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INOVAÇÃO E MERCADO

Serendipidade tradicional, a digital, generativa e a agêntica: o acaso algorítmico

De descobertas científicas a produtos bilionários, o imprevisto ganha escala no mundo digital e abre caminho para uma nova serendipidade algorítmica

Evandro Milet | 14/06/2026, 07:00 h | Atualizado em 12/06/2026, 14:27
Inovação e Mercado

Evandro Milet

A história do progresso humano não é uma linha reta. Muitas das maiores revoluções nasceram do imponderável. A serendipidade, ou a faculdade de fazer descobertas importantes por acaso, atua como uma força invisível que transforma situações fortuitas em inovação, O termo foi criado em 1754 por Horace Walpole baseado no conto persa Os Três Príncipes de Serendip, no qual os protagonistas viajavam fazendo achados por sagacidade e acidente. Serendip era a denominação árabe para o Sri Lanka e o termo “serendipity" foi traduzido para o português por Millôr Fernandes.

A serendipidade é diferente de sorte cega. A sorte apenas acontece, enquanto a serendipidade exige uma mente preparada para ler os sinais e mudar o jogo, dinâmica sintetizada por Louis Pasteur ao afirmar que o acaso favorece apenas as mentes preparadas. Essa capacidade de transformar o inesperado em inovação era a base da filosofia de Steve Jobs, que acreditava que a criatividade nasce de conexões espontâneas entre experiências distintas.

A ciência é o maior beneficiário desses desvios. Em 1928, Alexander Fleming saiu de férias e esqueceu placas com bactérias na bancada. Ao retornar, notou que um bolor havia contaminado a amostra e destruído os germes, o que o levou a isolar a penicilina. Em 1895, Wilhelm Röntgen investigava raios catódicos e percebeu uma tela distante brilhar; ao colocar a mão na frente do tubo, viu seus próprios ossos projetados, descobrindo o Raio-X. Anos depois, o engenheiro Percy Spencer trabalhava com radares militares quando notou que a barra de chocolate em seu bolso havia derretido, o que o motivou a criar o forno de micro-ondas.

No mercado consumidor, o roteiro se repete com produtos que geram bilhões a partir de falhas. Em 1968, o químico Spencer Silver tentava criar um adesivo ultraforte na 3M e obteve uma cola fraca que saía sem deixar resíduos, invento que virou o Post-it. Na década de 1990, a Pfizer testava o composto Sildenafil para angina de peito e, embora tenha falhado para o coração, o efeito colateral inesperado originou o Viagra. Até o Velcro nasceu assim, em 1941, quando George de Mestral reparou em um tipo de carrapicho nas roupas do seu cachorro; ao olhar no microscópio, viu pequenos ganchos que inspiraram o sistema de fixação. Para colher os frutos do acaso deve-se caminhar por ruas desconhecidas e conversar com quem não se conhece.

Porém, enquanto a serendipidade tradicional dependia do acaso geográfico, o mundo digital atua como um acelerador e amplificador desses encontros fortuitos ao eliminar barreiras físicas, acelerar a troca de dados e conectar nichos que jamais se cruzariam no mundo real. Você interage com pessoas, culturas e ideias de qualquer lugar do mundo instantaneamente. Encontros fortuitos acontecem também em grupos de WhatsApp. Plataformas sugerem, inclusive, conteúdos fora da sua bolha habitual.

A explosão da IA generativa e, agora, da IA agêntica, inaugura, entretanto, uma era de serendipidade algorítmica, onde o acaso deixa de ser limitado por espaço e tempo e passa a ser catalisado em larga escala por algoritmos. Ao cruzar bilhões de dados de áreas completamente distintas, essas tecnologias provocam colisões criativas inéditas em segundos, gerando conexões e soluções de negócios, ou de saúde, que pesquisadores sequer sabiam que estavam procurando. Enquanto a IA generativa atua como a mente preparada que propõe o inesperado, a IA agêntica assume o papel do agente ativo, executando testes autônomos, errando rápido e desbravando caminhos alternativos sem intervenção humana. Não estamos mais apenas nos expondo a encontros fortuitos nas calçadas do mundo real, mas sim construindo uma infraestrutura digital muito maior que as mentes preparadas de Louis Pasteur para favorecer o acaso.

A serendipidade é um dos maiores fatores de sucesso dos ecossistemas de inovação, quando eles dispõem de ambientes, atividades e agora também algoritmos, que facilitam o trabalho do acaso. Mas o olho-no-olho, depois do encontro digital, ainda tem uma força imensa.

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