Especialista alerta para uso de caneta: "Remédio não faz milagre sozinho"
Especialistas alertam que remédios para emagrecimento exigem mudança de hábitos, enquanto nova medicação em estudo aponta perda de até 38 quilos
A medicina não nega os benefícios que os medicamentos à base de GLP-1 podem trazer à saúde. Além do emagrecimento, estudos já comprovam que as medicações podem ainda reduzir riscos de outras doenças, como as cardiovasculares, renais e câncer, além de auxiliar no tratamento de apneia obstrutiva do sono.
Mas há um alerta para aqueles que querem fazer uso da medicação. “O remédio não faz o milagre sozinho. Ele funciona como o motor de uma bicicleta em uma subida íngreme. Ele torna a subida muito mais leve e viável, mas o paciente ainda precisa pedalar. Esse 'pedalar' é a mudança no estilo de vida. Comer melhor, praticar atividade física para proteger os músculos e cuidar do sono”, destaca a endocrinologista Maria Amélia Julião.
A médica, que é presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia no Estado do Espírito Santo (SBEM-ES), reforça ainda que o medicamento abre uma janela de oportunidade para o paciente construir novos hábitos.
“Se o tratamento for interrompido por conta própria ou se os hábitos não mudarem, o peso volta, porque a doença continua ali. Tratamento de obesidade é um processo contínuo, seguro e sempre com acompanhamento médico”, alerta Maria Amélia.
A Tribuna — A procura maior dessas medicações é por quem precisa?
Maria Amélia Alguns dados mostram que mais de 95% dos usuários buscam a medicação para fins exclusivamente estéticos, ou seja, para perder aqueles quilos indesejados, que não configuram um risco iminente à saúde.
Esses novos medicamentos podem ser vistos como solução definitiva para obesidade?
Definitivamente não existe solução definitiva ou cura para a obesidade, porque ela é uma doença crônica, complexa e multifatorial. Assim como controlamos a hipertensão ou o diabetes para a vida toda, o controle do peso também exige um cuidado contínuo.
Não há como negar que essas novas medicações como o Ozempic, Mounjaro e Wegovy representam uma verdadeira revolução na medicina. Elas não apenas ajudam na perda de peso a níveis antes só vistos com cirurgias, mas também protegem o coração, os rins e controlam o açúcar no sangue. Elas mudaram a história do tratamento de várias doenças. No entanto, o remédio não faz o milagre sozinho.
A sociedade tem buscado emagrecimento rápido, sem muito esforço?
A prática clínica mostra que caminhos fáceis têm duração curta e não são sustentáveis. Para quem trata a obesidade como doença, o remédio é uma ferramenta legítima. O problema é o uso puramente estético para perder poucos quilos sem mudar hábitos. As novas medicações são fantásticas para dar o fôlego inicial, mas elas são o meio, não o fim. Cortar caminhos na saúde geralmente nos deixa mais longe do destino.
Nova medicação promove perda de peso de 31 quilos
Uma nova medicação em desenvolvimento para o tratamento da obesidade apresentou resultados que se aproximam dos obtidos com a cirurgia bariátrica.
Dados divulgados pela farmacêutica Eli Lilly, mesma do Mounjaro, mostram que pacientes que utilizaram a retatrutida perderam, em média, de 31,9 quilos em 80 semanas. Em quase dois anos (104 semanas) a perda de peso média foi de 38,5 kg.
Os resultados fazem parte do estudo clínico de Fase 3 Triumph-1, que avaliou adultos com obesidade ou sobrepeso associado a pelo menos uma comorbidade relacionada ao peso. A medicação, ainda em estudo, não está disponível para venda, sendo utilizada apenas em pesquisas clínicas.
Segundo a Lilly, participantes que receberam a dose de 12 mg perderam, em média, 31,9 kg, o equivalente a 28,3% do peso corporal, após 80 semanas. Quase metade dos pacientes (45,3%) alcançou redução igual ou superior a 30% do peso, percentual tradicionalmente associado aos resultados da cirurgia bariátrica.
A retatrutida é aplicada uma vez por semana e atua em três hormônios ligados ao controle da fome, saciedade e gasto energético: GIP, GLP-1 e glucagon. Por isso, é conhecida como um agonista triplo, mecanismo considerado um avanço em relação às terapias atuais, que atuam em um ou dois desses receptores.
“Os dados da retatrutida impressionam, pois quase todos os participantes tiveram redução de peso clinicamente relevante. Quem tinha obesidade grave na dose mais alta perdeu em média 30% do peso em dois anos. Mais do que a perda de peso, vimos melhora real nos marcadores de saúde avaliados. A molécula pode representar um potencial avanço no tratamento da obesidade”, destaca o médico Luiz André Magno, diretor médico sênior da Lilly no Brasil.
O remédio ainda está em estudo e não foi submetido para análise das agências reguladoras, como FDA e Anvisa.
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