Escritora lança o “Manual de sobrevivência” para pais de adolescentes
Escritora defende que o segredo não está em controlar os filhos que estão na fase da adolescência, mas em aprender a ouvi-los
Criar filhos nunca veio com manual. Mas, quando a infância termina e chegam as explosões emocionais, os silêncios, os conflitos e a necessidade de independência dos adolescentes, muitos pais sentem que perderam o “mapa” dentro de casa.
Há mais de 20 anos estudando a adolescência e acompanhando famílias, a educadora parental, psicopedagoga e escritora Claudia Alaminos defende que o segredo não está em controlar os filhos, mas em aprender a ouvi-los.
Autora do livro “Manual de sobrevivência para pais de adolescentes”, ela explica por que é preciso estimular os jovens a refletirem sobre erros e acertos — e como conexão, escuta e limites podem transformar a convivência dentro de casa.
A Tribuna — Por que você decidiu escrever esse “manual de sobrevivência” para pais de adolescentes?
Claudia Alaminos — A adolescência é um tema que eu estudo há mais de 20 anos. Eu sou educadora parental, então atendo pais e famílias de adolescentes, e uma das coisas que sempre defendi é que não existe fórmula pronta para criar filhos.
Não dá para dar uma dica genérica e achar que ela serve para todos os adolescentes. Mas existe uma questão fundamental: para educar bem um adolescente, os pais precisam primeiro entender a fase.
Essas mudanças — irritação, afastamento, rebeldia — são esperadas e fazem parte do desenvolvimento cerebral. O adolescente está tentando descobrir qual é o lugar dele no mundo.
E por que essa fase costuma ser tão difícil para os pais?
Porque a criança é guiada o tempo inteiro pelos pais: o que veste, o que come, a escola em que estuda. Já o adolescente precisa crescer e desenvolver independência. A adolescência é um estágio para a vida adulta.
Eu gosto muito de uma comparação: na infância, os pais são um mapa. O mapa leva do ponto A ao ponto B. Na adolescência, os pais precisam virar bússola. Precisam dar direção, valores, princípios, mas o adolescente também precisa começar a descobrir quem é e para onde quer ir.
Então não significa “deixar fazer tudo”?
De jeito nenhum. Ele ainda não tem condições de tomar todas as decisões sozinho. Existem coisas inegociáveis. Se uma decisão coloca em risco a saúde, a segurança ou o futuro dele, os pais precisam dizer não.
Agora, há situações em que o adolescente pode exercer individualidade. Às vezes os pais entram em guerra porque o filho quer usar uma roupa que eles acham feia.
Como colocar limites sem afastar os filhos?
Um certo afastamento é esperado e até necessário. O adolescente precisa construir a identidade dele. O problema é quando esse afastamento vira isolamento.
Se os pais criticam tudo — a roupa, a música, os gostos, os amigos — o adolescente sente que tudo o que existe nele está errado. Isso dificulta a construção da identidade.
Por isso, uma das coisas mais importantes é aprender a ouvir. Os pais querem ensinar o tempo inteiro, mas os adolescentes querem falar sobre quem eles são.
Demonstrar interesse pelo universo do adolescente ajuda?
Muito. Pode ser maquiagem, videogame, música, esporte. Quando os pais se interessam pelo que os filhos gostam, o adolescente se sente importante.
Outra coisa valiosa é criar momentos individuais. Se a família tem mais de um filho, é importante sair com um de cada vez, ouvir aquela pessoa sem dividir atenção. O adolescente precisa sentir que tem importância na família.
Você fala sobre fazer o adolescente refletir sobre os próprios erros. Por quê?
Porque adolescentes erram. Assim como adultos também erram. Mas a tendência dos pais é começar apontando o erro: “Eu não falei?”, “Você sabia que isso ia acontecer”. Quando o adulto entra acusando, o adolescente entra em modo de defesa. Ele tenta justificar, coloca a culpa no amigo, no professor, em qualquer outra pessoa.
É importante dizer que determinada atitude foi errada, claro. Mas depois disso, o mais importante é perguntar: “O que você pode fazer diferente da próxima vez?”.
E o que os pais devem fazer nos momentos de explosão emocional?
Na hora da explosão, a parte emocional do cérebro está dominando. Não adianta tentar ensinar ou dar sermão, porque ele não vai aprender nada. O melhor caminho é acolher a emoção. Dizer: “Eu estou vendo que você está com raiva, frustrado ou irritado”. Dar nome ao sentimento.
Depois disso, é importante interromper o conflito e esperar todos se acalmarem. Quando a parte racional do cérebro volta a funcionar, aí sim é possível conversar, refletir e até mudar comportamentos.
Por que o livro fala em “sobrevivência”?
Porque, antes de construir uma convivência leve e positiva com o adolescente, os pais precisam sobreviver às manifestações da adolescência. O livro reúne as principais queixas que ouvi de mais de mil famílias atendidas ao longo dos anos e traz estratégias para lidar com elas. A ideia é ajudar os pais a entenderem o que é esperado dessa fase, para depois construírem uma relação enriquecedora.
As telas e redes sociais têm atrapalhado esse convívio?
Muito. Muitos adolescentes estão socialmente reclusos, com dificuldade de convivência presencial, sem interação familiar e isolados dentro do quarto.
Além disso, as redes sociais criam comparações constantes e uma sensação de inadequação. O adolescente olha para vidas maquiadas e sente que não pertence, que não é suficiente. Isso pode gerar ansiedade, depressão e baixa autoestima.
Há uma boa notícia para pais que atravessam essa fase?
Existe (risos). A adolescência não é só conflito. É um momento extremamente potente, cheio de transformação e esperança.
Os pais precisam entender que aquela criança está se tornando outra pessoa: mais autônoma, mais consciente de si. Existe muita coisa bonita acontecendo nesse processo.
Quem é?
Claudia Alaminos
É fonoaudióloga, psicopedagoga, mestre em Psicologia e Educação, educadora parental e pesquisadora das relações familiares na adolescência.
Tem pós-graduação em Educação Parental e Inteligência Emocional, além de especialização em Neurociências e Comportamento.
É autora do livro Manual de Sobrevivência para Pais de Adolescentes, obra dedicada a apoiar famílias na compreensão e abordagem dos desafios dessa etapa da vida.
MATÉRIAS RELACIONADAS:
Comentários