Sono pode dar pistas sobre o risco de demência, revela estudo
Estudo internacional aponta que alterações cerebrais durante o sono podem estar ligadas ao surgimento da doença
Não é de hoje que médicos alertam para a importância do sono de qualidade para a saúde, inclusive a mental. E se você não se preocupa com isso, deveria mudar de opinião.
Um novo estudo internacional, realizado por pesquisadores dos Estados Unidos e Austrália e publicado na revista científica Jama Neurology, demonstrou que alterações cerebrais durante o sono podem estar diretamente ligadas ao risco de desenvolver demência no futuro.
A pesquisa analisou exames de sono de mais de 7 mil adultos, acompanhados por até 17 anos. Os pesquisadores utilizaram exames de polissonografia – teste que monitora a atividade cerebral durante o sono – aliados a sistemas de IA.
A tecnologia avaliou padrões das ondas cerebrais e criou o chamado Índice de Idade Cerebral, que compara a “idade” do cérebro à idade cronológica da pessoa.
Segundo análise feita durante o sono, diferença de 10 anos entre idade do cérebro e idade real pode elevar risco de declínio cognitivo em cerca de 40%. Na prática, um indivíduo de 50 anos que apresentava atividade cerebral semelhante à de alguém de 60 tinha maior risco de demência.
Para o neurocirurgião Pablo Fruett, membro da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia, o estudo traz uma confirmação importante: sono não é luxo, mas prevenção.
Segundo o médico, em um futuro, muito próximo, médicos terão acesso a essa ferramenta (polissonografia associada à IA), o que poderá auxiliar na orientação de mudanças de hábitos para melhorar a qualidade do sono. “A fase de sono mais profunda, em que sonhamos e fixamos as memórias, diminui em pacientes que não dormem bem”.
O neurologista Jasper Guimarães afirma que o sono funciona como uma verdadeira “faxina cerebral”. “O cérebro funciona, mas fazendo uma limpeza de substâncias nocivas que organismo sintetiza ”.
Doenças como insônia e apneia, segundo o neurologista Leonardo Maciel, possuem forte relação com maior risco de demência.
Dormir pouco ou mais de 10 horas causa problemas
Quantas horas são necessárias para que o sono seja considerado suficiente e de qualidade? Para um adulto, essa quantidade pode variar entre sete a nove horas por noite, para indivíduos saudáveis e que não sofram distúrbios de sono.
Especialistas alertam que o sono de curta duração (abaixo de seis horas) e de longa duração (acima das 10 horas) estão associados ao desenvolvimento de graves problemas de saúde.
“Temos quatro fases de sono, que vão ciclando durante a noite. O tempo de cada ciclo desse é em torno de 90 a 115 minutos e precisamos, no mínimo, de cinco ciclos desses enquanto dormimos, dando em torno de sete a oito horas de sono por noite ininterruptos”, destaca o neurocirurgião Pablo Fruett, membro da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia
O neurologista Jasper Guimarães alerta: o padrão elétrico do cérebro muda conforme a pessoa envelhece. “Jovens costumam ter sono mais profundo, menos despertares e maior estabilidade nas fases do sono. Porém, quando envelhecemos nosso sono profundo diminui, fica mais fragmentado e há mais despertares”, explica.
Fique por dentro
Estudo
Um novo estudo internacional, realizado por pesquisadores dos Estados Unidos e Austrália e publicado na revista científica Jama Neurology, demonstrou que alterações cerebrais durante o sono podem estar diretamente ligadas ao risco de desenvolver demência no futuro.
A pesquisa analisou exames de sono de mais de 7 mil adultos, acompanhados por até 17 anos. Nenhum dos participantes tinha demência no início do estudo.
Como a pesquisa foi feita
Os cientistas utilizaram exames de polissonografia — teste que monitora a atividade cerebral durante o sono — aliados a sistemas de Inteligência Artificial e aprendizado de máquina.
A tecnologia avaliou padrões das ondas cerebrais durante a noite e criou o chamado Índice de Idade Cerebral (BAI, na sigla em inglês), que compara a “idade” do cérebro com a idade cronológica da pessoa. O estudo reuniu dados de cinco grandes pesquisas populacionais dos Estados Unidos, envolvendo participantes entre 40 e 94 anos.
Índice de Idade Cerebral
É calculado a partir da atividade elétrica cerebral registrada durante o sono por meio do eletroencefalograma (EEG).
Na prática, o sistema identifica se o cérebro apresenta padrões considerados mais “jovens” ou mais “envelhecidos” para aquela faixa etária. Por exemplo: uma pessoa de 50 anos cujo cérebro apresentava atividade semelhante à de alguém de 60 anos era considerada com envelhecimento cerebral acelerado.
Descoberta
Segundo a pesquisa, cada diferença de 10 anos entre a idade cerebral e a idade real elevou em cerca de 39% o risco de desenvolver demência. Ou seja, quanto mais “velho” o cérebro parecia durante o sono, maior era a probabilidade de desenvolver doenças neurodegenerativas, como Alzheimer, ao longo dos anos.
Os autores destacam que o método ainda precisa de mais estudos antes de ser usado rotineiramente na prática clínica. Mesmo assim, os pesquisadores apontam que a tecnologia pode se tornar, futuramente, uma ferramenta não invasiva para identificar precocemente pessoas com maior risco de demência.
Limpeza cerebral acontece à noite
A função do sono vai muito além do que promover descanso. De acordo com o neurologista Leonardo Maciel, do São Bernardo Samp, há pesquisadores que acreditam que o descanso não é a principal função do sono, já que é possível descansar sem dormir.
Uma das principais funções do sono, segundo Maciel, é promover uma limpeza cerebral por meio do chamado sistema glinfático, responsável por remover resíduos metabólicos associados à demência.
“Essa limpeza é mais eficiente à noite, igual ocorre com o hormônio do crescimento. Além disso, durante o sono, há ainda uma função anti-inflamatória, que diminui a inflamação dos neurônios e do corpo inteiro, sendo muito importante quando o sono é de qualidade”, explica.
“Há também a diminuição de substâncias tóxicas, como a beta-amiloide, sendo uma das precursoras da doença de Alzheimer”, alerta o médico
Leonardo aponta ainda que dormir bem, sem qualquer luz no ambiente, diminui as chances de crianças terem alguns tipos câncer. “Essa luz que os pais deixam no quarto dos filhos aumenta estatisticamente a chance da criança ter alguns tipos de leucemia, e isso já está provado cientificamente”, destacou.
Prevenção
Além do sono, dieta de qualidade, atividade física e intelectual estão entre os hábitos relacionados à prevenção de demências, conforme aponta Leonardo.
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