As nuvens políticas se movem
Derrota de Orbán na Hungria reacende debate sobre avanço e limites de modelos políticos iliberais no cenário global
José Vicente de Sá Pimentel
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Viktor Orban sofreu uma derrota irrefutável nas eleições de domingo passado na Hungria. Seu partido recebeu menos de um terço dos votos, o que garante a ascensão do oposicionista Peter Magyar ao cargo de Primeiro Ministro. Dirão alguns que o que acontece na Hungria, um país com menos de 10 milhões de habitantes, não repercute no cenário global. Além disso, havia um cansaço natural com Orban depois de dezesseis anos no poder.
Acontece que Budapeste se tornou, nos últimos anos, um banco de ideias para projetos políticos chamados de iliberais. Como se sabe, Kevin Roberts, presidente da Heritage Foundation, considerava Orban não apenas um modelo, e sim “o” modelo da governança conservadora. Com base na experiência húngara, a Heritage desenvolveu o Projeto 2025, que adaptou as ideias e métodos de Orban à realidade americana.
O modelo prevê a sobreposição do líder eleito às instituições que poderiam contestá-lo, em particular a imprensa, as universidades e o Judiciário. Para tanto, encoraja aliados milionários a comprar empresas jornalísticas e impor, de dentro, limites à liberdade de imprensa.
Na burocracia estatal, sobretudo no Ministério da Justiça e nos órgãos de segurança, os funcionários experientes são substituídos, não por critérios meritocráticos e sim pela fidelidade ideológica. Militares são designados para policiar instalações elétricas industriais, para manter a população com medo de terroristas.
O medo e a repetição massacrante são partes essenciais do modelo. O inimigo ameaçador justifica o endurecimento das leis. A repetição ad nauseam gera o fenômeno da verdade ilusória, consagrado pelo ministro de propaganda nazista Joseph Goebbels, para quem “uma mentira repetida mil vezes é aceita como verdade”.
No caso húngaro, o primeiro inimigo foram os imigrantes, que “diluíam o sangue da nação húngara”. Numa segunda fase, a ameaça recaiu sobre os mecanismos públicos de busca da equidade entre homens, mulheres e populações LGBT+, rotulados de degenerações ocidentais.
As palavras de ordem permitiam interferência nas universidades e no sistema de saúde pública, bem como mudanças na legislação, que concentravam mais instrumentos de poder nas mãos do Primeiro Ministro.
Na campanha eleitoral, o inimigo escolhido foi a Ucrânia. Zelensky teria concentrado tropas no extremo leste húngaro. Orban não aparecia nas propagandas eleitorais, elaboradas com recursos de IA, produzidas e financiadas, segundo consta, por parceiros do Vale do Silício.
Por tudo isso, temia-se que o anúncio da vitória do partido de Peter Magyar provocasse tumultos semelhantes aos de 6 de janeiro de 2021 em Washington, ou de 8 de janeiro de 2023, em Brasília. Talvez pela dimensão da derrota de Orban, talvez a explosão de alegria popular que tomou as ruas de Budapeste não deu espaço para atos golpistas.
Ficou, isso sim, a sensação de que não há nada de inevitável nos movimentos autocratas. Se o momentum da ultradireita foi barrado na Hungria, a democracia poderá resistir em outros países.
Trump deu inúmeras demonstrações de apreço por Orban. Não funcionou. A propaganda com IA não atingiu patamares convincentes. A influência negativa da guerra no Irã acabou pesando mais. Ser amigo dos americanos foi, afinal, contraproducente. É bom que políticos em outros hemisférios se deem conta dessa tendência, pois há indícios de que as nuvens políticas escureceram para Trump.
No momento, é como se o Estreito de Ormuz fosse propriedade dos guardas revolucionários iranianos. A ameaça de deslocar a esquadra naval para bloquear a área parece um improviso, predestinado a causar mais estragos do que benefícios ao mundo inteiro, inclusive aos EUA.
A economia americana já se ressente da instabilidade do mercado internacional e a popularidade de Trump está em queda livre, enquanto os Democratas ganham estímulos para fazer em 3 de novembro o que os húngaros fizeram domingo passado.
Os problemas trumpistas não acabam aí. O embate com o Papa Leão XIV é lamentável, sob qualquer ponto de vista. A investigação sobre o affair Jeffrey Epstein se aprofunda nos caminhos do dinheiro.
Em paralelo, recentes apurações sugerem que o atentado de julho de 2024, em Butler, Pennsylvania, teria sido pura encenação. Vários influenciadores Republicanos romperam com Trump. Em suma, o retrato atual é de um governo vivendo seu inferno astral.
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