Ambulantes chegam a mais de 50 verões atendendo turistas em Guarapari
Vendedores fincaram os pés nas areias das praias da Cidade Saúde e acompanham as mudanças na rotina de turistas e moradores
Com a chegada do verão, as praias de Guarapari voltam a receber não apenas turistas, mas também trabalhadores que há várias décadas fazem da alta temporada sua principal fonte de renda.
Vendedores de picolé, coco, churrasquinho, queijo assado, artesanato e bebidas fincaram os pés nas areias - alguns há mais de 50 anos - acompanhando as transformações da cidade e a rotina dos turistas e moradores.
Mais do que movimentar a economia, os ambulantes se tornaram parte da paisagem e da memória afetiva de quem frequenta o litoral da cidade.
Muitos começaram ainda jovens, quando o turismo dava seus primeiros passos, e hoje representam uma geração que viu Guarapari crescer, se modernizar e se tornar um dos principais destinos do litoral capixaba.
De diferentes origens, esses trabalhadores têm em comum o vínculo com as areias e com o público que, a cada verão, volta a encontrá-los no mesmo ponto. Suas histórias ajudam a contar a própria história de Guarapari.
Carlos Roberto Borges, de 80 anos, conhecido como Maguila, vende coco e bebidas em um cantinho na areia da Praia do Morro, próximo ao quiosque 13. Sua história tem mais de 50 anos. Quando era mais novo, trabalhava como pedreiro e buscava um extra na praia aos fins de semana.
Após se aposentar, Maguila decidiu ficar de vez nas areias, onde trabalha todos os dias do ano, com apoio da família. “Fiz muitos clientes e amigos nesse meu cantinho. Todos os dias chego para organizar, limpar e vender água de coco, cerveja e refrigerante. E o verão, sem dúvida, é a melhor época para vender”, afirma.
Histórias como a de Maguila se repetem ao longo da orla, mostrando diferentes trajetórias unidas pelo mesmo propósito: viver do trabalho nas praias.
Natural de Minas Gerais, Jair de Almeida, 65, é um desses personagens. Conhecido pela simpatia e pelas coloridas bebidas da Caipifruta do Jajá, ele começou a trabalhar nos verões de Guarapari há quatro décadas, alternando entre a função de ambulante e garçom.
Outro rosto conhecido é o do argentino Pablo Alejandro Marcote, 57, que há 35 anos vende empanadas pelas praias do Centro.
Filho de um chef que manteve um restaurante de massas em Guarapari, Pablo decidiu seguir o caminho da gastronomia, levando para as areias um pedacinho de Buenos Aires.
Legado de família
O Churrasquinho do Paixão está presente na Praia do Morro desde 1990, quando o casal Raimundo e Jesuína Paixão decidiu empreender. O comércio da família chegou a ter três carrinhos vendendo churrasco na praia, mas, após a morte de Jesuína, restou apenas um.
Quem conta a história é a filha do casal, Kelly Paixão, que assumiu o carrinho após a morte do pai. “Morava no interior e, depois que meu pai adoeceu, voltei para cuidar dele e tocar o churrasquinho. Meu pai estava em tratamento, mas veio a falecer e, com fé em Deus e muita luta, consegui manter o trabalho”.
No início, o negócio envolvia toda a família. Os irmãos de Kelly, Teury e Douglas, ajudaram a levantar a estrutura. Quando assumiu de vez, ela contou com o apoio dos filhos, Charles e Breno.
“Eu me espelho nos meus pais, e toda vez que penso em desistir, lembro deles e ganho forças, sempre com muito amor e dedicação. Isso era a vida deles. Faço o meu melhor para os clientes que estão conosco há mais de 30 anos”.
Veteranos das praias
Caipifruta e bom humor
O mineiro Jair de Almeida, 65 anos, já trabalha há quatro décadas nos verões de Guarapari, primeiro como garçom de quiosques e restaurantes. Há 15 anos, fixou residência na cidade, e passou a comandar a barraca Caipifruta do Jajá, na Praia do Morro.
“Há 40 anos trabalho com atendimento ao público e ganho a vida durante o verão aqui. Passava três meses trabalhando como ambulante ou garçom nos restaurantes e quiosques. Depois de um certo tempo, descobri que o lugar para se morar é Guarapari”.
Ao longo dos anos, acompanhou as transformações nas praias. Se antes o movimento se concentrava no verão, hoje o fluxo de turistas é constante. “Percebo uma participação maior das pessoas durante todo o ano”.
Jair diz, com bom humor, que já conquistou uma clientela fiel. “Tem gente que, quando sai de Belo Horizonte, me liga avisando que está vindo, para que eu esteja na praia para atendê-los — e, caso não esteja, que indique alguém.”
Empanadas do argentino
O argentino Pablo Alejandro Marcote, de 57 anos, deixou Buenos Aires para morar em Guarapari com o pai. Ele já conhecia a cidade, onde costumava passar as férias na infância e adolescência. Há 35 anos, caminha pelas praias do Centro vendendo suas empanadas — quitute tradicional do país vizinho.
“Meu pai sempre trabalhou com gastronomia e tinha um restaurante de massas em Guarapari. Assim que cheguei aqui, comecei a vender as empanadas, e felizmente se tornou um sucesso. Já conheço todo mundo por aqui”, conta.
Durante o verão, as praias são o ponto preferido para vender as empanadas que ele mesmo prepara. No restante do ano, Pablo percorre os comércios da cidade. “Na praia, as empanadas de carne são as preferidas”.
Mais do que clientes, ele conquistou amigos. Muitos compram empanadas desde que ele começou a vendê-las — moradores da cidade, mas principalmente turistas e famílias que se encantaram com o “pastel do argentino”.
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