Crônica de uma guerra estúpida
Conflito expõe fragilidades do sistema global, pressiona alianças e reposiciona potências como China e Rússia
José Vicente de Sá Pimentel
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Ormuz estava aberto para cargueiros de todas as bandeiras. Os preços do petróleo mantinham-se em patamar estável, o que favorecia compradores asiáticos, vendedores árabes e o mercado global. Eis que Netanyahu convence Trump de que chegara o momento de aniquilar os aiatolás, que teriam perdido apoio popular ao reprimir os protestos populares de fevereiro.
Movido por empáfia e hubris, Trump despejou bombas no território iraniano e matou Khamenei. Só que o filho assumiu e, em vez de se render, fechou as duas pontas do Estreito.
Possesso, o ministro da Defesa Pete Hegseth ameaçou fazer o Irã regredir à idade da pedra. Mais bombas caíram, atingindo também escolas, hospitais e outros alvos civis. Nem assim os iranianos se renderam. Pelo contrário, demonstraram força para atacar países aliados dos EUA no Golfo Pérsico. Nos EUA, a economia começou a dar sinais de enfraquecimento. Ato contínuo, pesquisas registraram nova queda de popularidade do governo.
Dia 7, foi a vez de Trump trovejar num tuíte apocalíptico que, caso Ormuz continuasse fechado, “uma civilização inteira desaparecerá para sempre na noite de hoje”. Como? Explodindo bombas atômicas? Matando 90 milhões de pessoas?
No seu triunfalismo midiático, Trump vai logo cantando vitória e exigindo a subserviência dos adversários. Desta vez, porém, patenteou-se a miopia de sua estratégia. A dificuldade para vencer mais uma guerra que não deveria ter começado evidencia os limites do poder americano.
O regime iraniano sai até fortalecido pela extraordinária demonstração de resiliência. Ganhou consciência, ademais, de que o estreito de Ormuz pode ser um trunfo a seu favor, detalhe que Trump parecia desconhecer, e os russos conheciam de sobra. Nas negociações que se iniciam em Islamabad, o Irã dispõe da boa vontade e eventual assistência de Putin, que sai vencedor nesse imbróglio.
A Europa perde. Uma das mais preocupantes consequências da guerra é o agravamento das relações entre os EUA e a OTAN. Ao negarem ajuda para desobstruir Ormuz, os europeus expuseram-se a uma confrontação com o imprevisível Trump. Assim, a retirada americana do bloco passa a ser uma hipótese real. Num tal cenário, quem se beneficiaria, mais uma vez, seria Putin.
Outra consequência com que a Casa Branca não contava é que o fechamento de Ormuz expôs a fragilidade do sistema baseado em combustíveis fósseis. Os países asiáticos estão apressando compras de maquinário de energia renovável. Os EUA perdem competitividade comercial para a China, que domina a tecnologia da energia limpa.
Trump embrulhou-se com problemas imprevistos. A segurança dos cidadãos americanos entra em jogo. Nas Filipinas, por exemplo, onde foi decretado estado de emergência devido ao desabastecimento de petróleo, manifestações na frente da embaixada americana fizeram lembrar o tempo da guerra no Vietnã. Até na Austrália se fala em rever o AUKUS, aliança estratégica trilateral com os EUA e o Reino Unido para conter a China no Indo-Pacífico.
Essa evolução na política interna australiana sugere que a China, sem dar um tiro, emergiu como a principal beneficiária da guerra. O próprio Trump confirmou que a diplomacia chinesa ajudou a convencer os iranianos a negociar a paz. A confirmação aumenta o trânsito diplomático chinês. Entre os países árabes, vários porta-vozes já manifestaram de público que passaram a ter uma visão mais favorável da China.
Trump perdeu. Colou na sua imagem a manipulação por Netanyahu. Os prognósticos democratas com relação às eleições parlamentares de 4 de novembro tornaram-se muito mais otimistas, e Trump já revelou receios de que uma derrota republicana redunde no seu impeachment pelo Congresso americano. A campanha será acirrada e, nesse contexto, as eleições deste domingo na Hungria devem ser escrutinizadas, sobretudo para se aferir a influência da utilização da tecnologia da IA nos resultados eleitorais.
Por fim, impõe-se lembrar que o Tribunal de Nuremberg deitou jurisprudência segundo a qual palavras que estimulam a destruição de um povo equivalem a um crime. Juristas internacionais começam a emitir pareceres de que, no âmbito do Direito Internacional moderno, o tuíte de Trump seria o caso mais evidente da intenção de genocídio. Ou seja, além da possibilidade de um impeachment, Trump pode ter de se preocupar com um processo no Tribunal Penal Internacional.
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