individualizada”.
110.173 pessoas maiores de 18 anos no Espírito Santo, em 2019, nunca haviam feito exame de glicemia – que identifica o nível de glicose (um tipo de açúcar) na circulação sanguínea, sendo um dos exames para diagnóstico de diabetes.
99. 838 é o número dos que nunca fizeram exame de sangue para medir o colesterol e triglicerídeos.
Indicações
Rastreamento em dia
1 - Lipoproteína(a)- Lp(a)
É uma partícula semelhante ao LDL, determinada principalmente pela genética. Quando elevada, pode aumentar o risco de infarto, AVC e doença da válvula aórtica, mesmo quando o LDL está aparentemente controlado.
As recomendações atuais, segundo a cardiologista Daniella Motta, presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia do Estado (SBC-ES), sugerem que sua dosagem seja considerada pelo menos uma vez na vida adulta, após avaliação clínica adequada. Como seus níveis costumam permanecer relativamente estáveis ao longo da vida, geralmente não é necessário repetir o exame com frequência.
2 - Creatinina
Avalia o funcionamento dos rins. A doença renal crônica é uma das condições mais silenciosas. Quando surgem sintomas como inchaço, cansaço ou alteração na urina, o quadro geralmente está avançado.
Com a creatinina, é possível calcular a taxa de filtração e identificar a perda de função anos antes dos sintomas, o que é especialmente importante para quem tem hipertensão, diabetes ou histórico familiar de doença renal, alerta a médica de família e comunidade Taynah Repsold.
3 - Angiotomografia das coronárias
Exame de imagem que utiliza um tomógrafo para gerar imagens detalhadas do coração e suas artérias. É mais indicada, de acordo com a cardiologista Daniella Motta, para pessoas com sintomas ou com suspeita clínica de doença das artérias do coração.
O exame permite identificar placas e avaliar a presença de estreitamentos nas artérias coronárias. Em geral, não é recomendado como rastreamento de rotina em pessoas assintomáticas e de baixo risco.
4 - Exame de vista
Algumas doenças oculares evoluem silenciosamente e costumam ser descobertas apenas em fases mais avançadas, como o glaucoma, principal causa de cegueira irreversível, além do ceratocone e da distrofia de Fuchs. Recomenda-se avaliação anual com o oftalmologista, com tonometria (pressão ocular), biomicroscopia e exame de fundo de olho, explica a oftalmologista Karine Moysés. O exame de fundo de olho, por exemplo, pode indicar alterações e revelar sinais de doenças sistêmicas, como hipertensão e diabetes, por meio da avaliação dos vasos sanguíneos da retina.
5 - Tomografia computadorizada de tórax de baixa dose
Capaz de encontrar micro nódulos pulmonares em estágios iniciais, é recomendada para adultos entre 50 e 80 anos com carga tabágica significativa, que fumam atualmente ou cessaram o tabagismo nos últimos 15 anos, explica a médica de família e comunidade Taynah, Repsold.
O exame não é recomendado como rotina para pessoas que nunca fumaram e não apresentam sintomas.
6 - Densitometria óssea
A osteoporose, segundo a endocrinologista Maria Amélia Julião, é extremamente silenciosa e não causa dor. O osso vai perdendo cálcio e estrutura sem dar aviso. O primeiro sintoma da osteoporose costuma ser uma fratura grave, no quadril ou na coluna, decorrente de uma queda.
Para evitar que se chegue a esse ponto, o rastreamento (para mulheres a partir dos 65 anos e homens aos 70 anos) com o exame de densitometria óssea é fundamental, pois ele mede a resistência do osso e aponta o risco de fratura anos antes de ela acontecer. Existem os grupos de maior risco, que devem ser avaliados mais precocemente.
7 - TSH e T4 livre
São indicadores importantes na avaliação de distúrbios da tireoide. É indicado sempre que há sintomas inespecíficos persistentes, como cansaço extremo, ganho ou perda inexplicável de peso e alterações de humor ou do sono, explica a endocrinologista Maria Amélia Julião .
Alguns grupos precisam de uma investigação mais cuidadosa e preventiva, mesmo sem sintomas, como gestantes ou mulheres que planejam engravidar, pessoas com histórico familiar de doenças tireoidianas e pacientes com outras doenças autoimunes.
8 - Hemoglobina Glicada
Para descobrir o risco antes que o diabetes se instale, usa-se o exame de hemoglobina glicada (HbA1c) e a glicemia de jejum. A hemoglobina glicada mostra a média do açúcar no sangue dos últimos três meses. Se estiver entre 5,7% e 6,4%, ou se a glicemia de jejum estiver entre 100 e 125 mg/dL, acende-se o sinal amarelo do pré-diabetes.
Em casos de dúvida ou forte histórico familiar, também pode ser solicitado o Teste Oral de Tolerância à Glicose (curva glicêmica), que mede como o corpo lida com uma sobrecarga de açúcar após uma ou duas horas, explica a endocrinologista Maria Amélia Julião.
9 - Pesquisa de sangue oculto nas fezes
O Teste Imunoquímico Fecal (FIT) foi incorporado ao SUS em maio. Pode substituir a colonoscopia, segundo Cintia Givigi, oncologista do Hospital Santa Rita, como método de rastreamento primário em adultos assintomáticos com risco médio para câncer colorretal, sendo uma alternativa equivalente quando realizada de forma repetida e com acompanhamento adequado dos resultados positivos.
Também oferece uma alternativa menos invasiva quando há limitações de acesso à colonoscopia (por exemplo, questões econômicas) ou contraindicações à colonoscopia (idosos ou com problemas de saúde que impedem de fazer).
10 - Papanicolau e o teste para HPV
Pelo papanicolau e/ou teste de HPV pode-se detectar até lesões pré-cancerosas, antes que o câncer se desenvolva, explica a oncologista do Hospital Santa Rita Cintia Givigi. São exames complementares.
Enquanto um procura alterações nas células do colo do útero, o outro identifica a presença do vírus HPV de alto risco, principal causa do câncer do colo do útero.
Nos protocolos atuais, o teste para HPV é utilizado como exame primário de rastreamento. Essa estratégia aumenta a sensibilidade do rastreamento.
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