Médicos Preocupados: aumenta a venda clandestina de caneta para perder peso
Em duas semanas, 91 encomendas postais foram apreendidas. Mercadoria era enviada do Espírito Santo para várias partes do País
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O desejo de emagrecer rápido tem levado cada vez mais pessoas ao mercado clandestino de canetas para perda de peso. Sem prescrição e sem controle, o uso irregular do medicamento preocupa médicos, que alertam para os riscos.
A Receita Federal – com apoio dos Correios – apreendeu, em duas semanas, 91 encomendas postais com canetas e ampolas de Tirzepatida (vendido com o nome comercial Mounjaro).

Segundo Adriana Junger, auditora fiscal e delegada da Receita Federal em Vitória, a apreensão somou R$ 277 mil em produtos.
A mercadoria era vendida pela internet e enviada do Espírito Santo para várias partes do País, dentro de garrafas térmicas. “Esses produtos tinham características de mercadoria importada, mas sem informação de como chegaram ao País. Como a entrada foi por descaminho, não tem liberação da Anvisa e não é possível atestar qualidade e como foi refrigerado no trajeto”.

Além dos produtos clandestinos apreendidos pela Receita Federal, outras irregularidades na venda das canetas emagrecedoras têm sido comuns: a oferta e venda de produtos anunciados como manipulados pela internet, sem garantia de qualidade e exigência de receita – que é obrigatória.
A endocrinologista e pesquisadora clínica Camila Pitanga Salim apontou que produtos falsificados ou adulterados, além de não terem a eficácia esperada, podem conter substâncias inapropriadas, com riscos à saude.
“Mesmo na compra de produtos originais, quando feita de forma clandestina, existe o risco de transporte e armazenamento inadequados, que podem comprometer a eficácia do produto”.
A endocrinologista e metabologista Priscila Pessanha Faria ressaltou que toda medicação deve ter indicação médica. “Embora sejam chamadas de canetas emagrecedoras, elas não são suplementos ou medicações estéticas. É uma medicação para obesidade, que é uma doença crônica”.
A nutróloga e gastroenterologista Christian Kelly Nunes Ponzo também demonstrou preocupação com o crescimento da venda de produtos irregulares.
Além disso, ela ressalta o risco do uso por conta própria. “Como o remédio diminui a fome, o paciente pode não estar ingerindo a quantidade certa de proteína, vitaminas e minerais, por exemplo. Pode perder peso, mas às custas de massa magra, e não de gordura”.
Saiba Mais
Caneta para perder peso
Usadas para o tratamento de diabetes e obesidade, medicações que têm como princípio ativo a semaglutida (Ozempic e Wegovy) e a tirzepatida (Mounjaro) chegaram ao mercado, nos últimos anos, em forma de “canetas” para aplicação semanal.
Prescrição médica
Apesar de sempre ter sido necessária a indicação médica para o uso das medicações, somente a partir de junho passou a ser obrigatória a retenção de receita médica na venda das chamadas canetas.
Mercado clandestino
O maior rigor nas vendas nas farmácias, o custo alto dos produtos e a dificuldade para encontrar no mercado o Mounjaro levaram ao crescimento de um mercado clandestino das canetas.
ampolas de produtos que dizem ser manipulados são anunciadas em aplicativos de mensagens e redes sociais por valores abaixo do vendido em mercado, sem a necessidade de receita.
Também é possível encontrar receitas falsas sendo comercializadas, para facilitar a compra.
Produtos “importados” ilegalmente também são vendidos na internet.
Sem manipulação
A Anvisa proibiu, nesta semana, a manipulação da semaglutida usada no Ozempic e Wegovy.
A agência estabeleceu os critérios para importação e manipulação de insumos farmacêuticos ativos (IFAs) utilizados nas medicações.
Segundo a decisão, os insumos obtidos por via biotecnológica, caso da semaglutida, só podem ser importados para fins de manipulação se forem do mesmo fabricante registrado no Brasil.
No caso da tirzepatida, a Anvisa manteve a permissão para a manipulação.
Para a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, os riscos que levaram à proibição da semaglutida são “idênticos e igualmente graves” no caso da tirzepatida manipulada. Entre eles, a falta de estudos clínicos que atestem a eficácia, estabilidade, segurança ou bioequivalência das formulações.
A Sociedade solicitou formalmente que a Anvisa estenda a medida também à tirzepatida, proibindo sua manipulação.
Riscos de produtos clandestinos
Sem efeito
No caso de produtos em que não se sabe a origem ou importados de forma clandestina, o risco principal é de não ter efeitos esperados, já que não se tem a garantia da qualidade e do transporte adequado.
Além disso, não tem como garantir a segurança do que existe na formulação, já que não passa por qualquer tipo de controle de qualidade.
Doses inadequadas
Sem orientação médica, as doses são indicadas por amigos ou mesmo por pesquisas na internet.
Falta de acompanhamento
Outro problema é que, sem orientação médica, os pacientes acabam perdendo massa muscular e ficando com déficit de vitaminas e minerais – já que a medicação tira a fome.
Muitos pacientes que fazem uso por conta própria ainda apresentam problemas como constipação intestinal e hipoglicemia, por exemplo.
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