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OPINIÃO INTERNACIONAL

Não torcerei pela Argentina

Entre memória da Copa, frustrações brasileiras e o clima político atual, argumento por que não apoiarei a Argentina

José Vicente de Sá Pimentel | 20/07/2026, 13:26 h | Atualizado em 20/07/2026, 13:26
Opinião Internacional

José Vicente de Sá Pimentel


          Imagem ilustrativa da imagem Não torcerei pela Argentina
José Vicente de Sá Pimentel. |  Foto: Divulgação

Noventa e seis anos depois da criação da Copa, o idealismo de Jules Rimet se tornou ainda mais oportuno. Quando o advogado francês criou o torneio, em 1928, o mundo estava aos cacos. A Europa padecia no pós-Primeira Guerra, impérios ruíam, nacionalismos à flor da pele redesenhavam fronteiras a sangue.

Então presidente da Fifa, Rimet defendia a ideia quase ingênua de juntar as nações num campo, com regras isonômicas, para que seus representantes se odiassem 90 minutos e depois se cumprimentassem. O futebol seria a diplomacia sem terno e gravata que uniria os povos.

A taça levou o nome dele e a primeira edição, realizada em 1930 no Uruguai, foi seguida de outras duas, na Itália e na França.

Aí veio a Segunda Guerra e a Copa teve que parar por 12 anos. Ao voltar, em 1950, a ideia de Rimet parecia ainda mais urgente. O mundo precisava se reencontrar e o futebol providenciaria a sala de estar para o reencontro.

O Brasil foi a sede escolhida, e com razão, porque o País assumia protagonismo no cenário mundial. Não sofreu com as guerras, tinha futebol, tinha sol, o Maracanã novinho em folha augurava grandes conquistas. Tivemos muitas. Infelizmente, tivemos também profundas decepções.

Em 1950, chegamos à final precisando apenas de um empate. Abrimos o placar com Friaça, já nos víamos campeões. Que nada, o Uruguai virou e emudeceu 200 mil pessoas. Foi o silêncio mais sonoro da nossa história.

Depois do Maracanazo, só levantamos a cabeça e o moral em 1958. Na Suécia, um time de estrelas coadjuvou um menino de 17 anos em duas goleadas por 5x2, na semifinal e na final. Começava a era Pelé, em que o futebol se firmou de vez como o esporte das multidões no mundo inteiro.

Em 1970, no México, o tricampeonato. De acordo com a regra da Fifa, a taça Jules Rimet, com a deusa alada Níqué de braços abertos, representando a vitória, passava a ser nossa para sempre. Esculpida em ouro, ficou exposta na sede da CBF no Rio até que, em 19 de dezembro de 1983, foi roubada e derretida por criminosos até hoje impunes. Acho que isso ofendeu a deusa, com consequências dolorosas para o nosso lado.

Em 1982 tínhamos o melhor futebol do mundo. O time de Telê, com Zico, Falcão, Sócrates e Júnior, jogava o futebol mais elegante já visto numa Copa. Não bastou. Perdemos para a Itália e, pior, desacreditamos do futebol arte. Praga de Niqué.

Só voltamos a vencer em 1994, nos EUA. Seleção eficiente, pragmática, foi campeã sem nunca encantar a torcida. Em 2002 tivemos um lampejo. O cabelo Cascão era ridículo, mas foi com ele que Ronaldo fez 8 gols e nos deu o penta.

Depois disso, descemos ladeira abaixo. O 7 a 1 de 2014, em pleno Mineirão, nos desarvorou. Desde aquele vexame, caímos nas quartas, ou antes. A cada 4 anos a esperança volta, e a decepção também.

Nesse meio tempo a Argentina cresceu. Campeã em 1978, em 1986 e em 2022, com seu espírito de luta pode até ser campeã de novo. Mas não terá a minha torcida, por várias razões.

Começa pelo princípio da reciprocidade. Os argentinos nunca torcem por nós, por que torcer por eles? Transformaram a rivalidade em zombaria permanente. Entendo que é para sublimar um sentimento de inferioridade, mas tudo tem limite.

Pior, normalizaram o racismo. Nos jogos recentes contra Cabo Verde e Egito, os cantos e macaquices da “hinchada” espelharam o que turistas argentinos volta e meia fazem no Brasil. Mais deplorável ainda é a cumplicidade dos jogadores. A mesma geração que joga hoje foi filmada em 2022, depois de vencer a França, zombando da origem africana dos jogadores franceses e injuriando Mbappé.

Não nego, porém, que a causa principal de não torcer pela Argentina é meu receio de ver Donald Trump colocando uma medalha no peito de Javier Milei. Exibicionistas juramentados, os dois se dariam facilmente ao desfrute e ninguém merece vê-los juntinhos num selfie ideológico em New Jersey.

De minha parte, preferiria ter um Trump constrangido, homenageando a Espanha de Pedro Sánchez, que tem repelido com altivez as pressões americanas para ceder bases militares nos ataques ao Irã.

Não torcerei pela Argentina, embora consciente de que uma vitória da Espanha não me dará maior prazer. Vejo a partida como um campo de pesquisa e uma fonte de inspiração para nossos jogadores, dirigentes e torcedores. Se a Seleção Brasileira assimilar a garra albiceleste e incorporar a fluidez da Fúria, sem descuidar da boa e velha ginga, nós é que estaremos na final dentro de quatro anos. Torço por isso.

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