Entidades do ES avaliam os impactos do fim da escala 6 x 1
Debate sobre o fim da escala 6x1 divide trabalhadores e setor produtivo no Espírito Santo
Enquanto trabalhadores defendem mais qualidade de vida e equilíbrio entre vida pessoal e profissional, representantes do setor produtivo alertam para os impactos econômicos e operacionais da possível redução da jornada de trabalho no Brasil.
No Espírito Santo, empresários, economistas e especialistas apontam preocupação com aumento de custos, dificuldade de contratação e insegurança jurídica, especialmente em segmentos que dependem de mão de obra intensiva.
Entre críticas e defesas, o debate expõe um desafio que vai além da carga horária: encontrar um modelo que concilie produtividade, competitividade e bem-estar dos trabalhadores.
Conflitos
Felipe Storch Damasceno, economista-chefe do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Espírito Santo (Ibef-ES), mestre e doutor em Administração e Contabilidade, salienta que a proposta cria uma situação delicada para trabalhadores de alta renda que hoje possuem controle formal de jornada.
“Embora a medida aumente a flexibilidade para empresas e profissionais em cargos estratégicos, ela também pode ampliar conflitos judiciais, principalmente em casos de sobrecarga de trabalho, disponibilidade permanente e discussão sobre horas extras”.
Segundo ele, no Espírito Santo, setores como indústria, logística, petróleo, financeiro e tecnologia podem ser mais impactados, pois concentram profissionais com remuneração mais elevada e funções de gestão.
Depoimentos
Grande preocupação
“A redução da jornada de trabalho gera grande preocupação para o setor produtivo e para o futuro da economia brasileira. Uma mudança dessa dimensão não pode ser conduzida em meio a um ambiente pré-eleitoral, sem o devido debate técnico e sem uma transição sustentável que preserve empregos, produtividade e competitividade.
Acreditamos que a negociação coletiva é o caminho mais eficaz para que empresas e trabalhadores construam soluções equilibradas.”
Fazer muita conta
“No meio empresarial, o sentimento de resistência deu lugar ao pragmatismo: o setor produtivo já encara a mudança não mais como uma possibilidade, mas como um custo contratado que vai acontecer.
A partir de agora, a palavra de ordem nos setores produtivos é cálculo. Cabe ao empresário de qualquer porte fazer muita conta e avaliar estrategicamente o futuro: quais linhas de negócio devem continuar, quais devem ter a expansão freada e onde será necessário recuar. O peso dessa transição será sentido de maneira desproporcional. As empresas que dependem de mão de obra intensiva, especialmente no setor de serviços e comércio, serão as mais impactadas”.
Altos encargos
“Éfundamental que o governo assuma sua parte nesse debate, promovendo medidas que reduzam o custo da contratação formal. Hoje, o trabalho no Brasil é excessivamente onerado, com elevada tributação sobre a mão de obra e altos encargos incidentes sobre a folha de pagamento. Sem uma política consistente de desoneração e estímulo à empregabilidade, mudanças dessa magnitude tendem a aumentar ainda mais a pressão sobre empresas e consumidores”.
“A conta não fecha”
“Sobre a redução de jornada de forma acelerada, a hotelaria capixaba agora está fazendo as contas. Na prática, para absorver essa mudança, os hotéis terão de rever preços, diárias, pacotes e contratos. O problema é que o mercado nem sempre aceita esse repasse imediatamente.
Sem diárias mais rentáveis, sem redução de custos e sem alguma compensação, a conta não fecha. A mudança pode até buscar mais qualidade de vida, mas aprovada dessa forma cria um risco enorme para os pequenos empresários. A maior preocupação, porém, é operacional: já falta mão de obra no turismo.”
Correção histórica
“A proposta de fim da escala 6x1 é uma correção histórica necessária para proteger a saúde física, mental e social dos trabalhadores. O argumento de que prejudicará a economia já foi usado contra direitos como férias, 13º, FGTS e jornada de 44 horas — e a história mostrou o contrário.
Trabalhador descansado produz mais, sofre menos acidentes e movimenta a economia. Em meio ao avanço do burnout e da depressão, a PEC é um passo para humanizar o trabalho”.
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