Sexta-feira 13: por que somos tão fissurados em filmes de terror?
Horror tem atraído olhares e ganhado mais destaque dentro do meio da arte
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O ano de 2026 segue a mesma tendência de 2025 em termos de filmes de terror. A cada ano, parece que o gênero se expande, arrecadando mais fãs, enquanto faz um agrado ao público veterano. Pânico 7, A Noiva! e Werewulf são apenas algumas das novidades que chegam ao cinema durante esses meses.
Não são apenas os filmes do gênero que também tem ganhado destaque. Séries como IT: Bem-vindos a Derry e Carrie são antecipadas pelos fãs. Mesmo que nem sempre à altura das expectativas, como provou-se a sequência de Pânico, cada dia mais, parece que o horror tem atraído olhares e ganhado mais destaque dentro do meio.
Crescimento do terror e empecilhos no Brasil
Há algumas explicações por trás desse crescimento. Lucas Maia é jornalista e dono do canal Refúgio Cult, onde traz conteúdos voltados para o terror. Para o comunicador, uma das coisas que explica esse consumo elevado do gênero é causado por dois elementos que se complementam. Os fãs do tema são verdadeiros apaixonados pelas obras, do tipo que acaba por demonstrar vocalmente essa paixão. Além disso, existe também uma questão mercadológica.
Há uma diferença em se produzir filmes de super-heróis e obras de terror. Enquanto o primeiro é algo muito mais caro, o segundo pode ser feito de forma mais econômica. "O terror é mais acessível e ele tende a ter um retorno maior", explica. Ao mesmo tempo que existe essa concepção, há também uma dificuldade em se trabalhar com o gênero no Brasil.
O cineasta Dennison Ramalho, responsável por Morto Não Fala, explica que a questão do financiamento ainda impacta produções nacionais, em especial, aquelas que atuam de maneira independente. "O cinema de terror enfrenta uma segunda barreira que para conseguir conquistar um financiamento, você tem que ter a sorte de um júri que seja majoritariamente interessado nesse tipo de filme", relatou o diretor.
A nostalgia atrelada ao terror
Todas as questões na vida são cíclicas. Moda, história e música são exemplos disso. O sentimento da nostalgia é poderoso e acaba por mover a sociedade. O terror se apoia nisso na hora de criar as suas produções, não a toa, clássicos do gênero lançados originalmente há décadas ainda são atuais e possuem impacto no público.
Isso acaba também por explicar uma certa mesmice nas obras que serão retratadas. O gênero slasher por exemplo, onde um assassino implacável segue suas vítimas e as mata uma por uma, segue em alta e desperta a atenção dos telespectadores. Porém, "é um desafio para os novos diretores e roteiristas", explica Maia. "A nostalgia e o mercado dos produtores sabem que fazendo 10, 15 sequências de Pânico, vai dar dinheiro."
Ramalho concorda com a ideia de que a nostalgia acaba por levar os fãs ao cinema. Mesmo que nem sempre com garantia de qualidade, célebres vilões e franquias acabam por movimentar o mercado e são consumidos pelo público que os assistiu pela primeira vez na adolescência.
Essa repetição, no entanto, pode gerar uma saturação no gênero. A falta de mudança e inovações tende a trazer mais do mesmo, e condena o terror a uma baixa variedade.
Terror, morte e sociedade
O desconhecimento acerca do que acontece após a morte gera debates sobre fé e crenças. Consumir filmes de terror nos aproxima dessa questão, já que as obras tendem a lidar com temas mórbidos. Mesmo que ainda não haja estudos completos a respeito do que motiva o ser humano a consumir essas obras, a terapeuta Lisa Guerra narra que há uma questão de poder saber mais sobre o tema e se manter distante ao mesmo tempo.
"Algumas teorias interessantes dizem que assim como o 'brincar', o terror nos permite experimentar cenários diferentes e ameaçadores a partir de uma posição de segurança", conta. "Ou seja, podemos mergulhar em situações de tensão, medo ou ansiedade, porém estando seguros e salvos no nosso sofá."
Conforme a sociedade evolui, os temas retratados em obras audiovisuais também mudam. "Estamos sempre falando de uma forma atualizada, de medos muito na ordem do dia," explica o cineasta.
O avanço das tecnologias, em especial da internet, são temas constantes nos filmes. Suas consequências e perigos acabam por despertar a curiosidade justamente por serem um problema tão atual e recorrente.
Descargas emocionais
Obras de terror são famosas por causar medo, desconforto e uma certa ansiedade. A depender do trabalho e até mesmo gênero, as sensações causadas podem ser diferentes.
"Quando você assiste a um filme de terror, seu corpo ativa o sistema de ameaça: adrenalina, aumento de cortisol, estado de alerta", explica Guerra. "Sensação de tensão prolongada, dificuldade para dormir, pesadelos, ruminação (aquela cena passando na cabeça diversas vezes), gatilhos para quem já tem histórico de trauma ou ansiedade" são alguns dos problemas que podem ser causados a algumas pessoas.
O psiquiatra Eric Medeiros relata descargas emocionais provindas de cenas muito intensas. "Há uma grande liberação de noradrenalina, dopamina, nós temos a liberação também de alguns hormônios relacionados a um certo estresse, como, por exemplo, alterações na liberação do cortisol", conta. "Ficamos um pouco mais preparados para correr ou fugir porque a liberação de noradrenalina e dopamina nos coloca num estado de tônus muscular mais acentuado, ou seja, nossos músculos ficam um pouco mais contraídos, nossa pupila dilata, nosso coração acelera e tudo isso vai compondo a experiência sensorial do cinema e vai sendo um estímulo desejado."
É possível ficar viciado em jump scares?
"O jump scare funciona como um 'mini-choque' no sistema nervoso. Seu corpo reage antes da sua consciência, como instinto de sobrevivência, seguido de risadas ou alívio", explica Guerra. Não há nada comprovado na literatura médica que evidencie o vício em sustos, conforme explica o psiquiatra, já que "gostar de algo e querer repetir aquele estímulo não necessariamente é uma dependência".
"Na verdade, se torna um transtorno quando aquela repetição e aquela necessidade de que se repita começa a sequestrar o tempo de vida, começa a se tornar mais importante do que outras atividades e o indivíduo começa a apresentar o que se chama de um prejuízo funcional", completa.
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