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OPINIÃO INTERNACIONAL

A guerra da IA bate à porta

Com a Argentina abrindo porteiras de dados e EUA e China em rota oposta, o Brasil precisa definir sua estratégia para a IA

José Vicente de Sá Pimentel | 13/07/2026, 12:38 h | Atualizado em 13/07/2026, 12:38
Opinião Internacional

José Vicente de Sá Pimentel


          Imagem ilustrativa da imagem A guerra da IA bate à porta
José Vicente de Sá Pimentel, nascido em Vitória, é embaixador aposentado |  Foto: Divulgação

Outro dia, alguém aconselhava na internet a não nos preocuparmos com o futuro, pois ele virá com ou sem a nossa ansiedade. A frase era atribuída a Machado de Assis; mesmo se não for, se encaixa bem neste 2026. Trump e suas guerras, as eleições aqui e lá, a iminência do impacto da Inteligência Artificial em nossas vidas; tudo se junta e nos deixa ansiosos para ver o fim do filme.

Por ora, não há nada a fazer com Trump, e as eleições só ocorrerão dentro de 83 dias aqui, 113 lá. Nesse meio tempo, o tema que se impõe a todos nós, cidadãos e eleitores, é a IA.

Como falamos na semana passada, o teste inicial já está posto para o Brasil. O projeto de lei de Javier Milei flexibiliza regras para as big techs e retira a privacidade do rastro que deixamos na internet: cada compra, cada busca, cada clique.

O anarcocapitalista quer menos burocracia para a empresa cruzar dados e menos obrigações para com o consumidor. É o complemento do laboratório libertário que Milei anunciou no Financial Times. Primeiro dá personalidade jurídica aos agentes de IA, depois afrouxa a correia dos dados que alimentam esses agentes.

Pela interpretação atual do STF, empresas que operam aqui têm de seguir a LGPD. Ora, se na Argentina o dado circula solto e aqui não, teremos o mesmo aplicativo com duas regras, a mesma Palantir com dois pesos. O atrito jurídico é inevitável e vai parar na fronteira digital antes de parar na alfândega.

Não sou perito no assunto; aconselho o leitor a procurar fontes traquejadas para maiores esclarecimentos. O certo é que Estados Unidos e China tratam a IA como questão de Estado.

Os EUA de Trump dividiram o mundo em aliados com acesso livre aos chips e adversários bloqueados. Exportações para China, Rússia e Irã estão severamente restringidas. Até subsidiária chinesa em terceiro país agora é alvo. A lógica é que quem manda no silício manda no futuro.

A China faz o caminho inverso. Enquanto os EUA trancam o chip, Pequim abre o código. Distribui modelos gratuitos, que qualquer um pode baixar, instalar no seu servidor e rodar. Só que “gratuito” aqui tem aspas. Você não paga pelo modelo, mas paga pela dependência. Baixa hoje e cria seu produto em cima dele, amanhã vem uma nova versão e você tem de correr atrás, fisgado.

Há uma diferença filosófica por trás das estratégias. Os empresários do Vale do Silício querem virar Deus. Acreditam que em breve a IA vai evoluir para a tal AGI, “artificial general intelligence”, e ultrapassará a inteligência humana. Quando isso acontecer, quem tiver chegado primeiro dá um salto tão à frente que ninguém mais alcança. Por isso eles guardam os chips como quem guarda um tesouro.

Os chineses discordam. Para Pequim, modelo de IA é commodity, como aço ou cimento. Uma vez no mercado, todo mundo copia.

O bom negócio não está no modelo, e sim no computador que roda o modelo, no data center, na energia, na escala. Eles querem ter a fábrica em casa.

Enquanto os Estados Unidos e a China disputam chips e a Argentina oferece porteira aberta, o Brasil vacila em cima do muro. Ainda nos indagamos quanta liberdade podemos dar ao empresário, quanta proteção impomos sem espantar o investimento.

Com a aprovação do projeto de Milei, a Argentina opta pela desregulação total. Se o dado argentino circular livre e o brasileiro ficar preso à LGPD, duas internets frente a frente colidirão na certa.

Ter um país que se oferece como zona franca de dados e IA na nossa fronteira é como abrir um cassino que atrai bons jogadores e trambiqueiros junto.

O futuro não pede permissão. Ele chega e cobra escolhas. Excesso de ansiedade paralisa, excesso de ousadia leva a sequelas contraproducentes. Mas não se pode confundir ousadia com irresponsabilidade, nem ficar de braços cruzados com tanto a fazer.

Sigamos São Mateus, a cada dia basta o seu próprio mal. Nem por isso vamos deixar de fazer, lucidamente, o dever de casa. Para início de conversa, precisamos incluir as questões relativas à Inteligência Artificial no debate político, sobretudo nas campanhas presidenciais. Alguém sabe o que nossos atuais candidatos pensam a respeito da IA?

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