Milho, fogueira e tradição
Entre fogueira, sabores da safra e roda de conversa, o arraiá conecta memórias afetivas e celebra o encontro do urbano com o rural
Marcus e Matheus Magalhães
Marcus e Matheus Magalhães são Analistas do Mercado Agro
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A fogueira acende e o quintal fica mais quente, não só de temperatura. É naquela luz baixa e alaranjada que a festa junina mostra sua parte mais bonita: gente junta, milho assando, cheiro de canela no quentão, conversa que não tem hora pra acabar. Todo ano, no mesmo mês, essa cena se repete de norte a sul do Brasil, e por mais que o país mude, esse ritual continua firme. Quem foi criança numa festa dessas carrega até hoje o gosto do milho quente na mão e o som de fogos ao fundo, uma lembrança que passa de geração em geração sem que seja preciso explicar nada
O que está na mesa vem direto da terra. Milho, mandioca, cana, amendoim, tudo colhido nesses meses, fruto de uma safra que levou o ano inteiro pra chegar até ali. Sem perceber, a festa também agradece. Comemos comida boa sem pensar sempre na origem, mas a origem está presente em cada canjica, em cada pamonha, em cada gole de quentão.
A própria festa nasceu de encontro. Trouxe tradição portuguesa da fogueira, encontrou o milho e a mandioca que já eram alimento indígena bem antes do Brasil existir com esse nome, e ganhou tempero e ritmo, na comida e na dança. Poucas festas do calendário brasileiro carregam tanta mistura bonita dentro de si, e talvez seja por isso que ela atravesse gerações sem perder força. Na quadrilha, não importa de onde cada um vem, todo mundo dança o mesmo passo, na mesma fileira.
Hoje essa vontade de proximidade com o campo aparece até na moda, no chapéu de palha usado na cidade grande, na música que celebra rodeio e vida rural. Pode parecer só estética, mas na verdade, tem um significado maior. O brasileiro, mesmo distante da terra no dia a dia, quer se sentir parte dela. A festa junina é a ponte mais simpática pra esse encontro entre campo e cidade, generosa a ponto de receber todo mundo sem cobrar raiz nem passaporte rural.
E o café segue firme nessa roda, discreto e constante. Entre um quentão e outro, é ele que esquenta quem fica até mais tarde perto do fogo, que aproxima quem se conhece há anos e quem acabou de chegar na conversa. Café também nasce de safra, de meses de trabalho no campo, e chega na xícara como um convite silencioso para ficar mais um pouco.
Talvez essa seja a grande dádiva do nosso arraiá. Reunir.
Reunir rural e urbano na mesma fogueira, sem discurso e sem cobrança, só pela alegria de estar junto. Que venham bons ventos pra próxima safra e pra festa do ano que vem, com a mesma fogueira unindo quem vem do campo e quem vem da cidade. Que a mesa continue farta e a conversa continue longa, ano após ano.
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Coluna assinada por Marcus e Matheus Magalhães