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INOVAÇÃO E MERCADO

Soberania Intelectual: engenharia e inovação nas multinacionais brasileiras

Nascidas em ambiente instável, empresas do país transformaram engenharia e processos em vantagem global, além de commodities e protecionismos

Evandro Milet | 05/07/2026, 06:00 h | Atualizado em 03/07/2026, 15:21
Inovação e Mercado

Evandro Milet


          Imagem ilustrativa da imagem Soberania Intelectual: engenharia e inovação nas multinacionais brasileiras
Evandro Milet, presidente do CDMEC |  Foto: A Tribuna

Nos debates sobre o desenvolvimento no Brasil, três temas são recorrentes: a desindustrialização, a concentração em commodities e a deficiência na educação, representada pela fraca formação em engenharia, principalmente em quantidade.

No entanto, a internacionalização das multinacionais industriais brasileiras é um caso exemplar de resiliência e inovação, contrapondo-se a esses argumentos. Empresas nascidas em um ambiente instável, marcado por inflação e infraestrutura complexa, transformaram desafios em vantagens competitivas. Longe de serem meras exportadoras de commodities, companhias como Embraer, Petrobras, Vale, Gerdau, JBS, Natura, Suzano, WEG e Marcopolo utilizam táticas sofisticadas que colocam o domínio tecnológico como escudo global, provando que a inteligência de engenharia e de processos é mais valiosa do que a simples origem dos materiais utilizados.

Na vanguarda da alta tecnologia, Embraer e Petrobras ilustram como o controle do conhecimento supera a dependência de insumos globais. A Embraer opera em uma cadeia global utilizando turbinas e aviônicos importados. No entanto, seu trunfo reside na capacidade única de integrar sistemas complexos, desenhar aerodinâmicas revolucionárias e criar aeronaves com custos operacionais imbatíveis para rotas de médio alcance, superando rivais com mais capital.

Já a Petrobras transformou o Brasil no centro mundial da engenharia oceânica. A estatal desenvolveu patentes e robótica proprietárias para perfurar quilômetros sob o pré-sal. Mesmo comprando plataformas em estaleiros asiáticos, é o software, a física e o método de exploração brasileiros que garantem uma eficiência que a protege das oscilações de mercado.

Nos setores industriais e de recursos naturais, a soberania tecnológica dita o ritmo da competição. A Vale concorre com gigantes anglo-australianas pela inovação em metalurgia e logística. Seu minério de ferro de alta pureza exige engenharia avançada para ser processado e transportado em navios inteligentes desenhados pela própria empresa.

Na siderurgia, a Gerdau driblou o protecionismo ao inovar no modelo fabril. Como a maior recicladora das Américas, comprou usinas nos EUA e implementou a tecnologia de mini-mills (usinas compactas), transformando sucata local em aço de alto valor agregado sem barreiras tarifárias.

No mesmo sentido, a Suzano superou concorrentes de clima temperado ao dominar o ciclo da biotecnologia florestal, desenvolvendo genética de plantas que garante a maior produtividade de eucalipto por hectare do planeta.

Por outro lado, bens de capital e varejo exigem processos ágeis e flexibilidade. A WEG enfrenta multinacionais alemãs, americanas e chinesas por meio de uma agilidade em customização rara no setor. A empresa importa componentes eletrônicos, mas seu diferencial está no desenvolvimento de softwares de automação próprios e motores de alta eficiência entregues em tempo recorde.

Sob essa mesma lógica de alfaiataria industrial, a Marcopolo tornou-se uma das maiores encarroçadoras de ônibus do mundo. Importando ou utilizando chassis de terceiros, a empresa domina o design estrutural, a engenharia de materiais leves e a customização em massa de carrocerias para as severas topografias de dezenas de países.

Na indústria de alimentos, a JBS inovou ao aplicar uma rigorosa eficiência logística e gestão de marcas adquiridas no exterior com tecnologias de rastreabilidade.

Por fim, a Natura constrói sua vantagem unindo a biotecnologia à sustentabilidade real, transformando bioativos da Amazônia em cosméticos de alta performance.

O segredo das multinacionais brasileiras para vencer a concorrência estrangeira não reside apenas no tamanho de suas operações, mas em sua soberania intelectual. Ao dominarem o ciclo de inovação, o design de produtos e o controle de processos complexos, essas marcas provam que não é necessário fabricar cada parafuso ou extrair cada insumo dentro de casa. A resiliência desenvolvida no Brasil mostrou que, no mercado moderno, a tecnologia proprietária e a capacidade de adaptação são as armas mais eficientes para conquistar o mundo.

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