Delegada diz que idosos escondem que foram vítimas de golpes por vergonha ou medo
A cada semana, pelo menos um idoso ou familiar procura a Polícia Civil, na Grande Vitória, para denunciar que foi vítima de golpes
A cada semana, pelo menos um idoso ou familiar procura a Polícia Civil, na Grande Vitória, para denunciar que foi vítima de golpes.
São histórias que chegam às delegacias carregadas de perdas financeiras, abalo emocional e sensação de impotência. Ainda assim, esse número está longe de refletir a real dimensão do problema.
A delegada Milena Gireli, titular da Delegacia Especializada de Proteção à Pessoa Idosa, alerta que muitos casos nunca chegam ao conhecimento das autoridades e explica os motivos.
“O sentimento de vergonha, culpa ou medo de julgamento leva muitas vítimas, especialmente as pessoas idosas, a esconder da família que estão sendo alvo de golpes. Há também situações em que a vítima acredita que conseguirá resolver o problema sozinha ou até recuperar o dinheiro perdido, o que acaba atrasando o pedido de ajuda”, explica a delegada.
A Tribuna — As famílias estão mais atentas para evitar golpes contra a pessoa idosa?
Milena Gireli — Há uma mudança perceptível no comportamento de familiares, que passaram a adotar mais cuidados. No entanto, esse movimento ainda precisa avançar. É fundamental que essa proteção ocorra de forma preventiva, antes que a pessoa idosa se torne mais uma vítima nas estatísticas de golpes, especialmente os chamados golpes do amor.
Muitas vezes, as pessoas questionam: “Como alguém caiu numa situação dessas?”. Mas é preciso considerar fatores como a solidão, o abandono e o sentimento real de estar só.
O uso mais intenso da internet contribui para esse tipo de crime?
Com certeza. Após a pandemia, todos nós passamos a utilizar ainda mais a internet, aplicativos de relacionamento e redes sociais, o que acabou se tornando um prato cheio para a atuação de golpistas.
Quais sinais de alerta os familiares precisam observar no dia a dia?
A família precisa ficar atenta quando a pessoa idosa passa muito tempo no celular, fica mais reclusa, mais defensiva ou começa a desconfiar de todos ao redor.
Esse cuidado pode evitar que a situação evolua e cause danos maiores. Mas, independentemente dos sinais, a proteção da família é essencial.
A violência contra a pessoa idosa ainda é difícil de ser identificada?
De forma geral, essa violência é muito mascarada. Há vergonha, e muitas vezes as violações de direitos acontecem dentro de casa, praticadas por filhos ou pessoas muito próximas. Isso, por si só, já cria uma barreira. Quando a pessoa cai em um golpe, essa dificuldade aumenta ainda mais, por medo e receio de críticas da própria família.
Esse silêncio funciona como um terreno fértil para os criminosos, que se aproveitam da confiança, da solidão e da fragilidade emocional das vítimas, insistem em novos contatos e ampliam os prejuízos. Quando o golpe finalmente vem à tona, o impacto costuma ser devastador.
Familiares percebem que algo não vai bem ao notar movimentações bancárias fora do padrão, pedidos frequentes de dinheiro ou mudanças repentinas de comportamento.
Muitas vezes, porém, a descoberta ocorre tarde demais: os valores já foram desviados, comprometendo o sustento, a tranquilidade e a saúde emocional de quem deveria estar vivendo uma fase de proteção e cuidado.
Os prejuízos financeiros costumam ser altos?
Variam bastante. Já houve casos de valores muito altos, como R$ 900 mil, R$ 300 mil e R$ 150 mil, mas também de quantias menores.
Ainda assim, mesmo valores mais baixos fazem muita diferença para famílias de baixa renda ou para a pessoa idosa que depende do benefício para pagar alimentação e medicamentos.
Os prejuízos mais elevados, em geral, estão relacionados a vítimas do chamado golpe do amor.
Quem pode fazer a denúncia nesses casos?
Qualquer pessoa pode comunicar o crime presencialmente, em qualquer delegacia. Não é necessário procurar diretamente uma unidade especializada. A orientação é buscar a delegacia mais próxima de casa, até porque, muitas vezes, a pessoa idosa tem dificuldade de locomoção.
E se a vítima ou o familiar tiver medo de se expor?
É possível fazer a denúncia de forma anônima pelo Disque 100 ou pelo 181. O anonimato é preservado, e uma equipe é acionada para verificar a situação. O mais importante é denunciar. O que não pode é se calar.
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