O oceano e a água
Entre sonhos grandiosos e dias comuns, talvez a verdadeira felicidade esteja nos pequenos instantes que aprendemos a ignorar
Sátina Pimenta
Satina Pimenta é psicóloga, advogada e mestre em Administração, com atuação na interface entre Direito, Psicologia e Gestão. Docente, coordenadora acadêmica e pesquisadora, é Pró-Reitora e Coordenadora de Psicologia no Centro Universitário Estácio Vitória. Palestrante em saúde mental, lidera projetos acadêmicos e idealizou o app EmocionCare.
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Existe uma ideia muito perigosa que atravessa a nossa geração: a de que a vida precisa ter um grande propósito o tempo inteiro. Como se existir só fosse válido quando estamos caminhando em direção a algo extraordinário.
Como se os dias comuns fossem apenas intervalos entre acontecimentos realmente importantes. Como se a felicidade fosse um estado permanente reservado para quem finalmente “chegou lá”. E talvez seja exatamente isso que esteja nos adoecendo tanto.
A gente desaprendeu a habitar o cotidiano. Tem um momento do filme Soul, da Pixar Animation Studios, que sempre me atravessa profundamente. Não pelo enredo em si, mas pela pergunta silenciosa que ele deixa.
Joe passa a vida inteira acreditando que só seria verdadeiramente feliz quando realizasse o grande sonho de tocar jazz ao lado de músicos importantes.
Tudo na vida dele parece pequeno diante dessa expectativa. O trabalho, a rotina, os encontros, os alunos. Como se a vida real estivesse sempre começando “depois”. Até que ele consegue.
E quando finalmente vive aquilo que imaginou durante anos, percebe uma sensação estranha: não aconteceu a explosão interna que ele esperava. Não houve transformação mágica. Não houve completude.
O mundo não mudou de eixo. Então uma personagem conta a ele a história de um peixe jovem que procura desesperadamente o oceano. Ele pergunta para um peixe mais velho onde o oceano está.
E o peixe sábio responde: “Você já está nele.” Mas o peixe jovem insiste: “Isso aqui? Isso é só água”. Talvez essa seja uma das metáforas mais honestas sobre a vida adulta. Porque estamos o tempo inteiro procurando “o oceano”.
O grande amor. O grande reconhecimento. O grande trabalho. A grande virada. O grande propósito. A felicidade definitiva. E, enquanto procuramos algo gigantesco que dê sentido absoluto à existência, tratamos tudo o que já existe ao nosso redor como se fosse “só água”. Mas talvez a vida seja justamente isso.
Pode ser que o problema esteja na expectativa de viver permanentemente emocionados. Como se felicidade fosse um lugar fixo onde alguém consegue morar para sempre. Eu não acredito nisso. Nunca acreditei.
Acredito em momentos felizes. E talvez isso não diminua a beleza da vida — talvez aumente. Porque momentos felizes não exigem perfeição. Eles não anulam o cansaço, as frustrações ou as dores. Eles coexistem. Aparecem no meio do caos. Às vezes discretos. Às vezes quase invisíveis.
Um riso inesperado. Uma música no caminho. Uma comida afetiva. Uma mensagem recebida na hora certa.
Um aluno que lembra de você anos depois. Uma sensação breve de pertencimento. Pequenos instantes que passam rápido justamente porque foram feitos para ser vividos, não aprisionados.
Possivelmente, a nossa maior dificuldade hoje seja perceber que a vida não acontece apenas nos grandes acontecimentos.
Ela acontece também no intervalo entre eles. Porque existe um oceano inteiro acontecendo agora. E seria triste demais passar a vida inteira chamando isso tudo de “só água”.
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