Existe jabuticaba do bem no Brasil
A verdade é que também existem coisas excelentes que só acontecem no Brasil, ou quase somente no Brasil
Evandro Milet
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O jornalista Márcio Moreira Alves, morto em 2009, afirmou que “tudo aquilo que só existe no Brasil e não é jabuticaba é bobagem”, atribuindo a frase a um personagem de sua crônica.
A frase foi incorporada ao repertório político nacional e faz companhia ao "complexo de vira-lata" cunhado por Nelson Rodrigues, onde ele descreveu a mania do brasileiro de se colocar voluntariamente em uma posição de inferioridade em relação ao resto do mundo, seja na cultura, na economia ou, principalmente, no futebol, tema original da frase, após a derrota para o Uruguai em 1950.
A verdade é que também existem coisas excelentes que só acontecem no Brasil, ou quase somente no Brasil, e podem dar lições para o mundo. Estamos vivendo um desses casos no momento com o Pix. Um sistema de pagamentos brilhante que envolve todas as instituições financeiras e toda a população, incluindo o comércio ambulante e até a população de rua, muitos agora bancarizados, e que provoca admiração em muitos países e tentativas de acabar com ele em outro.
Aliás, o sistema financeiro brasileiro tem um nível extraordinário de eficiência, adquirido - é verdade - pela necessidade de movimentação ultra-rápida por causa da inflação persistente durante tanto tempo. Enquanto valores demoravam dias para serem transmitidos de um lado para outro nos EUA, no Brasil esse movimento era imediato. Essa competência tinha por base uma infraestrutura digital sofisticada que deságua hoje nas inúmeras fintechs que fazem sucesso até fora do país. Durante muitos anos, no país, as empresas mais bem estruturadas em computação eram os grandes bancos. Essa importância da velocidade de processamento influenciou também o governo federal, principalmente em relação à arrecadação de impostos, onde a Receita Federal já recebia declarações online enquanto até nos EUA muita coisa transitava pelo correio.
Essa competência extrapolou a área financeira. Eu tive a oportunidade de presenciar, por exemplo, o início do processo de desenvolvimento das urnas eletrônicas no país, feito para o TSE no Serpro, a empresa de TI do Governo, que prestava o serviço de processamento de impostos. Essa jabuticaba do bem, que dá show sem nenhuma comprovação de fraude até hoje e já elegeu gente de direita e de esquerda, consegue resultados praticamente no mesmo dia, enquanto assistimos as dificuldades de vários países nesse assunto. Não escapa nem mesmo os EUA; lembremos das reclamações de cédulas de papel que confundiram os eleitores na eleição de 2000, perdida, talvez indevidamente, por Al Gore para a Presidência. Quem participou de eleições no Brasil antes das urnas eletrônicas lembra bem das fraudes antes, durante e depois das votações.
Outra área onde o Brasil desenvolveu uma competência quase única é a agricultura tropical que permite o país ser responsável por 10% dos alimentos no mundo com alta produtividade, agora se estendendo para a energia a partir de outra jabuticaba do bem, feita há muitos anos, com o pioneiro e visionário programa do álcool.
Na pandemia, saltou aos olhos do mundo outra potência que poucos países dispõem na dimensão brasileira: o SUS. Mesmo torpedeada por políticas federais estúpidas que aumentaram a dimensão da tragédia, mostrou que o país sabe fazer coisas grandes para o bem.
É fato que existem muitas mazelas que só existem no Brasil, como a maior taxa de juros reais do mundo, onde a jabuticaba é a explicação inédita que o problema está no mercado financeiro e não no desequilíbrio fiscal, confundindo consequência com causa. Ou o estressante presidencialismo de colisão, onde colidem diariamente o executivo, o legislativo e o judiciário, muito além do que poderia ser apenas acomodação de pesos e contrapesos da democracia.
Se estamos em tempo de Copa, vamos levantar a cabeça, nos concentrarmos nas nossas vitórias no futebol, na economia e no social e lembrar do maior cronista do esporte, Nelson Rodrigues, aliás não só cronista como também um dos ´nossos maiores escritores e dramaturgos:
“Os pessimistas (que sempre os há) rosnam pelas esquinas e pelos botecos: — “Humildade, humildade.” Mas é uma abjeção falar em humildade no Brasil. Olhem este povo de paus de arara. Ante as riquezas do mundo, cada um de nós é um retirante de Portinari, que lambe a sua rapadura ou coça a sua sarna. A humildade tem sentido para os césares industriais dos Estados Unidos. Já o pau de arara precisa, inversamente, de mania de grandeza.”
Que venha o hexa.
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