“Suplemento não substitui alimento”, alerta endocrinologista
Especialistas defendem que, mesmo com apetite reduzido, pacientes priorizem comida de verdade e refeições variadas para preservar saúde e músculos
Com a indústria criando produtos para atender ao consumidor que passou a comer menos, o desafio de especialistas agora é convencer que suplemento não substitui alimento.
Mesmo com o apetite reduzido, médicos e nutricionistas alertam que o paciente precisa priorizar refeições completas e variadas para preservar a massa muscular e garantir o consumo adequado de nutrientes.
“Suplementos e produtos funcionais não substituem a complexidade e a matriz nutricional dos alimentos in natura. A base de qualquer intervenção sustentável continua sendo a 'comida de verdade'”, destaca Maria Amélia Julião, endocrinologista e presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia - Regional Espírito Santo (SBEM-ES).
Ovos, carnes magras, leguminosas, vegetais coloridos, frutas e sementes, segundo explica a médica, oferecem fitoquímicos, modulação da microbiota e saciedade com qualidade que nenhum produto industrializado replica integralmente. “A indústria entra como aliada logística e ponte estratégica, mas o alicerce sempre será o alimento fresco e minimamente processado no prato”.
Maria Amélia ainda ressalta que alimentos industrializados com menor teor de gorduras saturadas, carboidratos refinados e porções controladas podem até funcionar como um suporte pontual na correria do dia a dia ou em momentos de transição, mas não devem virar rotina.
“O paciente precisa compreender que o corpo humano não vive apenas de proteína isolada. Para manter a saúde metabólica, hormonal e cardiovascular, precisamos de carboidratos complexos de boa qualidade como fonte de energia, gorduras insaturadas essenciais, além de uma ampla gama de vitaminas, minerais e fibras que apenas a diversidade dos alimentos frescos consegue entregar”.
A nutricionista Larice Matos lembra que a alimentação de quem usa análogos de GLP-1 deve fornecer ao corpo uma boa quantidade de vitaminas, fibras para ajudar no trânsito intestinal e proteínas para minimizar a perda de massa muscular.
“Como essas medicações também estão associadas a sintomas gastrointestinais, como constipação, uma alimentação pobre em fibras e líquidos pode contribuir para deixar o trânsito intestinal ainda mais lento”.
Marmita fit
Há nove anos, o casal Christian Costa e Érica Betzel é proprietário de uma empresa que produz marmitas ultracongeladas, a Porta da Horta.
Em 2025 eles viram a necessidade de produzir marmitas fit em menores porções e lançaram a linha Slim Fitness, com porções reduzidas de 250 g que pudessem atender as pessoas que estão fazendo uso das canetas, mas também o público que quer emagrecer sem fazer o uso de medicamentos, por meio de uma alimentação saudável. “Hoje, essa linha já corresponde por 30% a 40% do faturamento da empresa”, afirmou Christian.
Picolés com proteína e colágeno
O mercado de sobremesas geladas também está atento ao novo público que busca por alimentos mais saudáveis.
Se antes, as composições de picolés, por exemplo, era basicamente água, leite, açúcar e muitas vezes gordura vegetal, hoje, a indústria já aposta em produtos zero açúcar, sem lactose, com alto teor de proteína e ricos em colágeno.
“Temos um picolé proteico (Paletitas) no sabor capuccino com doce de leite (com 12 g de proteína) e planejamos incrementar a linha com novos sabores ainda este ano. Há ainda produtos sem adição de açúcar, zero lactose e enriquecidos com colágeno hidrolisado”, ressalta Wanderson Lamoia, diretor-presidente e fundador do Grupo Lamoia, que responde por marcas como Luigi e Paletitas.
A expectativa, segundo ele, é ter cerca de 10 lançamentos ainda este ano, parte deles dentro desse conceito.
Entre os projetos, está também o desenvolvimento de picolés e sorvetes enriquecidos por vitaminas.
“Temos um setor de desenvolvimento de produto que está sempre em busca de novidades. Na linha da saudabilidade, além do desenvolvimento de novos produtos, há todo um cuidado da empresa com a qualidade da matéria-prima, na redução de aditivos e na busca por oferecer, ao mesmo tempo, sabor e saúde”, afirma.
Mudanças em outros setores
Bebidas
A categoria de cervejas sem álcool e nas versões de baixa caloria registra forte expansão no País, uma tendência que também está ligada a usuários de canetas.
Moda
O crescimento na adesão às canetas emagrecedoras pode levar a indústria da moda a reavaliar a padronização de tamanhos, além de desenvolver coleções com maior flexibilidade e inclusão para acomodar corpos em transformação.
Estética
A perda de peso rápida gera procura por procedimentos dermatológicos e estéticos. Pacientes enfrentam flacidez e mudanças na pele, aumentando a demanda por tratamentos de sustentação, preenchimento e cirurgias plásticas.
Cabelos
O uso das medicações pode causar queda de cabelo: a perda rápida de peso pode desencadear queda temporária (eflúvio telógeno – condição causada por uma alteração no ciclo natural de crescimento dos fios), porém, expressiva, o que gera demanda por produtos capilares reparadores e profissionais da área, com dermatologistas e tricologistas.
Academias
Enquanto alguns pacientes reduzem a frequência de exercícios para perda de peso por usarem as canetas, outros buscam musculação para evitar flacidez. Esses medicamentos mudam a relação com exercício físico, deslocando parte da motivação estética para manutenção muscular.
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