A travessia pascal em tempos perversos
Em meio a crises e conflitos, Páscoa convida à reflexão, esperança e à reconstrução do sentido humano através da superação diária
Pós Doutor em Psicanálise, doutor em Comunicação e professor titular da Ufes
José Antonio Martinuzzo é Professor Titular da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Graduado em Jornalismo, é mestre e doutor em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense, com pós-doutorado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Pesquisa mídia, política, comunicação organizacional, redes digitais e psicanálise, sendo autor de diversos livros na área.
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Neste Domingo de Páscoa, é de se pensar como se pode viver efetivamente o espírito desta celebração em uma contingência tão pouco afeita à promoção da dignidade da vida. Em meio a guerras tentaculares e ao sabor amargo de uma sociabilidade perversa, a travessia emancipatória que o acontecimento enseja – do cativeiro à liberdade dos hebreus e da suplantação da morte aos cristãos – parece cada vez mais obstaculizada.
Numa cultura de deslimite, despudor e desprezo, em que semelhantes são objetificados e desumanizados, as guerras são várias e cotidianas. Há aquelas travadas em campos terrestres, longe da gente, mas cujos ecos nos afetam e afrontam. E há aquelas vividas nas vizinhanças, com seus morticínios acachapantes.
Fora aquelas das pontas dos dedos, na acomodação dos cômodos cotidianos, com mãos que digitam o ódio e transformam as telas em portais do horror psicopático. Há as guerras que matam o corpo, e aquelas que derrotam o espírito.
Se a quadra histórica parece – e é – pouco inspiradora, de tão sombreada pela ruindade que se apresenta, aproveitemos o espírito da Páscoa para rememorarmos que há travessias possíveis, para nos conscientizarmos de que o futuro não tem destino e que o amanhã é obra aberta.
Pico della Mirandola, em seu magistral Discurso Sobre a Dignidade do Homem, reafirma a distinção humana do livre-arbítrio, numa fictícia fala de Deus a Adão: “A natureza bem definida dos outros seres é refreada por leis por nós prescritas. Tu, pelo contrário, não constrangido por nenhuma limitação, determiná-la-ás para ti, segundo o seu arbítrio, a cujo poder te entreguei. Poderás degenerar até aos seres que são bestas, poderás regenerar-te até às realidades superiores, que são divinas, por decisão do teu ânimo”.
Das origens do humanismo, ecoa, pois, o contraponto possível à bestialidade, ao alcance aqui mesmo sob o Sol, sob o patrocínio da livre vontade de ser humanamente superior, ou divinamente humano. Em nós está, pois, a potência da inspiração que dinamiza a marcha existencial, infelizmente tão marcada pela perversidade nos dias de hoje.
Em um diálogo que só se faz possível na tessitura de um texto assentado no legado intelectual que nos trouxe até aqui, que se dê voz a Cecília Meireles, em “conversa” com a criação renascentista de Mirandola, posto que, em boa ou má contingência, a realidade é uma só: “a vida, a vida, a vida,/ a vida só é possível reinventada”.
José Comblin legou-nos como herança esperançosa o roteiro do deslocamento do abismo ao ápice: “Na origem de todas as grandes obras, houve uma fermentação de sonhos, projetos e aspirações. Houve uma dedicação apaixonada àquilo que não existia para que chegasse a existir. Houve uma intuição de possibilidades inéditas e um lançar-se furiosamente para o futuro. Não basta ter grandes desejos para realizá-los. Mas ninguém realiza grandes obras sem ter tido grandes desejos”.
Que aproveitemos essa “natureza” mutante da vida, que exercitemos a capacidade de sonhar grande e efetivar grandes superações, e que façamos da pascal travessia a escolha nossa de cada dia.
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