“Eppur si muove”
Crônica alerta para impactos da guerra e da crise climática ignorada no debate global
José Vicente de Sá Pimentel
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Começo esta crônica com duas ressalvas. A primeira é que ninguém deve se horrorizar com as guerras. Sempre existiram. De fato, na teoria realista, a utilização do poder é um verdadeiro imperativo ético. A contrapartida é que uma guerra exige a mais rigorosa e fria das análises, e não é isso que vem acontecendo no ataque ao Irã.
Não se sabe qual o objetivo de Trump. Tem razão Joe Kent, que renunciou ao cargo de Diretor de Contraterrorismo dos EUA por considerar que não existe ali uma ameaça real aos interesses americanos. Por sua vez, há décadas Netanyahu planeja arrasar o Irã. Se Trump satisfizer o amigo Bibi, a ofensiva não terminará tão cedo. Imagine o número de mortos, a legião de migrantes, a quantidade de recursos necessários para a reconstrução de um país de 1,65 milhão de km e 92 milhões de habitantes. Imagine também os danos ao meio ambiente que as bombas causarão.
Aqui vem minha segunda ressalva. Falar de questões ambientais desliga uma chave na atenção de muita gente. “Isso não me interessa”, dizem os negacionistas. “Não há nada que eu possa fazer”, acrescentam os que se dizem pragmáticos. O mecanismo de defesa faz com que se dissociem da realidade. Mas, parodiando Galileo Galilei, “eppur il problema si muove”.
Já foi dito que a mudança climática é a grande ameaça de longo prazo para um mundo assoberbado por crises de curto prazo. Os cientistas alertam, há muito, que a queima de combustíveis fósseis levará a um aquecimento global crescente. No entanto, as temperaturas aumentaram devagar durante o século XX, o que gerou a impressão de que o aquecimento seria administrável.
O cenário mudou. Dentro de quinze anos o globo terrestre deverá atingir, permanentemente, um nível de aquecimento de 1,5 grau além dos níveis pré-industriais. Este é o patamar que os signatários do Acordo de Paris queriam manter no fim deste século. Para tanto, comprometeram-se a reduzir a emissão de gases do efeito estufa. Na COP-30, verificou-se que os progressos ficaram aquém do combinado. Os EUA sequer compareceram à reunião. Antes da reunião, como se sabe, os EUA retiraram-se do Acordo de Paris. O ataque ao Irã não é a única demonstração de menosprezo pelas regras de boa convivência global.
Nos últimos 50 anos, queimamos carvão, petróleo e gás, cortamos árvores e atiramos no sistema climático o equivalente em calor a 3,6 bilhões de bombas atômicas do tipo lançado em Hiroshima. Ocorre que apenas 1 por cento desse total subiu para a atmosfera. Todas as ondas de calor, as secas prolongadas e as tremendas tempestades que vêm causando estragos em todo o mundo são causadas por apenas 1 por cento do calor que produzimos. Outros 90 por cento vão para os oceanos.
À medida que aquece, a água ocupa mais espaço. Oceanos mais quentes produzem rios atmosféricos, furacões, tufões e ciclones tropicais mais fortes.
Alteram as correntes oceânicas e os padrões climáticos, aumentando a evaporação e produzindo chuvas caudalosas. Afetam os ecossistemas marinhos, poluindo recifes de coral, provocando mortandades de peixes e mariscos, e ainda forçando a migração de espécies marinhas, como os fitoplânctons, que se encontram na base da cadeia alimentar marinha e são responsáveis por mais de 50% do oxigênio que respiramos.
Não obstante, o jogo não está perdido. A ciência avança e produz antídotos. Só não dá para continuar poluindo. O desafio é colocar todo mundo remando na mesma direção e, para isso, temos de acabar com a polarização política que atrapalha as discussões sobre mudança climática. O conselho da cientista canadense Katherine Hayhoe é não polemizar com os negacionistas, para que eles deixem de encarar os alertas científicos como se fossem ataques à sua identidade ou ao seu padrão de vida.
A ideia é ir aos poucos. Se a pessoa gosta de cuidar da casa, lembre a importância das coletas seletivas e a economia que resultará da energia solar. Os esportistas entenderão os benefícios de manter limpas as praias e as trilhas livres de plásticos e detritos. Aos executivos, acene para os ganhos com a economia renovável. É um começo, baseado na conscientização de que as perturbações ambientais têm causas humanas e as soluções devem fazer parte do nosso cotidiano.
Devem sobretudo orientar as nossas escolhas políticas. As questões ambientais precisam ser debatidas a fundo nas próximas campanhas eleitorais. Desde já abro meu voto contra qualquer candidato que minimize a importância do assunto ou, pior ainda, que queira importar dos EUA práticas nefastas para o meio ambiente brasileiro.
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