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TRIBUNA LIVRE

Chico Buarque não existe

Crônica reflete sobre gerações, desconhecimento cultural e o mito em torno de Chico Buarque

ANDRÉIA DELMASCHIO | 18/03/2026, 15:12 h | Atualizado em 18/03/2026, 15:19
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          Imagem ilustrativa da imagem Chico Buarque não existe
Adréia Delmaschio é escritora, pesquisadora e professora titular de Literatura no Ifes |  Foto: Divulgação

Foi há duas décadas, numa aula de literatura. A estudante, distraída com algo anterior ao celular, uma lixa de unha, eu acho, ergueu o braço e me lançou essa: “Profe, tipo assim, o que é ‘chicubuar’?”. Eu era jovem, chicólatra, a pergunta me atingiu como uma heresia. Olhos nos olhos, perscrutei se ela brincava, mas o silêncio gritava “Não”. Como chegou aos quinze anos sem ouvir falar de Chico Buarque? Pelo menos não se envergonha de me fazer a pergunta, pensei, e, portanto, nem tudo está perdido.

A inépcia geracional e o ímpeto de culpá-la pelas suas limitações, tudo se afastou num átimo, porque já pairava sobre nós o mito onipotente do cantor, compositor e escritor carioca Chico Buarque. No mais, ninguém achou graça na pergunta. Pelo contrário: alguns apresentavam a mesma dúvida, e foi assim que me resgataram do erro de imaginar que todos tivessem a obrigação de saber quem era Chico Buarque. Providenciei para que conhecessem, quanto antes, uma parte de sua obra. Afinal, não se educam estudantes imaginários.

Hoje, ampliada a obra e a admiração que de fato lhe devemos, é irresistível, contudo, perguntar, retirando o mito do panteão e pondo-o entre nós, os mortais: como poderia Chico Buarque existir igualmente para todos, se tudo é tão desigual, se, como afirma ele mesmo, numa canção, ainda temos que brigar por outra abolição?

Ruy Guerra declarou um dia: “Chico Buarque não existe, é uma ficção – saibam.”, mas, para mim, foi outro Chico (o César), quem- trouxe a fórmula exata. Numa crônica genial (a Chico César o que é de Chico César), caminhando na ponta dos pés com alpercatas de aço sobre a corda bamba que separa a sátira do encomiástico, o cantor, compositor e escritor paraibano resumiu a chicolatria que bem e mal fez e faz a nós e a Chico Buarque: “Nós amamos Chico Buarque porque ele é uma denúncia de nossas imperfeições. Toda vez que começamos a nos achar o máximo basta pensar nele para lembrar o quão tortos e tortas são nossas linhas. Chico Buarque é o aniquilamento de nossas vaidades e veleidades intelectuais e morais. De nosso ego.”

E a culpa não é, jamais foi de Chico Buarque! O artista, tipo assim, por si só e independente do que fazemos dele, não existe, é uma ficção, lembrem-se, e daquela aula até hoje muita coisa mudou no país de Chico Buarque, inclusive ele mesmo.

Como cada um de nós que sobrevivemos à pandemia e ao último pandemônio, a parcela mortal de Chico Buarque envelheceu, embora reine o consenso de que envelheceu bem. Essa parcela, afinal, viveu, sentiu, amou e desamou. Engrossou passeatas, amargou censuras, exilou-se, retornou, ganhou prêmios e homenagens, lidou com perdas e frustrações, alegrias e vícios. Como muitos de nós, ao certo calou grande parte do que poderia ter sido e não foi. Ou, ao contrário, do que não queria ter sido, mas foi, dentro e fora da sua ficção e das ficções que construímos em torno dele.

Afinal de contas, ninguém, nem mesmo Chico Buarque, pode ser a medida de todas as coisas!

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