Pecuarista de 77 anos mantém acervo com 3 mil prêmios da raça Nelore
Pecuarista de Piúma, de 77 anos, preserva a história iniciada pelo pai e indica a importância do aprimoramento genético do rebanho
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Na Fazenda Nossa Senhora de Fátima, em Piúma, mais de três mil troféus ocupam prateleiras e vitrines e formam um museu particular dedicado à raça Nelore. É ali que o pecuarista Gilto Domingues, de 77 anos, conhecido como o “Guardião dos Bois”, preserva não apenas as premiações acumuladas ao longo de décadas, mas um capítulo decisivo na modernização da pecuária capixaba.
O legado começou com o pai, Gilberto Domingues, pioneiro na introdução da raça no Espírito Santo. Proprietário da fazenda, Gilto cresceu entre currais e pistas de julgamento, acompanhando a consolidação genética do rebanho e a transformação do Nelore em referência produtiva no Espírito Santo.
Cada peça exposta representa mais do que um padrão de beleza: reflete seleção criteriosa, investimento permanente e dedicação ao melhoramento do plantel.
O espaço que reúne as conquistas funciona como uma linha do tempo. Há exemplares antigos, marcados pela ação do tempo, e premiações recentes, alcançadas já na maturidade. “Cada um desses aqui tem uma história. Não é só prêmio, é trabalho de anos”, afirma Gilto.
Ele recorda o período em que o pai decidiu investir na raça, ainda cercada de desconfiança no mercado local. “Muita gente não acreditava. Meu pai trouxe os primeiros animais e começou a mostrar resultado. Depois disso, tudo mudou”.
Ao longo dos anos, Gilto manteve a filosofia de aprimorar a genética com rigor técnico e planejamento de longo prazo. “Não podemos pensar apenas na próxima exposição. É preciso pensar na próxima geração”, diz o produtor. Para ele, o diferencial está na constância. “Gado de qualidade não surge por acaso. Exige estudo, escolha adequada e persistência”.
Atualmente, além de preservar a memória da raça no Espírito Santo, a Fazenda Nossa Senhora de Fátima comercializa animais e material genético para diversas regiões do País, ampliando a presença da genética desenvolvida em solo capixaba.
Gilto acompanha de perto cada etapa da criação. “Enquanto eu tiver força, continuo no curral. Isso não é apenas negócio, é paixão”.
Ele ressalta que o legado ultrapassa as premiações. “Troféu é consequência. O que permanece é a confiança de quem adquire nosso trabalho e leva nossa genética para outros estados. Isso é responsabilidade. Meu pai começou essa história.”
Legado que atravessa gerações
Mais do que uma coleção de troféus ou um plantel consagrado em exposições, a trajetória de Gilto Domingues apoia-se na sucessão familiar. O trabalho iniciado pelo seu pai atravessou gerações e segue como legado.
Hoje, Gilto divide a condução da propriedade com o filho Luciano, que participa nas decisões técnicas e acompanha o manejo do rebanho.
A nora, a médica veterinária Poliana, responde pela organização administrativa e reforça o controle de qualidade. “Entendemos que não cuidamos apenas de uma fazenda, mas de uma história construída com muito esforço. Há responsabilidade em manter esse padrão”.
A neta Renata desponta como a terceira geração envolvida na propriedade e demonstra identificação com o campo. “Cresci ouvindo o meu avô falar dos animais como parte da família. Isso cria um vínculo diferente com o que fazemos”.
Com colaboradores e a participação dos familiares, a fazenda mantém uma seleção genética criteriosa e um acompanhamento permanente. Para Poliana, o desafio consiste em projetar o futuro sem abrir mão dos princípios que consolidaram a propriedade: “O legado só se mantém com união e compromisso. É o que buscamos todos os dias”.
“O maior prêmio é o serviço bem feito”, diz domador
Antes de os animais entrarem na pista e garantirem troféus, é no silêncio do curral que a trajetória começa. Há mais de quatro décadas, essa etapa passa pelas mãos de Ademir José dos Santos, de 72 anos, amigo de Gilto Domingues e ex-colaborador da Fazenda Nossa Senhora de Fátima.
Especialista em doma, ele participou da preparação de gerações de exemplares Nelore que ajudaram a construir as mais de três mil conquistas da propriedade.
Ademir acompanhou a evolução do plantel, presenciou o avanço genético e integrou a rotina que transformou a fazenda em referência no setor. Mesmo aposentado, mantém presença constante e contribui na preparação dos animais para as exposições.
“Eu sempre gostei do curral. É ali que conhecemos o boi de verdade”, afirma. Segundo ele, a doma exige técnica e sensibilidade. “Não é grito nem força. É paciência. Cada animal tem temperamento próprio e precisa de respeito”.
Para Ademir, o reconhecimento nas pistas começa antes do julgamento. “Quando o animal entra calmo e seguro, sabemos que o trabalho deu resultado”.
Ele ressalta que o vínculo com a propriedade ultrapassa a atividade profissional. “Isso faz parte da minha vida. Vi essa história crescer e me orgulho de ter contribuído”.
Ele resume a própria caminhada: “O troféu fica na estante, mas o maior prêmio é a certeza de que o nosso serviço foi bem executado”.
Saiba Mais
História
Há cerca de 70 anos, Gilberto Domingues introduziu a raça Nelore no Espírito Santo, em um período marcado por desconfiança do mercado local. A aposta na adaptação e no potencial produtivo dos animais abriu caminho para a modernização da pecuária capixaba.
Consolidação
Já sob a condução de Gilto Domingues, a Fazenda Nossa Senhora de Fátima, em Piúma, intensifica o melhoramento genético com seleção criteriosa e participação em exposições. O trabalho técnico transforma o rebanho em referência estadual.
Reconhecimento
Com apoio de colaboradores como Ademir José dos Santos, responsável pela doma e preparação dos animais, a propriedade acumula mais de três mil troféus ao longo das décadas.
Expansão da marca
A fazenda passa a comercializar animais e material genético para diferentes regiões do País, ampliando a presença da linhagem desenvolvida em solo capixaba.
Sucessão familiar
A terceira geração assume funções na propriedade. Luciano participa das decisões técnicas, Poliana coordena a área administrativa e Renata mantém o vínculo com o campo.
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