Especialista: decisão para jovem escolher carreira não deve ser uma sentença
Especialistas afirmam que carreiras podem mudar ao longo da vida; pesquisa mostra menos influência dos pais e mais busca por qualidade de vida
Apesar de o medo de escolher a profissão errada estar entre as principais preocupações dos jovens, representando 20,7% dos que responderam a pesquisa, especialistas afirmam que a decisão não precisa ser definitiva.
Com as mudanças constantes do mercado e o aumento da expectativa de vida, ficar na mesma função durante muitos anos não é mais uma realidade, como explica Eliana Machado, CEO da Center RH.
“Felizmente, esse pensamento caiu por terra. O mercado permite muito mais flexibilidade do que no passado, então é possível buscar novas formações, atuar em mais de uma área e construir trajetórias diferentes ao longo do tempo.”
Essa nova realidade dialoga até mesmo com algo que o mercado de trabalho tem buscado como uma prioridade para os novos profissionais: a possibilidade de se adaptar.
“É claro que ainda há a busca por qualidade técnica, mas todos os dias surgem novas ferramentas, novas tecnologias e novas formas de trabalhar. Por isso, sai na frente quem está disposto a aprender continuamente”, diz Eliana.
O surgimento de novas profissões a todo momento também pode contribuir para esse medo, na opinião do vice-presidente da ABRH-ES, Cosme Peres. Mas ao mesmo tempo, essa dinâmica amplia as possibilidades dos jovens.
“Atualmente, é mais realista pensar em uma trajetória profissional que será construída e ajustada ao longo da vida, acompanhando as mudanças do mercado”, conclui Cosme.
A psicóloga Luana Câmara, especialista em orientação profissional, diz que o medo é comum, principalmente considerando a idade em que a escolha é feita.
“O jovem ainda está construindo sua identidade. Ele recebe muitas informações ao mesmo tempo e acredita que não pode falhar nessa decisão.”
Nesse momento, a orientação profissional ajuda o jovem a entender que a carreira é uma construção. “As escolhas podem ser feitas com maturidade e planejamento”, afirma Luana.
Nutrição
De olho na alimentação e na saúde
Praticante de jiu-jítsu desde os 6 anos, a estudante Sofia Curbani da Luz, de 17 anos, passou a se interessar por Nutrição ao observar de perto a relação entre alimentação, saúde e desempenho no esporte.
“No esporte, às vezes precisamos perder muito peso para entrar em determinadas categorias. Vendo que muitos atletas hoje priorizam manter uma alimentação saudável para evitar essa prática, meu interesse pela Nutrição aumentou.”
Ela conta ainda que tem o desejo de, no futuro, cursar também Educação Física. Seu desejo é poder ajudar as pessoas a viverem de forma mais saudável.
“Quero contribuir para que as pessoas se sintam bem consigo mesmas e sejam mais felizes”, completa.
Influência familiar pesa menos
Os pais parecem estar perdendo protagonismo na escolha profissional dos jovens. Na pesquisa realizada pela EJUVV em parceria com A Tribuna, apenas 8,6% dos entrevistados apontaram a opinião da família como principal influência na decisão sobre a carreira.
Agora, há uma busca maior por profissões que tenham relação com as habilidades e interesses pessoais de 56,9% dos jovens que participaram do levantamento.
O resultado representa uma mudança em relação a 2023, quando levantamento semelhante publicado em A Tribuna mostrou que a influência dos pais ocupava o primeiro lugar entre os fatores considerados pelos jovens na hora de escolher uma profissão.
A psicóloga Érica Canal, que faz orientação profissional, diz que embora a família continue exercendo influência nesse momento, os jovens têm buscado assumir um papel mais ativo na decisão.
“O primeiro encontro da orientação profissional é com a família, e vejo que muitos ainda tentam influenciar. Mas o restante do processo é feito com o jovem, para que ele descubra quem ele é e o que realmente tem vontade de fazer.”
Ela diz que é comum que haja esse tipo de comportamento, até porque os pais querem ajudar os filhos a tomar a melhor decisão em um momento importante.
Porém, o ideal é que eles atuem como apoiadores do processo, incentivando pesquisas e reflexões sobre os próprios interesses, sem fazer imposições.
“A família ajuda quando deixa o jovem à vontade para tomar a sua decisão e o responsabiliza por ela”, destacou Érica.
Jovens preferem qualidade de vida
A busca por qualidade de vida e equilíbrio pessoal é o principal desejo dos jovens para o futuro profissional, segundo a pesquisa realizada em parceria entre a EJUVV e A Tribuna.
Cerca de 31% dos participantes apontaram esse objetivo como prioridade para a carreira, seguido de 30,2% que valorizam a estabilidade financeira, superando metas como alcançar prestígio profissional ou trabalhar em grandes empresas.
O resultado reflete uma mudança de valores na nova geração. em que os jovens têm buscado profissões mais alinhadas com seus interesses pessoais, como explica a mentora de carreira e liderança Cinara Uliana.
“Essa geração está mais preocupada em conectar os valores e propostas pessoais com o que está fazendo. O trabalho não é a única coisa que define esse jovem, como acontecia no passado.”
Essa postura também faz sentido diante das constantes transformações do mercado de trabalho.
“As profissões mudam, mas interesses e competências tendem a permanecer. Por isso, o jovem precisa entender quem ele é. A partir disso, ele consegue adaptar suas habilidades às oportunidades que o mercado oferece”, diz Cinara
A psicóloga Luana Câmara, especialista em orientação profissional, destaca que também é importante que o jovem reflita sobre a rotina que deseja ter no futuro.
“Que tipo de rotina eu consigo sustentar? Quais ambientes combinam mais comigo? Quais atividades fazem sentido para mim, na prática? Essas perguntas levam a uma escolha mais consciente.”
Fique atento
Dicas para fazer uma boa escolha
1. Mapeie seus interesses
Reflita sobre seus valores, habilidades e o estilo de vida que deseja ter.
2. Conheça o curso
Pesquise a grade curricular, os projetos e a metodologia de ensino da instituição. Cursos com o mesmo nome podem ter focos diferentes.
3. Pesquise a rotina da profissão
Entenda o dia a dia da carreira, as áreas de atuação e as oportunidades do mercado.
4. Converse com profissionais
Ouvir quem já atua na área ajuda a esclarecer dúvidas, alinhar expectativas e compreender melhor a rotina da profissão e as oportunidades de carreira.
5. Considere os desafios
Toda profissão tem pontos positivos e dificuldades. Conheça os dois lados antes de decidir.
6. Participe de feiras e eventos
Feiras de profissões, palestras e visitas a universidades ajudam a ampliar horizontes.
7. Busque experiências práticas
Participar de projetos, cursos e estágios pode ajudar a confirmar interesses observando a prática.
8. Não olhe apenas para mercado profissional
Considere as oportunidades da área, mas também suas afinidades e interesses.
9. Desenvolva habilidades humanas
Comunicação, criatividade, trabalho em equipe e adaptação são diferenciais em qualquer profissão.
10. Sem medo de recalcular a rota
Mudanças de curso e de carreira são cada vez mais comuns ao longo da vida profissional.
MATÉRIAS RELACIONADAS:
Comentários