Médicos fazem alerta: mais crianças e adolescentes estão sofrendo com ansiedade
Médicos alertam que sinais como choro sem explicação, noites em claro e dor de barriga, entre outros, podem ser indícios do problema
Choro sem explicação, dor de barriga, noites em claro e resistência em ir à escola. Aproveitando o Janeiro Branco, mês de conscientização sobre saúde mental, médicos alertam que sinais como esses deixam de ser episódios isolados e revelam um problema crescente: a ansiedade já faz parte da rotina de crianças e adolescentes.
Dados da Organização Pan-Americana da Saúde indicam que de 10% a 20% das crianças e adolescentes com idades entre 10 e 19 anos enfrentam algum transtorno mental.
Essa percepção de aumento, destaca a psiquiatra infantil Fernanda Mappa, não é sentida somente no Brasil, mas no mundo.
“Dados recentes trazem que atendimentos por ansiedade em crianças (10-14 anos) e adolescentes (15-19 anos) no SUS tiveram aumentos de 1.575% e 4.423%, respectivamente (entre 2015 e 2024), com 65 mil procedimentos em menores de 17 anos”.
E quais motivos podem estar por trás desse aumento de casos? A pediatra Bruna Bressanelli, especialista em Medicina do Adolescente, alerta para o tempo de tela.
“É sabido hoje que há inúmeros estudos mostrando que o tempo de tela é demasiado. A exposição às redes sociais, como TikTok e Instagram, aumenta a ansiedade porque altera a liberação da dopamina. As telas devem ser regradas e os pais têm de entender que não precisam entreter os filhos o tempo inteiro. Tudo bem eles ficarem à toa ou ficarem entediados”.
O psiquiatra da Infância e Adolescência Rodrigo Eustáquio aponta ainda que a redução das brincadeiras livres, da socialização e a pressão para o desempenho na escola e no contexto social, além do ritmo mais acelerado da sociedade, fazem com que crianças e adolescentes tenham mais gatilhos para desenvolver sintomas e transtornos ansiosos.
“Outro motivo para o aumento de casos é a melhora do acesso, permitindo que mais pessoas sejam diagnosticadas”.
A psicóloga Henza Rafaela Morandi, especialista pós-graduada em Terapia Cognitivo-Comportamental com foco no público infantojuvenil, alerta que a ansiedade nessas idades costuma se manifestar primeiro no corpo.
“São comuns queixas como dores de barriga e de cabeça recorrentes, náuseas, alterações no sono, tensão muscular, cansaço excessivo sem causa clínica aparente, além de taquicardia e sensação de falta de ar em algumas situações”.
Números
Dados da Rede de Atenção Psicossocial (Raps), vinculada ao Sistema Único de Saúde (SUS), indicam uma crise de saúde mental no Brasil, com a ansiedade em crianças e adolescentes superando a de adultos pela primeira vez até 2023.
125,8 a cada 100 mil é a taxa de crianças de 10 a 14 anos atendidas, naquele ano, por transtornos de ansiedade .
Entre adolescentes, 157 a cada 100 mil.
Já os adultos acima de 20 anos tiveram taxa de atendimento de 112 a cada 100 mil.
“Minha preocupação é virar depressão”
Insônia, pesadelos, dermatite, medo e choro são alguns dos sintomas que a filha de uma dona de casa de 36 anos – que preferiu não se identificar – apresenta quando está em crise de ansiedade.
A mulher conta que percebeu os sintomas mais intensos na filha quando ela iniciou o 1° ano do ensino fundamental, já que a menina chorava muito e não queria entrar em sala de aula.
Aos 5 anos de idade, a menina começou o tratamento, após receber o laudo de transtorno de ansiedade generalizada (TAG). Hoje, aos 10 anos, a estudante toma sertralina e é acompanhada por um neuropediatra.
A mãe conta que a menina tem pânico, por exemplo, se vir alguém passar mal, vomitar ou tossir. “Na última viagem, tivemos de segurá-la, porque minha irmã passou mal e, ao perceber, ela queria abrir a porta do carro em movimento”, conta a mãe.
“Eu fico arrasada. Minha mãe nunca tinha visto ela com crise, mas na viagem viu e foi a maior choradeira. Minha filha é muito boazinha, inteligente e educada. Fico preocupada de a ansiedade piorar e virar depressão. Meu medo é o futuro”.
A dona de casa deixa ainda um recado para os pais: “Não tenham preconceito de levar os filhos ao psiquiatra, ao neurologista e nem de dar medicação, porque é a vida, e é do futuro deles que precisamos cuidar hoje”.
Sinais da ansiedade em crianças e adolescentes
Prejuízo na vida diária
Quando a ansiedade impede a criança ou o adolescente de ir à escola, realizar provas, manter atividades rotineiras ou cumprir compromissos básicos, é um forte indicativo de que algo não está bem.
Manifestações físicas frequentes
São comuns queixas como dores recorrentes de barriga e de cabeça, náuseas, tensão muscular, cansaço excessivo sem causa clínica aparente, além de taquicardia e sensação de falta de ar em determinadas situações.
Também podem surgir comportamentos como roer unhas, insegurança constante e necessidade intensa de aprovação.
Crises de alta intensidade
Episódios marcados por falta de ar, medo intenso, choro incontrolável e necessidade de interromper completamente as atividades do dia. Mesmo que essas situações ocorram poucas vezes, se cada crise “acaba com o dia”, a intensidade é preocupante.
Frequência de exames
Muitas vezes, essas crianças passam por diversos exames médicos até que se compreenda que o corpo e o comportamento estão expressando um sofrimento emocional que ainda não consegue ser nomeado.
Alterações importantes do sono
Dificuldade para dormir, insônia ou despertares noturnos com a mente acelerada e sem conseguir voltar a dormir.
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