Sibo virou uma doença da moda
Especialista alerta para o risco de transformar sintomas comuns em diagnósticos da moda, como o sibo
Dr. João Evangelista
João Evangelista Teixeira Lima é médico formado pela Emescam, com pós-graduação pela PUC-RJ. Especialista em Gastroenterologia e Clínica Geral, é colunista de A Tribuna e do Tribuna Online, onde também apresenta o quadro “Doutor João Responde” na TV Tribuna, abordando saúde e prevenção com linguagem simples.
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Errando e acertando, através dos séculos, a medicina é considerada uma mistura de ciência irrefutável com uma arte de verdades temporárias.
É da natureza humana, a necessidade de nomear tudo, inclusive doenças. Diagnóstico é o substantivo de uma enfermidade fundamentada. Entretanto, existem exageros, não no embasamento, mas na frequência de certas patologias.
Doenças da moda apresentam diagnósticos com aumento repentino de relatos e visibilidade, muitas vezes ligados ao estilo de vida atual, redes sociais e culto ao corpo.
Exemplos incluem Burnout (esgotamento no trabalho), vigorexia (obsessão por um corpo musculoso), nomofobia (medo de ficar sem o celular), lipedema (acúmulo de gordura nas pernas), oniomania (compulsão por compras) e sibo.
O supercrescimento bacteriano no intestino delgado tornou-se recentemente um dos diagnósticos mais populares, justificando diversos problemas gastrointestinais.
Convém lembrar que o sibo não é uma patologia nova. A questão é acreditar que qualquer inchaço, desconforto abdominal e gases, sejam causados pela migração bacteriana.
Pacientes rotulados com sibo, podem, na verdade, ter outras condições, como intolerâncias alimentares, disbiose ou síndrome do intestino irritável.
O tubo digestivo é colonizado por milhões de bactérias, gerando benefícios consideráveis para o funcionamento do organismo.
No entanto, a presença delas, em determinadas localizações ou numa proporção excessiva, causa desequilíbrio, contribuindo para dificuldades digestivas e fixação e crescimento de bactérias oportunistas, desencadeando doenças clinicamente significativas.
A síndrome do supercrescimento bacteriano no intestino delgado caracteriza-se pelo crescimento excessivo de bactérias colônicas no intestino delgado, contribuindo para sintomas, muitas vezes inespecíficos, comuns a outras doenças gastrointestinais.
Por essa razão, o diagnóstico diferencial é essencial. O sibo apresenta sintomas que lembram várias doenças, como síndrome do intestino irritável, doença inflamatória intestinal, intolerância ao glúten, disbiose intestinal, intolerância à lactose, doenças parasitárias, entre outras.
Não resta dúvida que a síndrome do supercrescimento bacteriano do intestino delgado tem se manifestado com mais frequência.
Isso se deve à evolução de novos métodos diagnósticos, além de situações que vem causando disbiose intestinal, como, por exemplo, o uso abusivo de antibióticos e “canetas emagrecedoras”.
O uso frequente de antibióticos desequilibra a microbiota intestinal, tornando-a vulnerável ao supercrescimento de bactérias.
Embora não haja estudos definitivos provando causalidade direta, os agonistas de GLP-1, como a semaglutida, lentificam o trânsito intestinal, permitindo que algumas bactérias do intestino grosso migrem e proliferem no intestino delgado, produzindo o sibo.
Tudo aquilo que desperta curiosidade, é sujeito à moda, podendo ter a mesma solidez e duração que ela tem.
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PÁGINA DO AUTORDoutor João Responde
A coluna “Doutor João Responde” é publicada todas as terças-feiras no Jornal A Tribuna e no Tribuna Online. O espaço trata de saúde e prevenção em linguagem acessível, onde esclarece dúvidas do público e comenta temas de saúde que estão em destaque no Espírito Santo.