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OLHARES COTIDIANOS

O que fazemos com os incômodos

Um incômodo inesperado pode deslocar a rotina, abrir novas paisagens e devolver ideias que estavam em silêncio

Sátina Pimenta | 18/06/2026, 12:13 h | Atualizado em 18/06/2026, 12:13
Olhares Cotidianos, por Sátina Pimenta

Sátina Pimenta

Satina Pimenta é psicóloga, advogada e mestre em Administração, com atuação na interface entre Direito, Psicologia e Gestão. Docente, coordenadora acadêmica e pesquisadora, é Pró-Reitora e Coordenadora de Psicologia no Centro Universitário Estácio Vitória. Palestrante em saúde mental, lidera projetos acadêmicos e idealizou o app EmocionCare.


          Imagem ilustrativa da imagem O que fazemos com os incômodos
Sátina Pimenta é psicóloga clínica, advogada e professora universitária. |  Foto: Divulgação

A vida tem uma habilidade curiosa de nos conduzir por caminhos que não estavam nos nossos planos. E, muitas vezes, ela faz isso através de situações que, à primeira vista, gostaríamos de evitar.

Recentemente vivi uma experiência que me deixou desconfortável. Não pelos desdobramentos que ela teve, mas pelo que ela representava naquele momento.

Era uma daquelas situações capazes de alimentar irritação, gerar desgaste ou ocupar espaço demais nos nossos pensamentos. E talvez esse fosse o destino mais provável para ela. Mas não foi o que aconteceu.

Como consequência daquele episódio, precisei realizar uma atividade que fazia parte do meu repertório profissional. Nada extraordinário. Algo que eu já havia feito diversas vezes e que dominava com tranquilidade. Enquanto executava aquela tarefa, porém, aconteceu uma pequena mudança de direção. Se eu estava utilizando aquelas competências para atender uma demanda institucional, por que não utilizá-las também em algo que fosse meu?

A pergunta surgiu por causa do movimento que veio de fora. Sozinha, naquele momento, provavelmente eu não teria parado para pensar sobre isso. Estava ocupada demais fazendo aquilo que costumo fazer há anos: orientar, revisar, apoiar projetos, incentivar pessoas e ajudá-las a transformar ideias em realidade. Faz parte do meu trabalho e, mais do que isso, faz parte de quem eu sou.

Mas existe um efeito colateral silencioso quando passamos muito tempo cuidando dos projetos dos outros. Sem perceber, podemos deixar os nossos em estado de espera. Não porque deixaram de ser importantes. Apenas porque outras urgências vão ocupando todos os espaços disponíveis.

Foi então que aproveitei aquele impulso inesperado para construir algo que dialogava diretamente com meus próprios interesses e estudos. Quando terminei, senti uma alegria difícil de explicar. Não pela novidade da tarefa, mas pelo reencontro que ela proporcionou. Eu não havia descoberto uma nova habilidade. Havia redescoberto um lugar que continuava sendo meu.

Carl Jung dizia que aquilo que nos incomoda pode se transformar em oportunidade de consciência. Gosto dessa ideia porque ela nos convida a olhar para além do desconforto imediato. Nem todo incômodo chega para nos punir. Alguns chegam para nos deslocar. E os deslocamentos têm uma característica interessante: eles nos obrigam a enxergar paisagens que não seriam vistas se permanecêssemos exatamente onde estávamos.

Hoje penso que a grande questão não está no que nos acontece, mas no que fazemos com aquilo que nos acontece. Existem experiências que poderiam terminar em ressentimento, mas acabam se transformando em movimento.

E, às vezes, é justamente esse movimento que nos devolve a partes de nós mesmos que estavam esperando, em silêncio, uma oportunidade para voltar a existir.

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