Mãe e filho em missão especial nos presídios
Os dois compartilham a rotina profissional como policiais penais, atuando em presídio e na formação de novos policiais no Estado
Mais do que laços de sangue, Uliceia Neuza Dias, 67 anos, e o filho Allan Dias de Oliveira, 38 anos, compartilham a mesma missão de cuidar de pessoas, preservar a segurança e transformar vidas dentro do sistema prisional capixaba. Unidos pela profissão, mãe e filho carregam histórias marcadas por superação e responsabilidade social.
Atualmente, os dois são policiais penais. Uliceia iniciou sua trajetória na Secretaria da Justiça (Sejus) em 2005 e atua no Centro Prisional Feminino de Cariacica. Allan entrou dois anos depois, aos 20 anos, e hoje trabalha na Academia de Polícia Penal do Espírito Santo (Acadeppen), ajudando na formação de novos policiais penais.
“Terminei o ensino médio sem saber exatamente o que fazer. Nunca foi um sonho. Acontece que surgiu o processo seletivo e tendo minha mãe como referência, comecei a trabalhar. Depois fui entendendo a dimensão do que era esse serviço.”
Na rotina do Centro Prisional Feminino, Uliceia atua diretamente na movimentação das internas. É onde gosta de estar. Sua tarefa garante o acesso das detentas a atendimentos médicos, psicológicos, assistência social, escola, trabalho e demais serviços.
“Esse é um trabalho silencioso, mas essencial para o funcionamento da unidade e para a própria ressocialização das mulheres privadas de liberdade. Gosto de participar do dia a dia, da rotina.”
Na Academia de Polícia Penal, Allan ajuda a preparar novos profissionais para a carreira. Para ele, a formação vai muito além das disciplinas técnicas. “A formação vai além da sala de aula. É entender o peso da responsabilidade que existe quando se trabalha com pessoas”.
Entre mãe e filho, a admiração é mútua. Allan resume a relação com a mãe de forma simples e profunda: “Ela abriu mão de muita coisa para cuidar da gente (família)”.
Os dois chegaram a trabalhar juntos em unidades prisionais, experiência que, segundo eles, fortaleceu ainda mais o vínculo familiar. “A magia é isso: nós dois trabalharmos juntos”, resume Allan.
Depois de quase duas décadas, mãe e filho seguem dividindo a mesma missão: contribuir para a segurança pública, preservar vidas e mostrar que, por trás das grades, também existem histórias humanas que precisam ser compreendidas.
“A gente aprende a olhar o mundo de outra forma trabalhando aqui”, finaliza Allan.
Allan Dias de Oliveira policial penal
“O ambiente prisional exige disciplina”
A Tribuna — O que te motivou a seguir carreira policial?
Allan dias — Entrei na Secretaria da Justiça aos 20 anos, em outubro de 2007. Na época, minha mãe já trabalhava na Penitenciária Feminina de Tucum. Meu primeiro local de trabalho foi o antigo CDPC, em Cariacica, conhecido como presídio de contêineres.
Entrar para o sistema prisional não surgiu de uma ideia de vocação ou sonho de infância. Naquele momento, o trabalho representava principalmente uma necessidade.
Ter sua mãe como policial penal ajudou nesse processo?
Minha mãe teve um papel importante nesse processo porque sempre se preocupou para que eu tivesse uma profissão e alguma perspectiva de futuro. Hoje, percebo que eu era um jovem com poucas perspectivas e que o sistema prisional acabou sendo uma oportunidade real de inserção no mundo do trabalho.
Foi ali que comecei minha vida profissional, construí minha independência financeira e amadureci como trabalhador e como pessoa.
Como se sente por seguir a mesma trajetória profissional da sua mãe?
Com o passar do tempo aprendi a reconhecer a importância do trabalho que realizamos e também a enxergar minha mãe de outra forma.
Durante a infância, ela sempre trabalhou muito e tinha pouco tempo disponível para estar conosco, mas nunca deixou de demonstrar cuidado e preocupação com nossa educação e nosso futuro.
Hoje entendo que todo aquele esforço também era uma forma de amor. Tenho muito orgulho da trajetória dela, da honestidade, da responsabilidade e da força que sempre demonstrou. Minha mãe foi meu primeiro grande exemplo de trabalho digno.
Como encara o trabalho realizado nas unidades prisionais do Estado e a sua contribuição para a segurança do sistema?
Vejo o trabalho no sistema prisional como uma atividade de enorme responsabilidade social. O ambiente prisional exige disciplina, comprometimento, humanidade e capacidade de lidar diariamente com situações complexas.
Hoje, atuando na Acadeppen, procuro contribuir especialmente na formação e no cuidado com os nossos colegas policiais penais. Acredito que fortalecer os trabalhadores do sistema também fortalece toda a política de segurança pública e a própria execução penal.
Entendo que trabalhar no sistema prisional é também acreditar na possibilidade de transformação das pessoas e na importância de construirmos instituições cada vez mais responsáveis, humanas e comprometidas com a sociedade.
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