Alegrias e desafios da médica mais antiga do Samu: “O choro às vezes é inevitável”
Rosana Bertulane Barroso Rangel, de 60 anos, trabalha há duas décadas no setor e conta que não pensa em parar tão cedo
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Há exatamente 20 anos, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu 192) iniciava suas atividades no Estado. São milhares de ocorrências por ano, 24 horas por dia, sem pausa para feriados ou fins de semana, com uma nobre missão: salvar vidas.
Ao longo dessas duas décadas, a médica socorrista mais antiga em atividade no Samu capixaba, Rosana Bertulane Barroso Rangel, 60 anos, acumula experiências emocionantes, divididas entre a alegria de salvar vidas e os desafios enfrentados em resgates que nem sempre têm o desfecho esperado.
Na memória, alguns casos marcantes, como descreve, entre os quais de um acidente ocorrido há alguns anos na Rodovia do Contorno, em Cariacica, na noite Romaria dos Homens – em mãe e filha de 2 anos morreram no local –, afogamentos, partos de bebês até mesmo prematuros, atendimento a pacientes com parada cardíaca e tentativas homicídio.
Para ela, um princípio sustenta cada plantão: “Você não tem o direito de dar menos que o seu melhor. É o que faço todos os dias”.
Mesmo após duas décadas, ela não pensa em parar tão cedo. “Enquanto eu conseguir dar o meu melhor, continuarei exercendo a minha vocação.”
O secretário da Saúde, Tyago Hoffmann, destaca que o Espírito Santo é um dos estados brasileiros que possuem 100% de cobertura do Samu 192 em seu território, com um importante diferencial: ter bases do serviço nos 78 municípios.
“Esse modelo garante ao Estado o menor tempo médio de atendimento do País. Em média, são 13 minutos entre a ligação e a chegada da ambulância ao local, o segundo melhor tempo do mundo”, destacou.
Ainda de acordo com ele, o Estado vem trabalhando para trazer cada vez mais inovação ao Samu 192, com o objetivo de fortalecer o atendimento pré-hospitalar móvel por meio da tecnologia.
“A ampliação do uso da tecnologia é uma premissa do governo Renato Casagrande em todas as áreas, e na saúde não é diferente. Para o Samu 192, estamos em fase de testes de um aplicativo que permitirá chamadas de vídeo e a identificação por meio da geolocalização do telefone”.
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Objetivo
O Samu 192 tem como objetivo chegar precocemente à vítima após ter ocorrido alguma situação de urgência ou emergência que possa levar ao sofrimento, sequelas ou à morte.
É um dos componentes da Política Nacional de Atenção às Urgências do Ministério da Saúde e faz parte da Rede Assistencial Pré-Hospitalar Móvel de atendimento às urgências. Ele foi instituído no Brasil pelo decreto nº 5.055, de 27 de abril de 2004.
É um serviço gratuito e que funciona 24 horas, com orientações e o envio de veículos com equipe capacitada, acessado pelo número 192 e acionado pela Central Estadual de Regulação de Urgência e Emergência.
Raio x
No Espírito Santo, atualmente, o serviço possui 116 ambulâncias em operação, sendo 92 Unidades de Suporte Básico, 24 Unidades de Suporte Avançado e uma Unidade Aeromédica. Os 78 municípios possuem base do Samu 192 com ao menos uma ambulância USB ou USA, somando 1.484 profissionais.
Atendimentos
Em 2025, o Samu 192 realizou, em todo o Estado, 263.502 atendimentos. Entre as principais causas, destacam-se trauma (70.496), outras causas (40.350), psiquiatria (25.831), neurológicas (25.662) e cardiológicas (15.679).
Rosana Bertulane Barroso Rangel médica socorrista
“O choro às vezes é inevitável”
A Tribuna — Como foi sua trajetória profissional?
Rosana Bertulane Barroso Rangel — Eu nasci em Coronel Fabriciano (MG) e vim para Vitória em 1973. Sempre gostei da área da saúde. Fiz vestibular com 17 anos e passei na Ufes. Me formei, fiz especialização em cirurgia geral e sempre trabalhei muito. Quando o Samu começou a ser implantado no Estado, a Secretaria de Saúde precisava montar a equipe rápido. Eu já trabalhava com remoção e tinha feito curso de atendimento pré-hospitalar. Fui convidada e aceitei.
Como é a sua rotina?
O plantão é de 12 horas, mas não tem horário para sair. Eu trabalho cerca de 96 horas por semana. Além do Samu, sou cirurgiã geral, faço remoção e auditoria médica. Tem situações que durmo duas horas, mas desperto feliz para mais uma missão, aquela que Deus manda. Fico imaginando quem passa a vida inteira indo trabalhar infeliz. Eu não. Eu saio de casa todos os dias feliz.
Tem momentos de lazer?
Raríssimos. Sou casada com Getesmani dos Santos Rangel Neto, 59 anos, que sempre foi o meu grande parceiro. Temos dois filhos: Igor, de 26 anos, e Amanda, de 30, que foram praticamente criados pelo meu marido. Eu dei mais qualidade do que quantidade de tempo. Ele não é médico, mas os nossos filhos são. O Igor, inclusive, decidiu aos seis anos que seria médico, depois de me ver parar o carro para socorrer um motociclista acidentado durante a minha folga.
Como é lidar com pacientes que estão lutando para viver?
A gente acolhe com todo profissionalismo e respeito. Não podemos prometer que vai dar tudo certo, mas eu sempre digo: 'Eu estou aqui, estamos juntos, vamos fazer o melhor'.
Dos casos que já socorreu, quais te marcaram mais?
São muitos. Um deles foi de acidente durante a Romaria dos Homens, à noite, na Rodovia do Contorno, em Cariacica. Um motorista, alcoolizado, tentou atravessar a rodovia e foi atingido por outro veículo. No carro, estavam a esposa e um casal de filhos. Durante o atendimento foi constatado que a mulher e a filha não tinham resistido. O pai não sofreu ferimentos graves. Já o menino teve TCE (traumatismo cranioencefálico). Foi uma cena que marcou muito: eu coloquei mãe e filha lado a lado, já sem vida, em outra ambulância, enquanto lutávamos para salvar o menino.
Situações assim exigem controle emocional absoluto durante o atendimento, mas deixam cicatrizes. O choro às vezes é inevitável, mas depois do atendimento. Durante o procedimento, você não pode se entregar.
Há outros exemplos de socorros que jamais serão apagados da sua memória?
Já atendi um menino de 8 anos encontrado em uma casa abandonada, vítima de agressão com facão. Ele estava com a mão amputada e rosto aberto. Era uma criança que gritava de dor e clamava por socorro. Já fiz centenas de partos. Já atendi afogados no Ano Novo. Isso tudo marca muito.
Se pudesse voltar atrás, seria médica do Samu?
Não mudaria nada. Faria tudo de novo. Salvar vidas é minha missão. Digo que o Samu é como se fosse o meu filho caçula, de 20 anos. Ao final de cada plantão, eu faço uma pergunta: 'eu fiz o meu melhor? Poderia ter feito algo diferente?' Se a resposta for não, eu fico em paz. Por isso a gente estuda sempre. O médico tem que estar preparado para essa missão.
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